Desmedida

Exposição coletiva

17/May/2018 – 16/Jun/2018

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Press Release

Na exposição coletiva “Desmedida”, prelúdio de uma pesquisa curatorial mais ampla desenvolvida na última década, o curador Diego Matos reúne um conjunto de trabalhos que retratam o Brasil, seu lastro histórico e suas múltiplas realidades à luz de um imaginário construído nas duas últimas décadas do século XXI. Na contramão aos parâmetros de uma história oficial baseada nas ideias grandiosas de progresso e civilização e na atenção ao desenvolvimento das grandes metrópoles, as investidas dos artistas aqui selecionados conflagram largo interesse em explorar, reconhecer territórios grandiosos mas invisíveis. Trata-se desse mesmo Brasil que por hora tem sido dada às costas.


Em busca de narrativas que refletem sobre outros entendimentos do que seria o chamado “Brasil profundo” e o grande sertão, a seleção contempla produções de André Penteado, Daniel Frota, Haroldo Sabóia, João Castilho, Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, Regina Parra, Romy Pocztaruk e Tuca Vieira. “Muitas destas pesquisa encontram nas profundezas do interior, deste íntimo do país, alguma condição universal, um sentimento comum demasiadamente humano. O interesse é este: confrontar o íntimo e o universal, o micro e o macro, confundindo escalas”, afirma.


O título da exposição é tomado emprestado do livro “Desmedida”, do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho. Trata-se de um relato poético de viajante quando de sua prospecção pelo Brasil, a partir de excursão pela bacia do Rio São Francisco. “Vários artistas estabelecem relações poéticas e visuais semelhantes ao escritos de Ruy. Há uma geração de artistas trabalhando com a ideia de redescobrimento. O interior do país passou por transformação sócio econômica radical nos últimos 20 anos”, afirma o curador.


De Tuca Vieira, a série fotográfica “Viagem ao Brasil” (2013) faz um retrato deste novo habitus construído sob a égide do desenvolvimento econômico e que se sobrepõe aos discursos globalizantes e homogeneizadores. Dois vídeos de Haroldo Sabóia – “Carta à Solidão (2016)” e “Na medida em que caminho” (2017) – fazem uma espécie relato poético sobre paisagens interioranas do Nordeste do país. Também o faz o vídeo “Sertão de Acrílico Azul Piscina” (2004), da dupla Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, com tom documental, mas de caráter eminentemente documental. É por ele que a própria narrativa expositiva começa. O último vídeo da coletiva, “Barca Aberta” (2016), de João Castilho, reflete sobre deslocamentos de trabalhadores no interior mineiro, perpetuando a idéia permanente de movimento enquanto forma de sobrevivência.


De André Penteado, fotografias da série “Missão Francesa” (2017) desvendam o processo civilizatório e cultural de “catequizar” o Brasil a partir de referências ocidentais. Talvez seja esse contexto registrado que demarca a primeira ação de caráter simbólico no país, na construção de uma modernidade forjada. E, de Romy Pocztaruk, trabalhos da série “A Última Aventura” (2014) investigam os vestígios materiais e simbólicos remanescentes da construção da rodovia Transamazônica, um projeto faraônico, utópico e ufanista, relegado ao abandono e esquecimento. Regina Parra é a única artista a Apresentar uma pintura da mostra. “Um Perigo um Chance” (2017), pintura de escala monumental, vem de uma pesquisa da artista que reflete sobre temas como imigração, iminências de transformação e condições inóspitas, colocando o espectador em real situação de desequilíbrio. Por fim, Daniel Frota, com sua peça sonora “It’s a Perpetual Way”, investindo na natureza circular e mântrica da musica popular brasileira, manipula a canção de Caetano Veloso, “It’s a Long Way”, de 1972, abrindo alas aos que chegam à galeria, o que põe em contato o público e o privado.


A coletiva “Desmedida” abre no dia 17 de maio e fica em cartaz até 16 de junho.


Sobre o curador


Diego Matos (Fortaleza, Brasil, 1979) é pesquisador e curador; mestre (2009) e doutor (2014) pela FAU-USP. Foi um dos curadores do 20o Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (Sesc Pompéia, 2017). É organizador, com Guilherme Wisnik, do livro Cildo: estudos, espaços, tempo (Ubu Editora, 2017). Foi assistente de curadoria da 29ª Bienal de São Paulo (2010); membro do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake (2011 – 2013); curador assistente do 18º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2013); e curador das exposições Da Próxima Vez Eu Fazia Tudo Diferente (Pivô, 2012) e Quem nasce pra aventura não toma outro rumo (Paço das Artes, 19º Videobrasil), todos em São Paulo, entre outras. Foi coordenador de Acervo e Pesquisa da Associação Cultural Videobrasil (2014-2016). Foi curador de exposições individuais de artistas como: Michel Zózimo, Rafael Pagatini, Raquel Garbelotti, Yiftah Peled, entre outros. Atuou também como professor em centros de ensino de arte e arquitetura em São Paulo (Instituto Tomie Ohtake, Escola São Paulo, Centro de Pesquisa e Formação e outras unidades do Sesc São Paulo). Ademais, escreve textos para catálogos de exposições; livros e exposições de artistas e colabora com revistas acadêmicas e de arte.

