isso se dá porque

Bruno Kurru

05/Mai/2016 – 04/Jun/2016

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    Quando alguém perguntava: “Meu bem, o que você está fazendo?”, acontecia-me por vezes romper o voto de silêncio e responder-lhe: “Faço cinema, não vê?”. Com efeito, eu tentava arrancar as imagens que vi, as que havia guardado na cabeça e nos retalhos de papel, e, assim, as realizava para fora de mim, entre verdadeiras paredes e visíveis companheiros. Jogava tudo para o lugar em que eu estivesse, tanto quanto aqueles que jorravam palavras sobre as telas. Inutilmente, não podia mais ignorar essa dupla impostura de todos nós.


    Daí que comecei a escrever também. Eu armava minha caneta e a impostura era mesma. Nada perturbava tanto a todos e a mim mesmo do que ver minhas garatujas adentrando os espaços entre as telas – tudo branco, tudo preparado. E as citações, todas tornadas minhas, numa espécie de relação simbiótica com aquela resistência da matéria. Você vê? É agora a realização de um plano. Tudo colhido, faturado, catado na casa da frente, em imagens dispersas, nas conversas alheias que escapam. Aparecem agora: cativos, incorporados, preparados para essa armadilha, que costumo nomear de edição. Não é assim que falam os cineastas? E mais que isso, eu ajo também pensando em sobreposição e por associação. Algo me preocupa: esta montagem como construção se tornará um elemento de comunicação?


    Lembra daquele dia em que descemos a rua? Eu pedi que me dessem um caderno, um tanto de tinta, um pedaço grande de madeira. Assim, seguimos, falando dos nossos ninhos. Eu talhei na capa do caderno: dentro e fora da pintura, enquanto você procurava os rasgos de tinta pela casa. E a primeira página desse périplo em formato de sanfona traria a fala, a escrita, cenas e documentos, que guardei, como camadas que, ao mesmo tempo, se sobrepõem e ativam meus exercícios de desenho, pintura e de construção de objetos sem sobrecarregá-los. Veja bem, não quero dizer que conseguiremos sanar nossas inevitáveis lacunas – entre alguém que produz e alguém que observa essa produção (eu me envergonho dessa divisão, mas sigamos assim para evitar atropelos que vem de fora) – mas quero muito que articulemos juntos essas instâncias, tão díspares entre si, e as colemos em outro lugar. Nos instantes mais críticos, você havia me proposto cortar o fio dessa narrativa absurda e ainda evitar o didatismo, para prepararmos juntos um espaço de setas invisíveis.


    Eu posso me explicar melhor. Já sei, já sei. Trata-se de uma pesquisa de imagens e de conteúdos, transportá-los para uma espécie de diagrama, que transformará esse acúmulo em uma lógica sem cisão entre todos os elementos. Assim, nós garantimos a inquietação de uma narrativa aos pedaços, mas que se propõe como um todo, como um conto que não termina, que é também insuficiente em si mesmo. Pois todas as coisas que estão ali, todas as coisas tendo manifestado e intercambiado seu sentido, podem voltar à interioridade silêncio da consciência de si. E assim, viram-se e reviram-se na vontade de cada um. Cada um pode seguir a seta que quiser, pode dispersar-se no amarelo que está no chão e mesmo nos espaços que sobram entre as frases.


    Ainda assim, me pego pensando no que cada um verá. Mostro uma face de tudo que elaborei, o que pode parecer insuficiente ainda. Penso no livro azul, naquela casa que voa, no professor sentado sobre a pedra, nos pés brancos e sujos. Isso se dá porque nenhuma explicação pode satisfazer. Assim como se nos perguntássemos o motivo pelo qual o contista muda de parágrafo para concluir negligentemente. Daí, me alivio, porque sei que tudo precisa de uma ocasião, tal como a que inventamos aqui: a gente inunda a sala, chama quem puder, e convida todos os que estiverem aqui para olhar para a janela que está na parede. Não chamo isso de conclusão. Mas que uma aventura em curso, em que somos muito pequenos se nos compararmos ao que queremos discutir: os arcabouços dominantes da política neoliberal que nada tem a propor, o nosso salto para uma mudança de paradigma, o fim dos poderes dominantes e um mínimo instante de potência de invenção de nós, sujeitos, em busca de felicidade, de acesso livre ao comum e de sustentabilidade desse comum.


    O título da quarta individual do artista Bruno Kurru remete a um duplo movimento, tal como uma seta que aponta para direções opostas: um sentido de referencialidade, daquilo que vem antes, mas que permanece cego; e um sentido de continuação e consequência que se pulveriza de maneira nem assertiva, nem definitiva.


    A lógica construtiva dos trabalhos que compõem esta mostra são uma tentativa de abordar questões comuns e tão urgentes contemporaneamente, sem lhes propor uma solução, mas antes numa articulação constituída pelo artista, em outros contextos: no campo da arte, para quem sabe, possamos enxergá-las e discuti-las a partir de uma outra perspectiva. Estão juntos numa convivência nada consensual: Glauber Rocha, Tarkoviski, desenhos, citações de poemas de Décio Pignatari, imagens desconcertantes provenientes da internet, registros afetivos de Bruno Kurru, representações de paisagens. Essas colagens apontam para a vontade de um espaço dissensual, de vozes distintas, onde se processam apropriações e traduções. E são a partir desses pensamentos que este exercício de escritura se deu.
    Estão aqui presentes, sem apontamentos de citação, mas como pares comclamados a uma conversa, como títulos libertos das intrusivas convenções da escrita: Jean-Paul Sartre (As palavras, autobiografia publicada em 1964); Michel Foucault (A ordem do discurso, 1970); Michael Hardt e Antonio Negri (Declaração - isto não é um manifesto, 2014).


     


    Galciani Neves

    Texto crítico

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