Imagem Mi(g)rante

15/Dez/2012 – 19/Jan/2013

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    Figuras ausentes ou desfeitas em registros familiares. Cartografias e desenhos constituídos de camadas temporais que geram novas configurações plásticas. Antigas deusas do sexo e protagonistas cinematográficos a formar composições agora quase que apenas cromáticas. Presenças de matéria que se esvaem, pouco a pouco, em um processo inexorável. Paisagens formadas por anotações científicas e projeções do pensamento.


    São numerosos os vetores poéticos de Imagem Mi(g)rante. Pode-se dizer que a coletiva que fecha o ano de 2012 do projeto Zip’Up se pauta pela apropriação, não pela originalidade. Documentos de segunda mão são rearticulados, se desdobram e costuram outras relações que inicialmente não se esboçavam. Assim, migram de funções e status, deslocam-se, não se estabilizam. Também vislumbram novos horizontes e momentos, almejam existências distintas.


    O recorte proposto por meio das obras de 12 artistas tem alguns destacados pontos de contato. Um deles é a ‘estética amadora’ que percorre as variadas linguagens utilizadas. Desde os anos 60 e 70 do século passado, nomes como Gerhard Richter, Sigmar Polke (1941-2010), Christian Boltanski e Hans-Peter Feldmann produzem séries sob tal viés, influenciando artistas importantes que viriam a sedimentar com maturidade trabalhos nessa linha nas décadas seguintes. “A incessante circulação dessas formas [amadoras] de um campo a outro [artes visuais, publicidade e moda] permitiu não apenas uma vasta difusão, mas também sua fixação na cultura visual ou, em outras palavras, ao reconhecimento publico da ‘estética amadora’. Esta tornou-se nos dias de hoje um gênero em si tanto quanto o retrato, a paisagem ou a natureza-morta”1, escreve Clément Chéroux ao analisar a obra do tcheco Miroslav Tichý (1926-2011), grande nome da fotografia que teve descoberta tardia.


    O fragmento é outro desses pontos de contato. “Uma foto é um fragmento _ um relance. Acumulamos relances, fragmentos. Todos nós estocamos mentalmente centenas de imagens fotográficas, que podem ser lembradas de modo instantâneo. Todas as fotos aspiram à condição de ser memoráveis _ ou seja, inesquecíveis”2, analisa Susan Sontag, numa perspectiva que pode ir para além do fotográfico.
     


    Em exibição

    Numa das primeiras paredes expositivas, João Castilho apresenta Filme Velado, políptico fotográfico que compila cenas de filmes da rentável indústria da pornochanchada nacional, ativa nas décadas de 70 e 80. Descartados por um pequeno cinema do interior de Minas Gerais, os rolos e as pontas dos títulos acabaram por se desgastar, resultando em superfícies avermelhadas e amareladas. “Um arquivo é sempre algo vivo, não cessa de sofrer mutações e metamorfoses. Ao ser (re)fotografado e deslocado, ele é atualizado e conhecemos dele uma nova forma”, declara o artista. Esse desejo de reagrupamento, conferindo novos sentidos a tais cacos de imagem, tem abrigo na outra obra de Castilho na mostra, Morte Súbita. A videoinstalação usa nove trechos de situações de conflito, extraídos da internet, que, unidos, resultam quase que em um documento antijornalístico. “Há, nessa questão da ocultação do documento, uma certa vontade arqueológica de restituir no trabalho uma situação de ter de escavar, pesquisar, se infiltrar para ver surgir a imagem. Gosto de tratar o documento como material a manipular, a esculpir. Interesso-me por sua forma plástica, sua temporalidade, seu espaço cromático.”


    Já em Quase/Bodas, Ivan Grilo se vale desse cavocar nas camadas poeirentas de memória familiar e cria uma instalação fotográfica que atesta, tanto em conteúdo como no aspecto formal, a dissolução de laços de identidade. Um momento festivo, bodas de prata registradas em agosto de 1979, passa por uma metamorfose e se constitui, de modo melancólico, numa cerimônia de ar algo fantasmático, como a reforçar a efemeridade dos bons momentos da vida, a impermanência. Expediente similar é trabalhado por Nati Canto em fotografia da série Reminiscências/Remanescências, em que figuras humanas são extirpadas das composições fotográficas, revelando apenas os contornos. Cinema, vídeo de Selene Alge, apropria-se de cena de A Noite Americana (1973), de François Truffaut (1932-1984), filme que fala sobre a construção de uma ficção cinematográfica, e, sobreposição após sobreposição, cria uma peça audiovisual outra. “Ao filmar repetidamente uma cena que mostra uma repetição de cenas, cria-se uma relação de circularidade e de desgaste. Ao mesmo tempo, esse desgaste pode ser um ganho”, diz Alge.