Critical essay

Desmedida [Unmeasured], thus materialized, is an expository prelude to the most diverse ruminations and lucubrations; travels and prospections; documents and images; re-significations and artistic strategies for an exorbitant and contemporary imaginary of Brazil - still open, fissured and in permanent construction. Latent is the desire to uncover an excessively complex landscape and territory; congenitally incomplete and diverse, but effectively transformed beyond that unified project of Brazilian civilization in the XX century.


In these landscapes, one discovers a Brazil made today, approached from the unhealed wounds of the past to the complexity of realities unknown to the city’s gaze. Or rather, realities that are not experienced and considered by the political proselytizing of a deep crisis that pervades us in the urban spaces of visibility, to which we are exposed and for which we act. Yes, we are an eminently urban country, but little reconciled with the immensity of its land, its people, and its historical and cultural strengths. The focus here lies, unmeasured, through art, precisely upon that which is invisible to us.


Desmedida [Unmeasured] is fundamentally an appropriate title, from the book Desmedida, by the writer and filmmaker Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010). He – an Angolan-Portuguese who ventured across Brazil through a gaze that has become foreign – establishes a poetic and critical perspective of a symbolically infinite journey that joins together a route between Luanda, Angola; Sa?o Paulo Brazil; San Francisco (the river and the border areas) and then returns to its point of origin. If indeed there is an origin and an end, or if one is dealing with a permanent sinuous and circular shifting to which we are conditioned, remains open.


If literature was the stating point for a chronicle and poetic account of a foreigner – incidentally, a fact already recurrent in our history since the first travellers, scientists and artists –; from the Ruy Duarte de Carvalho visual, poetic and documentary we have the temporal and aesthetic landmark fiction film Viajo porque preciso, volto porque te amo [I travel because I need, I return because I love you] (2009), by Karim Ai?nouz and Marcelo Gomes. If one is the chronic and history of a permanent displacement of discovery of the geographic place that is the Sa?o Francisco River, and surrounding areas, the other is a film that reconfigures the Brazilian plastic landscape, having as a guideline the narrative of a character in motion against himself in the territory of today’s hinterlands. However, the two also act with their roles reversed. This duality, coupled with the permanent confrontation between the intimate and the universal, the micro and the macro, abundance and scarcity, sunlight and darkness, development and abandonment, construction and ruin, seems to be the power of these apprehensions of the sensible reality, going against the grain of official, heroic and positivist history.


Desmedida [Unmeasured], in fact, is a common symptom of several initiatives of contemporary art in Brazil that, since the late 2000s, overflow with this continuously confronted dual condition. The most notable are the productions by Andre? Penteado (Sa?o Paulo, 1970), Daniel Frota (Rio de Janeiro, 1988), Haroldo Saboia (Fortaleza, 1985), Joa?o Castilho (Belo Horizonte, 1978), Karim Ai?nouz 1966), Marcelo Gomes (Recife, 1963), Regina Parra (Sa?o Paulo, 1981), Romy Pocztaruk (Porto Alegre, 1983) and Tuca Vieira (Sa?o Paulo, 1974); all of which start with an initial push from what symbolically lies west for us, sometimes invisible, sometimes concealed, but in continuous circular flow.


These are works that illustrate and problematize realities and fictions in the light of an imaginary constructed during the last two decades of the XXI century. Each artist, in his/her own way, causes a type of movement or transience: from the exuberant and extinct Atlantic forest to the cosmos of the hinterlands and its multiplicity; from the current migrations in search of survival and work to the transient adventures of rediscovery, experience and enchantment; from the transamazonian ruin to the transposition of the Sa?o Francisco river; from the French civilizational, cultural and scientific mission to the developmental and cultural globalization.


For now, urged by the imbalance and deconstruction of historical certainties, the visitor is summoned to this prelude, an essay on the vastness and abyss of all that is unknown, keeping in mind the idea that “time hides the best, far away, but right in here.”2


Diego Matos, curador


1 CARVALHO, Ruy Duarte de. Desmedida: Luanda, Sa?o Paulo, Sa?o Francisco e Volta. Rio de Janeiro: Li?ngua Geral, 2010. p. 67.


2 Initial verses of the song Trilhos Urbanos by Caetano Veloso.

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