O Mundo de Dentro

Rodrigo Cunha

21/Abr/2012 – 19/Mai/2012

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    O MUNDO DE DENTRO
    Josué Mattos


    Dr. Simão Bacamarte, protagonista do conto O Alienista (1881) de Machado de Assis é apresentado pelo autor como figura nobre, grande estudioso vindo do reino para a colônia com a intenção de cuidar da "saúde da alma" de seus pacientes, maneira com a qual ele qualificava seu ofício de médico de patologias cerebrais. Essa figura notória chega em Itaguaí contra a vontade do rei, que o teria deixado em Portugal, "regendo a universidade ou expedindo os negócios da monarquia”. Encontra na Casa Verde – nome do local onde ele irá clinicar durante o tempo que a vida lhe reserva nesse cargo –, o meio de aplicar suas pesquisas, todas ainda pouco exploradas na colônia. Com acuidade, o autor faz dessa personagem a própria contradição humana: depois de clinicar toda a região e definir seus critérios de normalidade e demência, o doutor resolve internar grande parte da população de Itaguaí, incluindo vizinhos, amigos e até mesmo sua esposa. Contudo, ele não tarda a perceber sua própria demência e, subjugado aos valores da ciência que ele defende, resolve dar alta a todos, internando-se na Casa Verde. "A questão é cientifica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática."


    O perfil da personagem de Machado, ao mesmo tempo alienista, alienada e alienante, é uma porta de entrada para O Mundo de Dentro de Rodrigo Cunha. Optando por essa alternativa, vale sinalizar alguns pontos que em sua produção aproximam-no do ambiente de Simão Bacamarte: em espaços à primeira vista sóbrios, as pinturas parecem prefigurar o descompasso na relação entre os diagnosticados "dementes" e seus preceptores, suscetíveis de orientá-los enquanto buscam olhar para sua própria existência. O fato é que na lassidão transcorrida durante a espera de respostas plausíveis, tanto os ditos dementes de Simão Bacamarte quanto algumas figuras presentes nas pinturas de Rodrigo Cunha, todas envoltas em situações de instabilidade psicológica e isolamento, mantêm-se paradoxalmente à espera de pseudoalienistas com fórmulas capazes de resolver problemas de diferentes ordens. É o que Paul McCarthy define como "a perda da consciência de estar vivo, a perda da autêntica percepção da existência". Em Soprando Tuba, (2011) uma das poucas obras em que o silêncio perde seu lugar na produção do artista, um senhor parece soprar o instrumento com pesar. Ao invés de harmonia, ele evoca o grito, o ruído resultante do estado de desconforto face a realidade por ele construída.


    A exposição trata o espaço intimista com a mesma estranheza com que nos deparamos com o improvável, o insípido ou com o desconhecido. Isso porque não fomos treinados a olhar para dentro. Exteriorizamos nossas sensações, nomeamo-las, somos cobrados a tomar partido, a analisar, sintetizar e a perceber o mundo através de nossos limitados sentidos. Cobramos deles a melhor performance ou incluímos ferramentas no corpo, com as quais somos capazes de lutar contra o processo de deterioração das faculdades sensoriais. Mas quase nunca atentamos para o mundo de dentro, o universo que carregamos. Em consequência, a cada situação de introspecção imposta pela passagem do tempo, ou em decorrência de circunstâncias imprevistas, o confronto com nossa estrutura interna faz ressurgir um emaranhado de complexidade e nos vemos impelidos a encontrar alguém que nos dê respostas rápidas, adaptadas ao nosso frenético ritmo de vida. Eis que surgem os doutores Bacamarte prometendo cuidar da "saúde da alma" sem antes avaliar a sanidade de sua própria. A Doutora (2007) é um desses casos. Seu estatuto social é dificilmente identificado, não fosse o título da obra e sua indumentária. Já o ambiente habitado por ela, sombrio e com pouca mobília, aproxima-lhe da situação em que encontrava-se Simão Bacamarte em seus últimos dias na Casa Verde: solitário em busca de resolver problemas sobre os quais ele parecia ter domínio completo.


    Em cada pintura há um pequeno assunto que se fecha no título: Homem no Estúdio, Mulher de Traje Azul, Senhora com Cãozinho Peludo, Homem com Máquina, Senhora com Chapéu, Homem com Criança nos Braços, Homem em Cadeira Reclinada, Jovem com Meias Rosas. Genéricos, variantes de um mesmo tema, cada título esconde o tom inquisitivo que constrói uma única paisagem mental em toda a produção do artista. Enquanto sugere ações anódinas (Homens com as Mãos no Bolso, 2010), perdas iminentes, movimentos lentos ou inexistentes, frontalidade entre espectador e figura representada, registro da passagem do tempo no corpo humano (Homem Velho, 2007), o artista cria um vocabulário visual e iconográfico que manipula geneticamente a identidade humana, traduzindo em códigos visuais a inevitável condição de viver no mundo de hoje, com problemas e vantagens inerentes ao processo de massificação da cultura, do pensamento e da linguagem. Por isso, ainda que isolados, todos parecem sair do mesmo lugar, a aparência caricata das figuras desmente a tendência à divisão de classes. Reportando-nos ao ambiente doméstico, o artista apresenta o espaço quase-vazio/quase-cheio com neutralidade suficiente para nele abarcar uma quantidade considerável de indivíduos. Em conformidade com a realidade corpórea, psíquica ou residencial-arquitetônica, uma coisa sendo a extensão da outra, assim como afirma A Casa é o Corpo (1968), obra magistral de Lygia Clark, os espaços de O Mundo de Dentro evocam crise e ao mesmo tempo parecem desenhar o estado de satisfação interna. Figuras dúbias, elas nos deixam sem resposta quando questionamos se são alienistas, alienadas ou alienantes. É que o acesso ao mundo de dentro é pessoal e intrasferível.


    Daí a simplicidade no tratamento do interior. Com economia de adereços, esses lugares acabam sendo o antípoda do país das maravilhas comumente veiculado nos dias de hoje através de posts que mostram pessoas quase sempre ocupadas em fazer belas viagens, em ir aos melhores programas com os melhores amigos, todos sorridentes e alegres. Seja a mobília, um animal, uma pequena planta, uma tomada de energia elétrica ou um objeto específico, com destaque inclusive no título da obra (Interior com Gramofone, 2011), todos esses elementos dividem o espaço da tela com um sujeito, cujo estado introspectivo perturba quem pretende participar de sua realidade. Com poucos sinais de acolhimento, mesmo as figuras que encaram o espectador mostram-se completamente envolvidas em seu próprio mundo. Diante de alguns casos, o olhar provocador ou distante dessas figuras transmite deliberadamente e em tom desafiador questões do tipo "afinal, porque viestes até aqui?" ou "o que fazes aqui ainda?" É que ao invés de indivíduos, Rodrigo representa realidades. E nessa espécie de "cárcere privado", modo como uma personagem anônima qualifica a Casa Verde, o retrato da natureza humana é atenuado com premissas existencialistas. Condenado a ser livre, o homem é responsável pela invenção do homem. A partir de sua redoma privada, ele é autor do que pensa e faz, responsável assim pelo que vive. O Mundo de Dentro está longe de ser pessimista. Lidando com a contradição humana, o artista problematiza consensos gerais e situa sua produção no limite dos mundos mental e perceptível. Apostando todas as suas fichas na representação de personagens "geneticamente modificadas", Rodrigo Cunha utiliza-se de situações de confinamento para evocar a ambivalência de suas intimistas cenas de gênero.

    Texto crítico

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