Missão Francesa

André Penteado

20/Jul/2017 – 16/Ago/2017

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Press Release

Em sua primeira individual na Zipper Galeria, o artista André Penteado investiga as reminiscências e os desdobramentos visuais da delegação que desembarcou no Rio de Janeiro no início do século 19 com a meta de instituir a Academia Imperial de Belas Artes, primeira instituição oficial de ensino de artes no país. A exposição “Missão Francesa” tem texto crítico assinado por Moacir dos Anjos e apresenta um recorte da produção incluída em fotolivro homônimo do artista, também lançado neste mês. A mostra na Zipper fica em cartaz até 16 de agosto.


A nova série é a segunda fase do projeto “Rastros, Traços e Vestígios”, em que o artista pretende retratar cinco temas da história brasileira. Já concluiu dois – Cabanagem (2014) e Missão Francesa (2017) – e tem um em andamento – Farroupilha, previsto para o próximo ano. “Não sou historiador e não pretendo explicar os processos. Minha intenção é gerar uma sensação do presente a partir de vestígios do passado”, reflete. O artista, no entanto, afirma haver um paralelo entre historiadores e fotógrafos: “Ambos partem da realidade, mas suas construções são sempre ideológicas”.


Em uma dessas construções, ele questiona a importação de matrizes para sanar questões nacionais. “No Brasil, ainda hoje vinga o ideário de que a importação de modelos podem resolver nossos problemas”, ele afirma. Em seu método próprio de investigação, André se aproxima do trabalho arqueológico. “Eu junto as imagens e busco uma conexão entre elas, experimentando relações, em tentativas e erros, para formar alguma coerência narrativa”.


Esta abordagem “técnica” fica evidente nos aspectos formais dos trabalhos. Produzidas com tripé e uso de flash, as fotografias remetem às máquinas automáticas. São duras, estruturadas, cruas – o que, propositalmente, transmite a racionalidade com que o artista confronta a realidade. “Os temas são complexos e envolvem muita paixão. Eu busco o oposto no meu trabalho. É quase uma fotografia forense”, analisa.


Trabalhos da mesma série estão também na mostra coletiva Antilogias, em cartaz na Pinacoteca do Estado até sete de agosto. Ainda neste mês, o artista realiza uma exposição individual sobre a Missão Francesa no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, que abriga a mais importante coleção sobre o período. Na Zipper, “Missão Francesa” fica em cartaz até 16 de agosto.


Sobre o artista


A obra de André Penteado (São Paulo, 1970) se baseia na ideia de que a fotografia, dada a sua banalidade no mundo de hoje, é uma das mais interessantes e complexas mídias para o desenvolvimento de trabalhos de arte. Produzindo desde 1998, o artista já realizou nove exposições individuais e participou de mais de vinte coletiva no Brasil, Argentina, Espanha e Inglaterra, onde viveu por sete anos. Em 2013, venceu o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger com o trabalho O Suicídio de meu pai; em 2014, teve seu projeto Tudo está relacionado selecionado para o Rumos Itaú Cultural 2013-2014. Tem quatro fotolivros publicados: O suicídio de meu pai (2014), Cabanagem (2015), Não estou sozinho (2016) e Missão Francesa (2017).


Texto crítico


Crítico de arte, pesquisador e curador, Moacir dos Anjos foi curador do pavilhão brasileiro (Artur Barrio) na 54ª Bienal de Veneza (2011), curador da 29ª Bienal de São Paulo (2010), co-curador da 6ª Bienal do Mercosul, Porto Aelgre (2007), e curador do 30º Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna (2007), em São Paulo. Foi curador da mostra coletiva Cães sem Plumas (2014), no MAMAM e de exposições retrospectivas dos trabalhos de Cao Guimarães (2013), no Itaú Cultural, e de Jac Leirner (2011), na Estação Pinacoteca, ambas em São Paulo. Publica regularmente em revistas acadêmicas e catálogos de exposição. É autor, entre outros, dos livros Local/Global. Arte em Trânsito (Zahar, 2005) e ArteBra Crítica. Moacir dos Anjos (Automátia, 2010), além de editor de Pertença, Caderno_SESC_Videobrasil 8, São Paulo (SESC/Videobrasil, 2012).

