Era uma vez....

Marcelo Tinoco

13/Mai/2014 – 07/Jun/2014

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    As fotos-pinturas-quadros de Marcelo Tinoco. Era uma vez...


    O artista Marcelo Tinoco tem se destacado com sua produção fotográfica que lembra a maneira refinada e colorista de pintar o imaginário e a luz das paisagens renascentistas de artistas flamengos. Nas obras do fotógrafo, as imagens fotográficas recebem no tratamento o mesmo refinamento colorista e detalhista, mas com uma dose de beleza e humor adicionada às cenas contemporâneas retratadas. O que lhes confere toque de irracionalidade pois mistura os tempos. Gesto de juntar histórias dentro de uma fotografia de arte. Uma forma de narrar o tempo. Era uma vez...


    Na nova série 1900, Belle Époque Rural em exposição na Zipper Galeria, o artista continua trabalhando com a mesma fatura pictórica e tem a luz como elemento principal de suas imagens, como no movimento impressionista que surgiu na França em finais do século XIX. O grupo de artistas que formou este movimento rompeu com os cânones da pintura vigente ao sair para o campo em busca de inspiração, à procura da luz natural e das vibrações da natureza iluminada pelo sol. Deixando de lado os ensinamentos acadêmicos, pintaram a natureza em suas variações cromáticas, não mais preocupados em retratar a realidade com fidelidade. Estes preceitos inspiraram Marcelo Tinoco que busca com o seu processo artesanal construir “quadro a quadro” as novas imagens. Tinoco, em busca da mesma luz que encantava os impressionistas no começo do século passado, planeja suas viagens para refaz o percurso desses artistas.


    O tipo de luz dos impressionistas, o uso de muitas plantas e flores nas bordas das fotos como se emoldurassem a cena, referem-se todos ao estilo Art Nouveau. Sua tese é que a inspiração para o estilo artístico deste movimento viria do campo, dos camponeses. Para afirmar sua teoria, busca as raízes do movimento valorizando o ambiente rural, o ambiente deste homem do campo. Marcelo Tinoco busca reconstituir o mundo visto em filmes como Fanny & Alexander e Morangos Silvestres, do cineasta sueco Ingmar Bergman, que retratam com fidelidade a sociedade daquela época.


    A fotografia experimental de Marcelo Tinoco atinge a sua maioridade ao ultrapassar os limites do registro, levando a imagem para uma era da pós-produção digital: manipula a fotografia de tal modo que chega a sugerir situações atemporais e fantásticas. Que não estavam ali antes. Coloca em uma mesma foto dois ou mais quadros de tempos que remetem ao passado. O resultado são imagens surreais do tempo.


    Inicialmente, para chegar a estes resultados e em busca da luz perfeita para o objeto de seu retrato, captura as imagens em certa hora do dia, como faziam os pintores impressionistas; depois as reconstrói na tela do computador, tornando a fotografia uma condição ficcional, uma espécie de realismo fantástico. Ao sobrepô-las, recortá-las e completá-las, as fotografias produzem uma beleza descomunal que narra histórias fantásticas. Inebriantes aos nossos olhos. O real torna-se hiper-real, até mesmo surreal. Soma em uma mesma imagem as noções de pintura. Imagens cinematográficas e teatrais.


    Mas o que mais chama a atenção de fato é, justamente, a beleza dessas fotografias resultantes de um pensamento fílmico na sobreposição dos quadros. À diferença do cinema que encadeia quadros para dar a noção de movimento, os de Tinoco são sobrepostos, congelando a narrativa ou a cena feita de vários movimentos ou instantes em um único quadro encorpado. Densos de informações. Criam uma condição fotográfica que mexe com nossa memória, com nosso imaginário de tempos remotos somados à situações atuais. Produzem sensações visuais pelo exagero e pela intensidade das cores de que o artista faz uso. Buscam destacar nas cenas registradas as expressões e as situações humanas, misturando o contemporâneo e o passado.


    Diante dessas imagens, cabe-nos perguntar se de fato se trata de fotografia ou pintura. Questão inevitável em um primeiro olhar quando nos deparamos com estas imagens criadas por Tinoco. Ou será que se trata apenas de um fotógrafo profissional que se aventura pela fotografia artística em tempos em que os tradicionais pincéis foram substituídos pelas câmeras fotográficas digitais, com as telas substituídas pelos monitores de computador e todos os seus recursos de manipulação de imagem?


    Mas nada mais são do que novos recursos que fornecem ao artista as mesmas possibilidades pictóricas de uma paleta de tintas, de cores vibrantes que seriam espalhadas sobre uma tela de algodão a ser pintada por pincéis. E na maneira impressionista, o fotógrafo sai em busca de suas paisagens para retratá-las em suas cores mais vibrantes. Nas próprias palavras do artista, sua busca é consciente dos precedentes dos pintores impressionistas nesta série 1900, Belle Époque Rural.


    As imagens também trazem o nome das localidades onde as fotos foram feitas como Shakespeare em Bento – Bento Gonçalves, de 2013, da série: Hiper! O artista sai em busca de locações em cidades turísticas, como esta localizada na serra gaúcha. São imagens feitas para o contemplar.


    Vivemos hoje o reflexo de um fenômeno que se iniciou nos anos 1990, quando a linguagem fotográfica foi totalmente assimilada pela arte e que permitiu a fotógrafos, muitos anos depois, assimilar a fotografia como linguagem artística e extrapolar a noção de registro para captar mais do que a realidade vista. Como na série Hiper!, que tem um apelo mais gráfico. Nestas imagens há tudo o que é hiper. Hiper movimentado, hiper rebuscado, hiper bonito, hiper absurdo. Vai além do que se registra. Passa a ser também interpretação do mundo físico, registrando também suas transformações e a condição humana.


    A fotografia tornou-se antes de tudo um relato lírico que dá conta do mundo feito através do olho de uma câmera: ora é um olho vagante, ora não. Olhos que estão sempre construindo um diário visual como forma de uma crônica, conforme o fotógrafo vai acumulando suas imagens no tempo.


    Esta é uma maneira de ver e não exatamente a maneira real de vermos o mundo, com os próprios olhos. Trata-se de um novo prisma para uma realidade ampliada através da fotografia contemporânea livre de normas. A fotografia era entendida como documento fiel a uma realidade.


    Ricardo Resende, 2014 

    Texto crítico

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