Jardim Cético

Rodrigo Cunha

24/Mar/2015 – 18/Abr/2015

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    Rachaduras


    Os pintores devem saber que com suas linhas circunscrevem as superfícies. Quando enchem de cores os lugares circunscritos, nada mais procuram que representar nessa superfície as formas das coisas vistas, como se essa superfície fosse de vidro translúcido e atravessasse a pirâmide visual a uma certa distância, com determinadas luzes e determinada posição de centro no espaço e nos seus lugares.


    (Leon Battista Alberti, “Da pintura”, 1435)


     


    A partir deste trecho, diversos teóricos, historiadores ecríticos de arte pensaram a metáfora da pintura como janela para o mundo. Ao observar com calma as pinturas reunidas para a exposição “Jardim Cético”, de Rodrigo Cunha, estas teorias de Alberti vieram à lembrança. Quinhentos anos separam os dois, sem falar na distância geográfica entre Florença e Florianópolis, mas enxergo um diálogo por meio da indicação do autor a respeito do “vidro translúcido” que as boas pinturas deveriam emular. Seria possível enxergar essa construção cênica, tal qual um teatro de palco italiano, nas imagens de Rodrigo Cunha?


    Em primeiro lugar, chama a atenção neste ciclo pictórico do artista a presença do corpo humano. Estes anônimos se encontram, quase sempre, solitários dentro de espaços fechados que parecem ser seus recantos de privacidade – feitos seja para o trabalho, seja para chamar de lar. Suas anatomias, mesmo que rapidamente reconhecidas como cabeças, troncos e membros, possuem alguma rachadura no seu espelho do real; deveríamos naturalizar esta sequência de bochechas rosadas e olhares lacônicos? Tratar-se-ia de uma família que habita a mesma residência? Nesse sentido, aliás, vale a pena estranhar também a semelhança entre as texturas das paredes, os tacos de madeira no chão e os contornos dos rodapés.


    Em duas destas composições, um pequeno cão se faz presente com a mesma postura física, mostrando a língua. Certamente ela não estará cheia de saliva; as figuras de Rodrigo Cunha se assemelham mais à minuciosidade necessária de um escultor em cera. Em lugar das pinceladas expressivas, coloristas e que por muitas vezes habitam um senso comum do que seria a “pintura brasileira contemporânea” (em especial no que diz respeito à presentificação do corpo humano), este pintor trava uma batalha igualmente complexa, mas dentro dos detalhes. Ao optar por não se utilizar de desenhos prévios, recorrendo a um banco de imagens que organiza mentalmente como um caderno de esboços, o artista pouco a pouco afia seus pincéis no campo do milimétrico.


    Por meio do ceticismo que dá o tom nas cenas compostas por Rodrigo, vemos essas imagens com menor ou nenhuma transcendência. Uma xícara de café, um fruto fatiado e um monociclo, entre outros objetos, me parecem mais próximos de instrumentos de composição cênica de uma peculiar domesticidade do que de pretensões imediatas à alegoria. A janela de Alberti aos poucos começa a embaçar e a movimentação dos personagens pintados nesses palcos sobre tela é nula.


    Esta possibilidade de interpretação não impede, mesmo assim, que nosso olhar bata e volte em alguns destes apetrechos. O que um cajado e um ancinho fazem neste repertório visual? Eles parecem mais apropriados para os espaços representados dentro dos cômodos desses personagens; aliás, estes polígonos de paisagem são representações de pinturas dentro da pintura ou podem ser vistos como janelas dentro dos quatro cantos da janela pintada pelo artista da definição de Alberti?


    Parece-me claro, enquanto isso, que estas composições advêm de uma aproximação com a tradição clássica das imagens arcádicas. Pessoas nuas vagueiam pelo verde das folhas e parecem mostrar ao espectador que, sim, diferentemente destes homens enclausurados à sua frente, é possível viver em contato direto e supostamente harmônico com a natureza, a colher frutas dos pés, banhar-se em rios cristalinos e cuidar de animais sem a utilização de hormônios. Porém, na única imagem em que a paisagem não é pano de fundo, mas domínio da extensão da pintura, a figura humana que se faz presente destoa de seus companheiros de Arcádia. Vestida, censurando sua nudez, também oferece seu olhar lânguido ao púbico e é acompanhada por fragmentos de uma construção. As ruínas desta última imagem parecem anunciar o mesmo que a célebre pintura de Nicolas Poussin na qual há um túmulo que apresenta a frase “Et in Arcadia ego”, ou seja, “Na Arcádia, eu também existo”. Eu, quem? A morte. Morte de quê?


    Pode-se responder que estamos diante de mais uma constatação do fim de certa ideia hedonista da experiência da paisagem. Morre a imensidão da Arcádia de Virgílio, mas ainda nos restam os jardins. A partir daí, é possível afirmar também que as pinturas criadas por Rodrigo Cunha, mais do que embaçar as janelas de Alberti, deixam rachaduras em seus vidros. Na ausência do ponto de fuga único desejado por Alberti, o espectador é presenteado com a necessidade de exercitar o seu olhar e os limites de seu próprio ceticismo perante as imagens.

    Texto crítico

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