Zip'Up: Há sempre um corpo que sobra

Maya Weishof

10/Abr/2018 – 12/Mai/2018

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Press Release

Pensar o corpo como uma possível medida do mundo é uma das questões que permeiam a primeira individual de Maya Weishof em São Paulo, em cartaz a partir de 10 de abril no projeto Zip’Up. Após desenvolver uma série anterior utilizando mapas, em que discutia temas como a cartografia e território, a artista curitibana volta-se desta vez para os limites e deslocamentos do corpo, retratando-o por meio de seus fragmentos e extremidades.


Estruturas que se multiplicam e compartilham o mesmo espaço ou membros em dimensões protuberantes surgem em formas diluídas no conjunto de pinturas sobre módulos tridimensionais e óleos sobre tela. Complementa a mostra Há sempre um corpo que sobra o vídeo “Novo Atlas Escolar Português” (2017). Desenvolvido logo após uma residência em Portugal, o trabalho parte de uma ação quase pictórica, na qual a artista usa um pó de talco para redesenhar as fronteiras dos mapas, caminhando sobre as páginas arrancadas do atlas.


“Há uma vontade de dimensionar o plano que vivo, uma intenção de compreender o espaço inalcançável pelos nossos pés, um pouco refém da dimensão do mundo e da incapacidade de mudança”, afirma a artista.


Com curadoria de Nathalia Lavigne, a mostra fica em cartaz até 12 de maio.


Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.


Sobre a artista


Maya Weishof (Curitiba, PR) é graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná - UFPR. Participou do grupo de investigações práticas em pintura, sob orientação de Regina Parra e Rodolpho Parigi; e do Núcleo de Artes Visuais SESI, sob orientação de Ricardo Basbaum. Em 2016, foi selecionada para o programa de residência artística da Zaratan Arte Contemporânea em Lisboa, Portugal. Exposições individuais: “Tente ver o oceano” (Boiler Galeria, Curitiba PR. Curadoria de Ulisses Carrilho, 2016) e “Existe uma medida do mundo” (Acervo Independente, Porto Alegre - RS. Curadoria Isadora Mattiolli, 2017). Principais exposições coletivas: “A Vastidão dos Mapas” (Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, 2017), com curadoria de Agnaldo Farias; “Confluências Poéticas” (SESC Paço da Liberdade, Curitiba, PR).


Sobre a curadora


Nathalia Lavigne (Rio de Janeiro, RJ) é crítica de arte, curadora e pesquisadora. Doutoranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), é mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela Birkbeck, University of London e graduada em Jornalismo pela PUC-RJ. Escreve para publicações como Artforum, Select, Folha de São Paulo, entre outras. Foi uma das pesquisadoras do projeto “Observatório do Sul”, plataforma de discussões promovida em 2015 pelo Sesc São Paulo, Goethe-Institut e Associação Cultural Videobrasil. Realizou curadorias como "Imagem-Movimento" (Zipper Galeria, 2016), "Apagamento - Renato Castanhari" (Galeria Sancovsky, 2017), entre outras; e o acompanhamento crítico da mostra “Still Brazil”, de Daniel Jablonski (Paço das Artes, 2018).

Texto crítico

Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem cai?a. (Valter Hugo Ma?e, O Filho de Mil Homens).


Onde termina o corpo e comec?a todo o resto? O espac?o e o limite entre aquilo que sobra, ameac?a a ordem. Membros e extremidades prolongando-se mais do que o necessa?rio; pedac?os que nascem no lugar errado e logo se espalham. Ou apenas morrem de um dia para outro, como se nunca tivessem ali brotado. O abjeto, o monstruoso.


O comec?o e? sempre queda, vazio. O corpo so? e? unidade quando algo o separa do mundo. Sem esse limite na?o ha? sujeito, na?o ha? forma. Sem identidade resta so? o abismo.


No vi?deo em que aparece deslocando-se sobre as pa?ginas arrancadas de um atlas, enquanto tenta apagar as fronteiras dos mapas com um po? de talco, Maya Weishof introduz parte do processo desenvolvido na se?rie de pinturas desta exposic?a?o. Mapas, afinal, guardam uma semelhanc?a com os corpos disformes apresentados aqui. Territo?rios tambe?m so? ganham nome e forma quando separados por limites. Ao caminhar sobre esses pedac?os de pape?is que ali entendemos como mundo, utilizando o pro?prio corpo como medida, a artista dimensiona a fragilidade desses conceitos. Eliminar as fronteiras desses territo?rios e? devolver a ideia a? pura abstrac?a?o.


A ac?a?o quase picto?rica presente em “Novo Atlas Escolar Portugue?s” (2017), vi?deo feito logo apo?s voltar de uma reside?ncia arti?stica em Portugal, funciona como uma boa transic?a?o para o conjunto recente de pinturas. Como o redesenho cartogra?fico ali realizado, tambe?m ha? nas telas um processo constante de eliminac?a?o – seja dos contornos das figuras, quase sempre indefinidos; ou no desmembramento de estruturas que ganham


vida e passam a existir sozinhas, embora nada indique que ira?o se sustentar por muito tempo. Deslocados e dilatados, esses fragmentos – ma?os, olhos, dentes – parecem vagar em busca de uma base que na?o se sabe se existe.


Entre o deslocar-se dos corpos em tra?nsito e a representac?a?o de corpos transgressores, as imagens criadas pela artista se aproximam das discusso?es sobre o abjeto trazidas por Ju?lia Kristeva em Pouvoirs de l’horreur (1980). Partindo do termo psicanali?tico que define o abjeto como algo a ser eliminado para a constituic?a?o do eu, Kristeva utilizou o conceito para explicar processos discriminato?rios como o antissemitismo e a xenofobia, ameac?as a? suposta unidade de um grupo e sujeitos hegemo?nicos. O aumento do fluxo global e a dissoluc?a?o de limites identita?rios nas u?ltimas de?cadas tornou essa discussa?o mais latente.


O corpo feminino, associado desde sempre a processos imprevisi?veis que fogem a? ideia de limite e ao controle da racionalidade, predomina nas figuras retratadas por Maya. Em uma delas, o rosto de uma mulher sem tronco se desenvolve sobre uma profusa?o de brac?os e ma?os desproporcionais, enquanto no tri?ptico os membros assumem toda a forma dos corpos, ja? sem nenhuma face.


“Subitamente, metade das coisas pareciam compostas”, escreve o narrador de O filho de mil homens, romance de Valter Hugo Ma?e. O personagem que antes era um vazio sem fim agora se completava com as partes que lhe faltavam perdidas pelo mundo.


A frase e? tambe?m uma boa definic?a?o para os corpos desmembrados nas pinturas de Maya Weishof. De metade em metade espera-se que algum dia elas se encontrem, ou cheguem a algum lugar.


Nathalia Lavigne

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