Texto crítico

Missão Francesa, de André Penteado, é o segundo de uma série de trabalhos genericamente intitulada Rastros, Traços e Vestígios. O primeiro se chamou Cabanagem, e os demais terão como nomes Farroupilha, Descobrimento e Independência. Juntos, buscam identificar, por meio da fotografia, as marcas sutis que atam acontecimentos passados da história do Brasil – política, social, artística – à situação presente do país. Fatos ocorridos em um tempo em que não existia ainda a possibilidade do registro fotográfico, o que implica, desde logo, o acolhimento de práticas inventivas de representar tal articulação através da captura de imagens.


Missão Francesa se constitui como livro e como exposição. Mas assim como a publicação não é ampliação da mostra, esta última não é mero resumo da primeira. Ambas são dispositivos de exibição que acentuam aspectos distintos de um objeto de interesse que não se deixa nunca apreender por inteiro. Tal como qualquer prática de representação, Missão Francesa – livro e exposição – é recorte ou abstração de um acontecimento que não se reduz jamais a eles. É tentativa, inexoravelmente falhada, de reavivar, no tempo de hoje, fatos ocorridos no passado. Estratégia que, seguindo o que historiadores, arqueólogos e praticantes de outras disciplinas fazem, busca apontar, em indícios – no caso, fotografados –, conexões entre situações temporalmente afastadas.


A exposição é composta por três grupos distintos de imagens. No mais compacto deles, treze fotografias reproduzem – confundindo conteúdo e forma – um texto publicado, em finais da década de 1950, na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Com apresentação do crítico de arte Mário Barata, a publicação divulga uma carta de Joachim Lebreton datada de 12 de junho de 1816 e endereçada a António de Araújo e Azevedo, primeiro Conde da Barca e Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino português, então sediado no Brasil. Nela, o artista francês e antigo secretário do Institute de France propunha, no contexto da reaproximação entre França e Portugal após o desmanche do regime bonapartista, as diretrizes acadêmicas para a instalação, no Rio de Janeiro, de uma escola de belas artes nos moldes das existentes na Europa e, em particular, na França. Para este fim, defende o missivista, seria fundamental contar, como professores, com um grupo de artistas franceses recém-chegados e dispostos a se instalar no Brasil, entre os quais se encontravam os pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay e o arquiteto Auguste-Henri Victor Grandjean de Montigny. Em agosto daquele ano seria criada, por decreto imperial, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, passo primeiro para a instauração, no Brasil, de uma cultura visual ancorada no neoclassicismo europeu, consolidada por uma série de pinturas, gravuras, esculturas e edifícios realizados e construídos, a partir de então, pelos membros da chamada Missão Francesa no país.


O segundo conjunto de fotografias expostas, impressas em dimensões maiores do que as anteriores, captura, por sua vez, “rastros, traços e vestígios” atuais desse fato marcante da história artística brasileira. São doze imagens que exibem ambientes de educação tradicional em artes, partes de pintura e escultura feitas por membros da Missão Francesa, foto de descendente de um deles e ambientes de edifícios projetados por outros desses artistas, sejam ou não dedicados ao ensino e à exibição de produção artística. Evidenciam (ou ao menos sugerem) o quanto do cotidiano brasileiro atual – em particular, o do Rio de Janeiro – é ainda marcado por aquele acontecimento.


É no terceiro conjunto de fotografias, contudo, formado por apenas duas imagens agigantadas, que a dimensão conflitiva da Missão Francesa é evocada por André Penteado, sugerindo uma leitura crítica de tudo o mais ali exposto. Na primeira, a figura de um índio esculpida no século XIX é apresentada como se fora a de um rei, embora segure uma espécie de escudo com o brasão do Império, em involuntária (e violenta) ironia sobre o apagamento físico e simbólico dos povos originários ao longo da história do Brasil. Na segunda, o braço de um homem afrodescendente que visivelmente sofre de vitiligo – doença que gradualmente despigmenta a pele – segura ferramenta usada para esculpir, mas que também pode evocar instrumento antigo de açoite. Sem querer concluir coisa alguma ou fazer julgamento de nada, são imagens que matizam narrativas descomplicadas sobre os resultados da Missão Francesa no Brasil, posto que a instituição de uma cultura artística “culta” teve como quase inevitável contraparte tanto a confirmação da ausência indígena no imaginário artístico do país quanto o sufocamento de outra tradição em artes que então se consolidava ali, fincada no barroco e com presença negra relevante entre mestres e aprendizes treinados em moldes diferentes dos adotados pela academia. Missão Francesa, de André Penteado, reabre, de modo quase insinuado, a discussão tantas vezes interrompida sobre as relações entre poder, arte, raça e classe no Brasil.


Moacir dos Anjos

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