Zip'Up: Trauma

Ivan Padovani

16/Jan/2018 – 24/Feb/2018

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Press Release

A experiência de congelar em imagens fragmentos de uma cidade em trânsito e, por sua essência, transitória, é uma das questões mais presentes no trabalho do artista Ivan Padovani. São Paulo é a figura-chave nesse processo, embora a capital nunca se apresente de maneira clara ou direta. Suas fotos trazem indícios de uma cidade desmembrada em recortes visuais e detalhes imperceptíveis em seus contextos originais, mas facilmente reconhecidos nesta nova configuração por quem circula nesses espaços urbanos ao mesmo tempo tão genéricos e familiares.


É o caso da nova série que exibe nesta individual, “TÍTULO”, primeira mostra do calendário Zip’Up de 2018. O conjunto apresenta imagens de obras de infraestrutura paralisadas – uma paisagem quase padrão na cidade, especialmente nos últimos anos que antecederam as transformações urbanas prometidas para a Copa do Mundo. Mas ao isolar esses blocos de concreto e vigas metálicas de qualquer outro referencial, as estruturas ganham o aspecto de monumentos, evocando um certo ideal de transformação que parece ter ficado em suspenso.


“Busco a subjetividade em relação ao ambiente, especialmente como se dá nossa relação com a cidade, onde, contraditoriamente, a arquitetura vem perdendo grande parte de sua simbologia. Eu me aproprio destas estruturas abandonadas, estes monumentos, para demarcar a memória de um insucesso”, afirma o artista.


Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.


Com curadoria de Nathalia Lavigne, “TÍTULO” abre no dia 18 de janeiro, junto com a nona edição do Salão dos Artistas sem Galeria, e segue em cartaz até 24 de fevereiro.


Sobre o artista
Ivan Padovani (São Paulo, 1978) é formado em Administração pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), pós-graduado em Fotografia pela mesma instituição e é professor na Escola Panamericana de Arte e Madalena Centro de Estudos da Imagem. Seu projeto Campo Cego integrou a exposição Time – Space – Existence, que fez parte da 15ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza. Também foi contemplado no Concurso Diário Contemporâneo de Fotografia 2014 e ganhador de bolsa para participar do Programa Descubrimientos no Festival PhotoEspaña 2014. Em 2016, foi finalista do Concurso Conrado Wessel de Fotografia com o projeto Superfície, trabalho também selecionado para o Salão Luiz Sacilotto de Arte Contemporânea 2017.


Sobre a curadora


Nathalia Lavigne (Rio de Janeiro, 1982) é crítica de arte, curadora e pesquisadora. Doutoranda no programa de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, é mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela Birkbeck, University of London e graduada em Jornalismo pela PUC-RJ. Escreve para publicações como ArtReview, Artforum, Select, entre outras. Foi uma das pesquisadoras do projeto “Observatório do Sul”, plataforma de discussões promovida em 2015 pelo Sesc São Paulo, Goethe-Institut e Associação Cultural Videobrasil.

Critical essay

Ephemeral Archaeologies


It is important to briefly exercise our imagination when looking at the concrete structures and metallic beams that serially reappear in Ivan Padovani’s photographs. Which stores could we tell from these buildings if we came across them a thousand years from now? If a city’s constructions and layouts are also material documents of a civilization, what kind of testimony would these urban skeletons, frozen in time, reveal? Would they be unfinished or partly destroyed, as the rust marks running down the concrete indicate? Would their monumental nature be merely an intention without a purpose, or were they built to actually celebrate something, ending up as involuntary monuments to nothing?


There is a permanent state of suspension in these images. Like portals in time, they seem to announce the overture to a new, still unknown phase. The future is imposing, ambitious, promising, but it still hasn’t arrived and we do not know when it will come. Meanwhile, we remain in a present that repeats itself in the shape of boring concrete beams, side by side, under the same monochromatic sky with very few variations of the color gray.


Seeking ephemeral archaeologies in a city that produces its memories not reflecting upon what it will save for the future is an important part of the artist’s creative process. In this new series, he spent two years (2015-17) following a series of infrastructure works throughout São Paulo that had been suspended during that period. The unfinished developments, though photographed in different places, always look the same – removing all other details from the images’ composition enhances this aspect. The city is never seen in its entirety, but only as dismembered parts, in apparently generic records of nowhere, if not for the very familiar vestiges that denounce the urban landscape of São Paulo.


The repetition of this dismemberment is also related to the series and the exhibition title. In Return of the Real (1996), Hal Foster, an American art critic, developed the concept of “traumatic realism” based on Lacan’s notion of trauma – which understands repetition as the only way to access a reality that never was; an attempt to remove any and all meaning from images until they become completely empty.


In the sequence seen on the very first wall, Ivan presents the same image five-fold. For a moment, we see the scars and layers that drip down the concrete block trying to find the slightest difference between each image, any detail that reveals any sort of progression or continuity of the scene, which could be infinitely repeated. The same doubt is experienced in other times, but in the opposite manner: structures that look alike, photographed from different angles, that in reality are completely distinct, even though appearing to be very similar to the others.


“No special form of city blight is nearly so devastating as the Great Blight of Dullness”, Jane Jacobs wrote in The Death and Life of Great American Cities (1961), one of the greatest critiques to the modernist orthodox urban plan. The author uses New York as an example to fight projects that wanted to adjust the city to the molds of what was seen, at that time, as a “great city”, with bridges and expressways crossing through entire neighborhoods. Many of these ideas tardily contaminated São Paulo after the 1970’s.


Ivan Padovani’s images carry a little bit of the dullness that Jacobs described, in which the lack of urban diversity leads to the bleak collapse of a city. And so, only its involuntary monuments remain, seen by no one.


Nathalia Lavigne

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