You have reached your destination

Felipe Cama

11/Nov/2017 – 12/Jan/2018

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Press Release

A nova série de trabalhos de Felipe Cama foge do suporte tradicional da pintura – telas únicas, quadrangulares ou retangulares – para formar mosaicos cartográficos criados a partir do método próprio do artista: a investigação sobre os processos de produção, distribuição e consumo de imagens e a representação digital da vida cotidiana. Os trabalhos estão reunidos em “INSERIR TÍTULO”, primeira individual do artista na Zipper, que inaugura no dia 11 de novembro. A abertura da exposição acontece durante o Art Weekend São Paulo, um roteiro artístico em que as galerias da cidade funcionam em horário estendido e oferecem programação especial.


As pinturas põem em confronto – ou em diálogo – as concepções de abstração e figuração na arte. “Os trabalhos apagam a fronteira que haveria entre o abstrato e o figurativo. Eles são ambos ao mesmo tempo”, reflete o artista. Paralelamente, refletem sobre os territórios mapeados pelas novas tecnologias e o controle que grandes corporações de tecnologia exercem sobre cada um de nós a partir do smartphone e o GPS, ferramentas hoje banalizadas.


Com um celular à mão, Felipe registrou durante anos seu deslocamento diário em serviços de geoposicionamento online – que monitoram em tempo real a trajetória realizada pelo usuário; depois, o artista verificou o traçado resultante pelo deslocamento em um dia, que foi tomado como ponto de partida para as telas. “Grande empresas de tecnologias monitoram nosso cotidiano, onde vamos, o que vemos, o que consumimos, e oferecem os dados para que outras empresas formulem suas estratégias comerciais. Os trabalhos refletem sobre privacidade e liberdade”, afirma o artista.


Sua individual levanta, ainda, questões ligadas à fragmentação na era digital. As pinturas não são compostas como peças únicas. São chassis individuais que, montados como peças, formam a totalidade do trabalho. Com texto crítico de Giselle Beiguelman, a mostra fica em cartaz até 16 de dezembro.


Sobre o artista


Felipe Cama (Porto Alegre, 1970, vive em São Paulo) examina os processos de produção, distribuição e consumo de imagens no mundo contemporâneo. Para tanto, apropria-se de representações em diversos meios – desde imagens digitais que circulam pela internet, fotografias publicitárias, fotos encontradas em álbuns de viagem virtuais e reproduções em livros de História da Arte – para compor obras em suportes como a pintura, a fotografia, a colagem e o vídeo. Seu trabalho consta em importantes coleções institucionais: Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, Museu de Arte de Ribeirão Preto, Instituto Figueiredo Ferraz, Museu de Arte de Porto Alegre, Centro Cultural Carpe Diem Arte e Pesquisa (Lisboa) e Universidade de Arte de Musashino (Tóquio).


Texto crítico: Giselle Beiguelman


Giselle Beiguelman investiga a estética da memória e desenvolve projetos de intervenções artísticas no espaço público e com mídia digital. É professora associada do Departamento de Arquitetura Histórica e Estética do Projeto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Universidade de São Paulo (FAU-USP). Beiguelman é o autora de vários livros e artigos sobre o nomadismo contemporâneo e as práticas da cultura digital. Ela foi chefe do Curso de Design da FAU-USP de 2013 a 2015, onde tem ensinado desde 2011. Entre seus projetos recentes estão “Memories of Amnesia” (2015), “quão pesada é uma nuvem?” (2016) e a curadoria da “Arquinterface: a cidade expandida pelas redes”. Ela é membro do Laboratório de OUTROS Urbanismos (FAU-USP) e do Laboratório Interdisciplinar de Informação de Imagem - Humboldt-Universität zu Berlin. Suas obras de arte estão em coleções de museus do Brasil e no exterior, como a ZKM (Alemanha), a coleção latino-americana da Universidade de Essex, MAC-USP e MAR (Museu de Arte do Rio de Janeiro), entre outros.

Critical essay

“There is a road, but no destination”, Mia Couto wrote in Sleepwalking Land. But in the land where Google Maps inhabitants live in, this equation isn’t applicable. Arriving sooner is more important. We need to shorten our routes, save time, fulfill efficiency rituals. There is no more room for drifting. Waze must provide all itineraries, regardless of us knowing or not the upcoming route. The huge amount of information about our travels, our schedules and our habits, recorded in these companies’ databases, doesn’t weigh on anyone’s conscience. It’s enough to ignore this and arrive at our destination – quickly; and, if possible, not seeing or thinking about anything.


Remotely guided crowds of drivers follow programmed itineraries. Any system failure can lead to a colossal traffic jam breakdown. But the fact is that we don’t doubt the GPS. Metallic monotone voices turn the journey through urban landscape void from any emotion. Turn right; drive northwest for 400 meters; smooth curve on the left. All the cities feel like one of the same… As if we inhabited the delusion of a character from Jorge Luis Borges’ “On Exactitude in Science”. In this short story, the author presents an Empire that was so dedicated to the art of cartography that it created a map of its own size. They coincided, point by point, in a scale of 1:1. It was, however, useless. In abolishing representation, it also destroyed imagination.


It is about this desire for a map of imaginary paths that Felipe Cama talks about in the exhibition Você chegou ao seu destino (You have reached your destination). The title, taken from the final message played in cellphone map services, is an ironic counterpoint to the series of paintings he presents here. A set of nine maps that record his routes are diaries from which all the data was erased. Only a few pieces of visual information remain: shapes, described by the itineraries’ outlines, and the colors he adds, according to personal criteria.


The results are maps of nowhere, a “Google Unmapped” – as if we treaded from trail to trace, from sulcus to seam, from figuration to abstraction. It is no accident that each of the maps is named after its production date. Time here upstages trajectory. Extracts from a series – initiated in 2011 – are almost-frames of a day-to-day in slow motion, opposing the logic of a world of permanent acceleration. Elements that escape Big Data, the large pattern masses, are specialized in these maps.


On Felipe Cama’s maps, what counts are the imperceptible aberrations and the detours that destabilize the universe of programmed routes. The original figurative organization of lines is broken, allowing for new symbolic constellations. He subverts the map as a positioning instrument and as an agent for ‘mining’ behavior, cutting off the data collection of where we go, and when. Without tracing a pre-existing world, the map gains thickness and volume. It leaves the canvas and reaches into life – with all its indefinable and unstable variables.


Giselle Beiguelman

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