    Contrapontos entre a materialidade das obras e a sucessiva corrosão também têm espaço em Imagem Mi(g)rante. Monica Tinoco apresenta nas colagens de grande dimensão Filmecolagens a potência da cultura analógica (ao mesmo tempo a problematiza, pois são exemplares únicos de Cibachromes não digitais), tanto na sedutora visualidade das vultosas peças como nos posteriores desdobramentos das pinturas de menor dimensão e bom apelo plástico. Fernanda Barreto, porém, aposta em traços instáveis, com o objeto Cartografia. “Um livro antigo é encontrado com capa e folhas comidas por traças. O que se vê é um desenho composto por camadas, gerando uma espécie de um mapeamento, uma cartografia construída a partir do negativo. O objeto se assemelha a imagens de topografias da superfície da terra. Nesse caso, porém, o terreno é o das palavras”, afirma a artista. Marcelo Amorim, por meio de telas privadas de qualquer exibicionismo pictórico, elege a alienação como condutor do discurso visual na série Iniciação. Crianças fazem esforços físicos repetitivos e são comandadas por professores nessas ações algo inúteis. Jovens também parecem patinar entre os dilemas dessa fase da vida em Educação para o Amor. Nos dois conjuntos, materiais de apoio de educação e paradidáticos são a base para o registro via pintura feito pelo artista, mas de uma maneira formal que enfatiza a fragilidade dos discursos veiculados.


    Em Paisagens Esquecidas, Ana Lucia Mariz traz à tona imagens contidas em slides anteriormente perdidos em arquivos fotográficos de família, a revelar stills da cidade de Campos do Jordão muito particulares. Uma árvore isolada, uma paisagem em tons gastos, os traços que se desenham sobre a superfície das atuais ampliações fotográficas feitas a partir dos slides desbotados e com fungos, tudo contribui para a formação de uma investigação de lugares deslocados.


    Mariana Tassinari e Marcia Rosolia se apropriam de fotografias descartadas ou pouco observadas para criarem proposições distintas. Tassinari fundamenta novos experimentos a partir de imagens vendidas em um sebo de Buenos Aires, que revelam uma viagem familiar à Dinamarca, em 1953. Ela emprega molduras de slides para frisar elementos especiais dessa memorabilia, como o preto e branco, as anotações à mão na lateral das páginas dos álbuns, os volumes racionais da arquitetura nórdica, dentro desses registros em tom de cartão-postal. Já Rosolia coleta imagens de família e as desdobra sob diferentes estratégias. Uma delas opõe a arquitetura industrial, algo Becher, a formas atmosféricas que rememoram pinturas flamengas, em Nuvem. Blow Up, outra série de colagens, mixa fotos de combates da Segunda Guerra Mundial com narrativas familiares nada ofensivas, feitas pelo pai da artista. E Como Fazer um Cais para Transatlântico em 15 Passos se escora em paginas técnicas também assinadas pelo pai da artista, nas quais uma construção altamente complexa parece se desenhar paulatinamente e em vivos tons na mente de cada um dos observadores atentos da obra.


    A mesma disposição conceitual é o norte do conjunto Acidentes de Percurso, de Mayana Redin, que ganha configuração especifica para o espaço expositivo da Zipper. “A operação usada nesses trabalhos é de um editor, que recolhe imagens do infinito e as organiza atribuindo outros siginificados por meio de situações em que são colocadas essas imagens. O interesse pela decadência de imagens de representação do mundo vem de encontro à vontade de gerar novos contextos para esses objetos fracassados, pinçando atentamente do infinito imagens que possam ser ‘interrompidas’ de sua repetição”, explica a artista. Cartões-postais, uma mesa de linhas severas e uma rachadura não tão perceptível no lugar ajudam a amalgamar uma das propostas mais essenciais e, por que não, potentes de Imagem Mi(g)rante.


    E, por fim, Adriana Affortunati cria obras calcadas na memória, em especial as relacionadas ao feminino. Se as lembranças escolares também evocam questões como as levantadas por Amorim, a escultura A Noiva reforça a investigação da artista sobre convenções sociais, relações de poder e a repetição de discursos, sejam eles veiculados por meio de imagens domésticas ou da indumentária. Não à toa o registro clássico de um casamento sustenta a peça tridimensional, em seu tronco, como um coração a perpetuar palpitações algo anacrônicas, mas, ao mesmo tempo, tão correntes.



    1. BAJAC, Quentin (org.). Miroslav Tichý. Paris, Editions du Centre Pompidou, 2008, p. 142
    2. SONTAG, Susan. Ao Mesmo Tempo. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p. 139

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