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Adriana Duque

18/Mar/2014 – 12/Abr/2014

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    Ser artista implica, entre outras questões, buscar um caminho próprio de expressão em meio a um mar de referências de obras, escolas e outros artistas. Certos artistas e obras possuem o poder de catalisar e sintetizar determinados pontos que podem auxiliar outros artistas a criar conceitos e estéticas para suas obras que estão por vir.


    Adriana Duque realiza um projeto no qual a fotografia surge umbilicalmente conectada à história da pintura. Mais especificamente, da pintura holandesa do período Barroco. "Certa vez, visitei o museu Groeninge, em Bruges, na Bélgica. Tive a oportunidade de ver as telas originais de pintores como Jan Van Eyck (c.1390 – 1441) e Hans Memling (c.1430 - 1494). Essa foi uma das experiências mais sublimes e motivadoras, que teve uma influência em todo meu trabalho fotográfico a partir de então", relata Duque.


    A problemática de partir de referenciais tão demarcados é sempre a mesma: no escopo de sua obra, conseguirá o artista diluir tais referências até que estejam tão bem amalgamadas no organismo do seu trabalho que praticamente desapareçam, gerando assim um desdobramento com novos pressupostos?


    Há um tênue e perigoso limite entre a referência que se dilui e fortifica a ambos os artistas, e o pastiche, no qual o fantasma do artista referenciado segue assombrando e tirando a energia do trabalho nele inspirado.


    Duque aventura-se nesse território desafiando-se com mais um fator historicamente complexo: a fotografia que volta a citar escancaradamente a pintura. Os movimentos da vanguarda europeia do início do século XX buscaram justamente medir na fotografia sua autonomia como linguagem, fazendo um esforço brutal para separá-la da tradição da pintura acadêmica. Desde então, qualquer autor que volte a fotografar seguindo certos cânones pictóricos deve obrigatoriamente fazê-lo a partir dessa desconstrução tão propalada na história da arte. A obra de Duque pode ser vista como uma incitação corajosa a esse embate.


    Entre a alusão explícita a um determinado período da pintura e o dilema da convivência da fotografia com a pintura, Duque cria um caminho original que resulta numa série de obras nas quais se destaca o grande impacto visual que surge justamente da imbricação meticulosamente articulada nas fronteiras da representação entre ambas as linguagens.


    Mas seus retratos vão além disso: após criada a ambiência, a luz e a pose, são as referências ao seu próprio universo subjetivo e infantil que invadem a cena, em contraponto à postura e atmosfera dos personagens invocados pela pintura holandesa barroca.


    Trata-se, na maioria dos casos, de tomar emprestada a ambiência sugerida pela construção pictórica barroca para que então a artista tenha a experiência de se transportar para esse lugar por meio de meninas que ela elege como uma espécie de alter ego de si mesma.


    Nessa medida, a obra de Duque alcança também a dimensão de uma performance, de um gesto que deve ser vivido organicamente, como uma atitude de transferência por onde ecoam suas fantasias de princesa, flagradas na forma sutilmente irônica com que reabilita os ares de nobreza na representação. "Meu trabalho consiste em colocar em cena minhas lembranças, sonhos e, por que não, também as minhas frustrações", confirma a artista.


    A observação das fotografias de Duque pode levar, num primeiro momento, à errônea constatação de que suas fotografias tentam mimetizar ao máximo a luz, o adorno e a pose das pinturas às quais ela remete. Porém, é a partir desse jogo de iludir, dessa quase total similitude, que a artista introjeta dados que desconcertam e atualizam seus retratos. Suas Marias possuem um estranho e sedutor adorno que cobre a cabeça e tapa os ouvidos de suas pequenas princesas. Ao estudar detidamente o vestuário das personagens em enciclopédias e museus, Duque se deparou com coroas que formalmente remetem, no mundo contemporâneo, aos fones de ouvido que se tornaram acessório quase obrigatório das novas gerações.


    Oras, os fones de ouvido utilizados hoje em dia no espaço público conferem ao seu usuário uma certa garantia de isolamento do entorno, uma forma de negar a presença, de manter o outro afastado. É a garantia de uma não presença e de uma pretensa interiorização.


    Duque conecta esse comportamento contemporâneo com a aura de impavidez e isolamento natural das infantes que habitam as paredes dos museus pelo mundo. Essas coroas revisitadas, ou espécie de fones de ouvidos que ganham adornos barrocos, funcionam como o osso que o macaco do filme 2001: Uma odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, atira ao espaço. Metáfora potente que conecta todas as gerações da humanidade, independentemente da época e dos costumes em que viveram. Esse é um dos detalhes, entre outros, pelos quais Duque sorrateiramente infiltra códigos que desestabilizam a aparente e falsa submissão a um padrão estético e comportamental de outrora.


    Ao reunir referências com citações autobiográficas e suprimir limites entre pintura e fotografia, Duque cria obras de grande envergadura, das quais ricos simbolismos se desprendem para criar uma instância de enigmas e reflexões fecundas.


    Eder Chiodetto


     


    Jornalista, professor, curador e pesquisador de fotografia, Eder Chiodetto realizou, desde 2004, mais de 60 exposições no Brasil e no exterior. É também o curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP desde 2006. É autor de O Lugar do Escritor (Cosac Naify); Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira (Edições SESC); Curadoria em fotografia: da pesquisa à exposição (E-book, Prêmio Marc Ferrez / Funarte); e German Lorca (Cosac Naify).

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