Carolina Ponte

Carolina Ponte

19/Mar/2011 – 23/Abr/2011

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    TECER MUNDOS
    Daniela Name


    No crochê, qualquer ponto que vai adiante precisa voltar, concluindo assim o arremate que não evita que o tecido esgarce. Os desenhos e trabalhos com crochê que Carolina Ponte apresenta nesta exposição mostram um momento da carreira da artista em que ela faz com a própria obra o mesmo movimento que executa com linhas e agulha.


    Se um dia o crochê foi uma forma de descanso para o desgaste dos desenhos – ou um jeito de desenhar com mais fluidez –, hoje o desenho se transformou em algo mais coeso e estruturado graças à prática da artista como escultora tecelã. Quando um trabalho consegue se dobrar sobre si mesmo é sinal de que ganhou estrutura – e o uso desta última palavra também não é um acaso, já que as formas e padronagens dos trabalhos mais recentes de Carolina estão diretamente ligadas à arquitetura e à construção de um universo muito peculiar.


    A artista aprendeu a fazer crochê porque queria roupas novas para suas bonecas. Destruía as antigas e criava seus figurinos, que depois também envelheciam e iam para a zona de descarte juntamente com os modelos originais. Agulha e carretéis de linha eram mantidos em atividade contínua, quase obsessiva, com o trabalho manual servindo de motor para que ela tecesse seu próprio universo.


    Não muito depois de abandonar as bonecas, ela descobriu que queria ser artista e deu seus primeiros passos na pintura. Suas passagens pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pelas salas de aula do Parque Lage fizeram com que descobrisse uma nova linguagem, o desenho, mas também a intimidaram. Nem sempre as águas de um rio conseguem suportar as margens que lhe são impostas. E a artista padeceu com uma espécie de enchente interna, afogando seus impulsos nos medos de não se encaixar aos modelos. Muitos param neste ponto. Carolina sobreviveu ao redescobrir seu fluxo.


    O estouro da represa se deu com um trabalho fronteiriço, de 2006, que é desenho, mas também pintura e escultura. Munida de um arsenal de miçangas e canutilhos coloridos, compôs um fio com cerca de 100 metros de extensão, em que criava uma sequência de cores que podia ser um caminho direto para a geometria lúdica e caleidoscópica de Paul Klee. Ou um sobrinho da Medusa (1969), um clássico de Amélia Toledo. Com o fio, Carolina redescobriu o prazer de uma execução mecânica, próxima da meditação, hoje uma característica indissociável de sua trajetória. Esvaziar a cabeça com o trabalho duro e repetitivo é uma forma de meditação que harmoniza cores e formas em devidos lugares.


    É curioso ter lembrado Amélia Toledo ao falar de fluxo, já que a Medusa é feita de tubos plásticos cheios de líquidos coloridos. Embora nunca tenha usado água ou fluidos em seus trabalhos, Carolina migrou das miçangas e canutilhos para um desenho em que as áreas de cor pareciam boiar no espaço do papel. Em alguns deles, a aplicação de uma “aguada” de tinta no fundo reforça esta impressão de um mundo submarino e silencioso, onde as formas se atraem ou se repelem de acordo com sua vibração cromática.


    No crochê, todo ponto que vai adiante precisa voltar – dissemos acima. Ao se transformar em filha pródiga de seu primeiro impulso criativo e voltar a tecer, Carolina pôde, enfim, tomar posse de seu território. Inicialmente uma espécie de hora do recreio para os desenhos, o crochê virou outra forma de desenhar, para logo a seguir ganhar o espaço com formas que escorriam para o chão ou escalavam o teto num ritmo quase líquido, como uma fonte de jorro incessante ou mesmo pequenos vazamentos, goteiras e infiltrações.


    As mandalas coloridas feitas de linha levaram Carolina a um mergulho mais profundo no universo da padronagem. Depois dele, a ex-estilista de roupinhas de boneca vem criando um repertório artístico que não deixa de ser vizinho da moda, tanto de clássicos da Pucci ou da estamparia contemporânea de Catalina Estrada. O ornamento, desde sempre uma “beleza sob suspeita” (1) e absolutamente sedutora, poderia também aproximá-la da pintura de Beatriz Milhazes, enquanto o crochê, este suporte tão pouco usual, poderia levá-la até Leda Catunda, Ernesto Neto, Marcos Cardoso ou aos bordados de Leonilson.


    A viagem que faço no rio do artista é, no entanto, um pouco mais longa, sobretudo depois de ver seus trabalhos mais recentes. Seu desenho detalhista e quase compulsivo se aproxima do Barroco, não apenas por sua atmosfera excessiva e pela contraposição de cores, mas por realizar um tipo de composição que vai e volta ao tema, acrescentando a ele, a cada retorno, um pouco mais de informação.


    Olhar para os desenhos da artista ou ver uma de suas esculturas é algo como ouvir o Cânon em Ré Maior, de Pachelbel, em que um violino executa a melodia-base, constante, mas a cada recomeço há a entrada de um novo instrumento, com outro fraseado musical. As voltas às primeiras notas provocam um acúmulo de melodias e sonoridades diversas, porém sem esconder em nenhum momento a estrutura inicial.


    Ornar é diferenciar. Nos desenhos recentes, Carolina se apropria de padronagens egípcias, orientais, latino-americanas ou brasileiras para criar uma espécie de léxico particular, próximo à Grámatica do Ornamento, publicada em 1856 por Owen Jones. Constrói com esta estamparia brasões e bandeiras que lembram o Rococó muito mais pelas plantas arquitetônicas (2) de suas igrejas – com a nave principal se dividindo em múltiplos altares laterais – do que pela citação evidente a motivos florais e marítimos ou a volutas e outras formas típicas do estilo. A relação com a arquitetura está cada vez mais forte também nas peças tridimensionais. Elas ganharam suportes de madeira que são, ao mesmo tempo, sustentação e ornamento.


    Todo ponto que vai precisa voltar para o arremate. Sempre que retorna ao rio principal de sua obra, Carolina redesenha seu mapa de navegação com a descoberta de novos afluentes, provando já ser a comandante de seu barco.


    (1) PAIM, Gilberto. A beleza sob suspeita – O ornamento em Ruskin, Lloyd Wright, Loos, Le Corbusier e outros. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
    (2) OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

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