Perimetrais

Ana Holck

05/Set/2012 – 20/Out/2012

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    EM TORNO DE CRUZAMENTOS E TORRES
    Paulo Sergio Duarte


    Há seis anos escrevi sobre o trabalho de Ana Holck. Para as velocidades do mundo contemporâneo, um tempo de mais de meia década conta muito; entre outras coisas para experimentarmos a consistência da obra nos desdobramentos de sua linguagem. E é essa coerência que se confirma de modo evidente ao longo desses anos e se materializa nessa exposição. Em 2006, o trabalho já se apresentara em diversas instalações anteriores, inteligentes ocupações de espaços, nem sempre fáceis de serem resolvidas. Ana Holck pertence a uma espécie preciosa na arte contemporânea, particularmente cara à tradição brasileira: assimila o que há de melhor na tradição concreta e neoconcreta, reelabora-o e o transfigura para as exigências de questões poéticas atuais. Desse modo não se assiste à disjunção, desconexão, e mesmo ao conflito entre o moderno e o contemporâneo tão comum à cena chamada pós-moderna. Ao contrário, assistimos a uma transitividade, a um tráfego positivo da herança moderna reatualizada, transformada em arte do presente.


    As implicações éticas dessa escolha estética são claras: a obra está livre das tentações da razão cínica fartamente explorada por estrelas do mundo da arte em nossos dias. Estamos também longe das explorações dos Casulos (1959), Bichos (década de 1960) e Trepantes (década de 1960) de Lygia Clark (1920-1988), dos cortes e dobras de Amilcar de Castro (1920-2002), do entrecruzamento de planos em cores de Franz Weissmann (1911-2005). No presente, a escultura brasileira contemporânea guarda momentos privilegiados dessa herança em direções muito variadas como nas obras de Waltercio Caldas, Iole de Freitas, Carmela Gross, José Resende, Tunga e nas instalações de Cildo Meireles. A este corpus vieram se acrescentar recentemente as investigações no espaço tão diferentes quanto às de Ernesto Neto, Carla Guagliardi e Ana Holck.


    A obra de Ana Holck sempre dialogou com o espaço arquitetônico e urbano. Mais que um diálogo ou uma simples conversa, os elementos da arquitetura e mesmo construções inteiras são evocadas poeticamente pelo léxico da artista que se intensifica nos títulos. Depois dos Elevados, das Pontes, das Passarelas e tantos outros convites à arquitetura e à cidade temos agora as esculturas Cruzamentos e Torres e uma novidade na obra: a exploração da gravura em metal na série Perimetrais.


    Há uma torção do horizonte nos Cruzamentos e uma evidente verticalidade nas Torres. Está clara nas obras Torres uma subversão do ideal urbano de proteção: os elementos que compõem a obra são onipresentes nas cidades brasileiras como módulo de cerca de segurança para propriedades públicas e particulares. Têm uma dimensão e configuração calculadas para oferecer obstáculo ao corpo humano. São suportes atravessados por arame farpado com a parte mais alta inclinada em 45° para o interior do território a ser protegido; o módulo utilizado nas Torres está saturado de significados. Agora, engenhosamente agrupados em três elementos, envolvidos por cintas de aço, com sua projeção em ângulo apontada para o exterior tornam-se, digamos, elegantes, mas não perdem a memória de sua origem: o concreto aparente e sua presença bruta, bem como os furos para serem atravessados pelo arame farpado, não foram maquiados. O ideal construtivista e sua aspiração a um esperanto visual impediam uma importação de elementos do cotidiano tão comum nas obras pop. Desse modo, as Torres de Ana Holck trazem no seu interior uma manobra pop para realizar uma obra com fortes laços na tradição construtiva. O movimento estético, sem aviltar a origem de seus elementos, transforma-os em momento poético que vive uma dupla tensão: aquela física que os mantém em pé e aquela da presença subvertida do módulo destinado a proteger propriedades. É possível que sua beleza esteja nesse encontro da solução formal com a própria história do módulo que a constitui.


    A presença da arquitetura nos Cruzamentos se encontra imantada pelos títulos; sem eles veríamos esculturas que se projetam no espaço a partir do suporte mais tradicional das obras de arte – as paredes. Todas são construídas a partir da tensão exercida pelo material em seus pontos de fixação e pelos fios de aço que contribuem para a estruturação do trabalho nos contrapesos cilíndricos dos corpos de prova* de concreto. Agora nenhum elemento é gratuito, todos agem, não apenas visualmente como nas primeiras Passarelas que já possuíam uma requintada forma, para vir compor o contraste entre tensões físicas invisíveis e sua presença nos materiais: a tensão do arco de aço e sua corporeidade evidente versus a tensão dos fios que desafiam o corpo com seus traços que desenham o vazio. A escala dessas esculturas está exata, mas nada impede que num desdobramento posterior venham a assumir uma escala pública e ir para um muro da cidade.


    Como se não bastassem as Torres e os Cruzamentos, a artista inaugurou uma nova investigação na série de gravuras Perimetrais. Aqui o ponto de partida são os elementos estruturais que sustentam uma conhecida pista elevada de alta velocidade que contorna o centro do Rio de Janeiro desde o aeroporto Santos Dumont até o início da Avenida Brasil e da ponte Rio-Niterói. Encontra-se nos planos de reurbanização do centro e do cais do porto da cidade sua demolição. O que Ana revela nas suas gravuras ao isolar pilares e vigas de sustentação é uma geometria contemporânea que se encontra camuflada pela movimentada vida urbana. Estes elementos isolados no papel, cuidadosamente selecionados e recortados, manifestam no plano o mesmo rigor que sempre esteve na regência dos trabalhos da artista: fieis ao seu léxico, permitem-nos agora fruir sobre a superfície do papel a arquitetura única de Ana Holck, aquela que injeta num cuidadoso jogo de tensões poesia onde só existe a banalidade e o bruto cotidiano.


     


    * Corpos de prova são amostras de concreto destinadas à realização de testes de tração e resistência do material em uma construção.

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