Fuleragem Polissistêmica Nº 05

Camila Soato

19/Nov/2013 – 21/Dez/2013

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    Personagens a caminhar por um planalto estrepitoso e polifônico

    Fuleragem Polissistêmica nº 5, primeira individual da artista brasiliense Camila Soato em São Paulo e que fecha o ano de 2013 do projeto Zip’Up, pode ser vista como uma grande instalação pictórica, em que o desenho e o tridimensional também têm espaço, e que se aproxima de um certo olhar amador da arte cinematográfica. O versátil espaço da sala destinada a novos artistas foi ocupado por pequenas narrativas, algumas próximas fisicamente, outras a certa distância e vistas isoladamente, mas que remetem ao prazer e à fascinação das experiências primevas da imagem em movimento. Assim, as telas/stills são como snapshots que beiram o malfeito, o escatológico, o vulgar, e, que, juntos, criam outros sentidos. Ao mesmo tempo em que o prosaico é vetor poético, as especificidades do campo da pintura não se intimidam. Escorridos, pequenas zonas de cor onde o matérico se impõe, um jogo de vazios e incompletudes com áreas mais concentradas e um fundo bege em todos os trabalhos ajudam a compor o estilo particular da produção apresentada agora.

    O ar desleixado e as figuras esdrúxulas que dominam as composições da artista podem dar a falsa ideia de que o intuitivo e o superficial estejam no fazer diário dela. Nada mais falso. Soato tem disciplina algo monástica de ateliê, produzindo diariamente não apenas debruçada sobre os chassis e de pincel à mão, mas buscando um repertório de referências imagéticas variadas, via web ou outro tipo de registro (nada muito rebuscado, contudo), e lendo diversas fontes, da filosofia à literatura. Olhando atentamente, pode se encontrar essa centelha do descontrole, como se as proposições visuais de Soato unissem histórias pulp, cenas dos arrebaldes romanos dos filmes de Pasolini, escritos de Foucault e registros fotográficos descartados de álbuns de família, de imagens sépia a retratar crianças em atitudes não elogiáveis e afetuosas com amigos distintos, como bichos de pelúcia e cães vira-latas.

    A montagem mais horizontal faz também aumentar a melancolia das cenas criadas pela artista. Muito forte nesse sentido foi o traço do grafite mais presente nas composições, gerando novos diálogos com a matéria, a luz e as cores da pintura. Soato parece trazer, sem nenhuma situação forçada, um ambiente de solidão e da fantasia como escape rotineiro, tendo como fundo as paisagens sem verticalidades do Brasil central. Dá quase para sentir o ar muito seco, a falta de referências visuais de metrópoles, a terra batida, com carros e motos velhos a levantar poeira estrada afora. Urbes singulares, como se o modernismo arquitetônico de Le Corbusier, em versão tropical, se desfizesse e se aproximasse mais de conurbações habitadas por personagens à margem saídos de livros de um Cormac McCarthy, por exemplo. Nesse conjunto, importantes são os dípticos exibidos pela artista, em especial o que retrata uma menininha a abraçar um jacaré, em trabalho de maior escala que os demais. O que fita tal garotinha? Essa desconfortável resposta, como a mostrar algo sempre à espreita, um perigo iminente, mas que parece apenas passear pelos cenários, provoca essa inquietude que incomoda e permanece na retina e no pensamento do observador após visita à Fuleragem Polissistêmica nº 5.


    Mario Gioia, 2013 

    Texto crítico

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