Pedro Varela

Pedro Varela

09/Jun/2016 – 02/Jul/2016

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    Pedro sonha a paisagem como um mosaico orgânico, fluído, exuberante em flores e frutos exóticos. Polpa carnuda em pele de imagem. Sujeito coletivo fabulado na vegetação mimetizada ao corpo indígena, negro, caboclo, colono. Convivência embaraçada entre os que se impõem como o senhor dos outros junto daqueles que, mesmo quando subjugados, ainda sabem ser senhores de si. Ecos do antagonismo que sempre sustentou a identidade forjada para qualificar tudo o que existisse nas novas terras encontradas pelos povos do Velho Mundo. Cativo da imaginação fértil associada à descrição taxonômica, o Paraíso Tropical foi idealizado pelo olhar estrangeiro. Sob o signo de exaltações hedonistas repletas de clichês, historicamente, a representação conferida aos habitantes da América foi elaborada para a exportação, e, com isso, tal sina foi selada à posteridade.


    Fermentada num caldeirão de referências heterogêneas, a memória coletiva atrela a natureza selvagem, insólita e sedutora a personagens esdrúxulos, aventureiros ou extravagantes, frequentemente de índole moral relaxada. Em meio ao turbilhão sensorial oferecido pelos trópicos, o excesso é norma. Pleno transbordamento de vazões.


    O artista se alimenta deste vasto universo iconográfico vinculado à sua realidade. Compila fragmentos simbólicos do imaginário utópico projetado sobre o seu território através dos tempos. As figuras ilustradas nas telas de Varela integram uma coleção de alusões pop-up a personagens que se esgueiram nas frestas do emaranhado formado pelo adensamento da vegetação fantástica. O procedimento da colagem de citações visuais faz conviver elementos anacrônicos, tais como: gente anônima retratada por Debret, a escrava Anastácia, um blêmia, o subcomandante Marcos, igrejinhas de Guignard, Carmen Miranda, Blue (protagonista da animação “Rio”), a caveira-símbolo do Bope, entre outros. Um verdadeiro remix icônico no qual a ficção permeia a realidade de uma tradição inventada. A montagem da cena é entrelaçada com cadência rítmica e fluidez, costurando as disparidades em uma trama agregadora ofertada para o deleite do olhar.


    Manchas em transparência projetam planos que atribuem profundidade ao espaço. Figuras se aglomeram seguindo redemoinhos de adensamento pontual, como se estivessem submetidas a algum processo orgânico de espessamento. Linhas delineiam desígnios latentes a serem preenchidos. Formas brotam do vácuo naturalmente, aparentemente materializadas a partir do nada primordial. Então, aos poucos, contornos recheados ganham volume, embora a restrição cromática ao preto e branco mantenha em evidência o traçado esquemático. Desse modo, o contraste entre presença e ausência é enfatizado.


    O jogo de opostos ultrapassa a dinâmica interna da obra para abarcar, também, polarizações existentes na lógica que interliga os grupos de trabalhos desenvolvidos pelo artista. Em contraponto às telas, por exemplo, há obras em papel feitas por meio de dois procedimentos básicos contrários: o recorte dos contornos do desenho para desprendê-lo do suporte, ou a perfuração da superfície de modo que a linha seja criada pelo espaço vazado. Aquilo que antes representava o cheio contra o vazio do fundo pictórico transforma-se agora em pele solta diante de um fundo maior, que é o próprio mundo fora do plano bidimensional. Ou, inversamente, produz-se situações em que as figuras são de fato o fundo exterior visto através dos cortes na superfície representacional, convertida em moldura com este gesto. Se nas telas a dualidade advém do equilíbrio rítmico entre a zona de saturação e o intervalo em branco, nos recortes de papel prevalece a tensão entre a continuidade ou ruptura do plano. Figuras transpõem o espaço físico ficcional ao se relacionarem com o ambiente tridimensional. Dentro e fora confundem-se desdobrando a imagem entre relevos e sombras. Assim, ao explorar a potência rítmica dos intervalos, Pedro Varela oferece uma qualidade quase tátil ao olhar.


     


    Denise Gadelha

    Texto crítico

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