Primeira Individual Retrospectiva

Felipe Morozini

17/Set/2011 – 08/Out/2011

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    PÔR DO SOL
    Gilberto Dimenstein


    O Sol transforma-se aqui numa metáfora paulistana. Na cidade em que, não só pela pobreza, mas também pela tortuosa geografia dos prédios, obstáculos já quase naturais, o sol definitivamente não nasceu para todos. Quase ninguém se dá conta de que a Praça do Pôr-do-Sol, no bairro do Alto de Pinheiros, se chama assim pelo simples motivo, trágico, de que são raríssimas as praças em São Paulo em que podemos assistir ao pôr-do-sol. Não somos aqui íntimos do Sol. Nos lugares mais amenos, de praia ou campo, os raios solares estão associados à beleza, vida, alegria; aqui, muitas vezes, lembram a penúria do calor sem brisa, do asfalto quente, da falta de horizonte para compensar o abafamento. Nos fins de semana, os paulistanos promovem uma espécie de êxodo de fugitivos para tentar recompor o equilíbrio da luz com o horizonte. A sensação claustrofóbica com a qual muitas pessoas convivem na cidade é justamente por não verem o horizonte e não perceberem nos raios solares o abraço de calor, mas quase um incômodo. Neste ensaio, temos a claustrofobia, o aperto, as cores ardidas dos prédios, as pessoas se espremendo em busca dos raios, esgueirando-se por entre a geografia urbana. Procuram uma saída em espaços improváveis, mas, encalacrados, encontram os raios, fazendo-se cúmplices dos reflexos. Nessa cumplicidade de reflexos encontramos, nesta poesia concreta, um respiro, quase um nascer-do-sol.


    2030
    Marcio Kogan


    O motoboy está caído no esburacado asfalto molhado do elevado, parece que está muito ferido. Instantaneamente os tubos prateados de sucção colocados ao longo de toda a via se movimentam roboticamente e sugam mais uma vítima. Movidos pela central de trânsito esse sistema foi adotado recentemente pela prefeitura com enorme sucesso. A moto já foi roubada. Acidentes comuns como estes já não perturbam o fluxo de veículos. Pablo (seu nome fictício) acompanha mais uma vez o que está acontecendo lá embaixo. Tem cinquenta e poucos anos e mora na parte superior de um farol marítimo construído por engano pelo almirante holandês Witte Corneliszoon de With, em 1651, em plena Av. São João. Pensavam que ajudaria a escoar o transporte de arenques para o sul.


    O topo do farol, envolto por uma enorme redoma de vidro com 10 metros de altura, abriga no centro uma complexa e enorme fonte de luz que nunca foi usada. Vários vasos de cerâmica com plantas medicinais estão espalhados pelo ambiente ao lado de velhos sofás puídos. Uma branca-de-neve de porcelana ocupa o lugar do pinguim sobre a geladeira Frigidaire. Um quadro preto com dezenas de medalhas prateadas de “segundo lugar” está pendurado na estrutura de aço que segura a cúpula. Os vidros estão um pouco sujos. Um telescópio de latão dourado que pertenceu a sua avó aponta para o céu. Pablo raramente sai do farol.


    O trânsito já flui normalmente, 9 horas da noite. Ele desvia o olhar para o apartamento da melancólica morena que bate o bife. Ela chora como todos os outros dias. Seu marido vai chegar a qualquer momento e violentá-la. Ela chora e bate o bife. Alguns andares abaixo milhares de carros circulam no elevado. Ainda chove. No sexto andar do prédio cinza uma bela e gorda mulher canta magnificamente uma ária, Pablo consegue identificar, é La Wally de Catalani. A noite continua. Pablo não consegue se desgrudar do vidro. Poderoso, no alto do velho farol, controla a cidade. Não pode sair dali. Se sente preso e feliz por isto. Parou de chover. Os africanos do 8º andar do prédio art déco já estão no terraço. Parece que moram miseravelmente. Estão felizes. Uma festa acontece na cobertura do edifício da rua detrás. Apesar das luzes apagadas eles percebem que estão sendo observados e apontam para Pablo. Constrangido, delicadamente dá um passo para o lado se protegendo atrás de uma de suas plantas. Vai ver o que acontece do outro lado. Sexo em vários apartamentos. Afinal hoje é sexta.


    Lá pelas quatro, adormece na também puída poltrona vermelha. Acorda às nove, o sol é intenso dentro da cúpula. Antes de tomar um café vai até o vidro. A quantidade de prédios em volta do farol é descomunal. Pode-se ver dezenas de quilômetros adiante. Pablo sabe que há 20 anos era possível ver as montanhas ao fundo. A poluição escondeu-as definitivamente. Não se importa com isso. Um gordo grisalho de cueca preta levanta halteres no sétimo andar. Algumas mulheres de biquíni tomam sol espremidas nos pequenos balcões neoclássicos de ladrilhos terracota. Uma garota-topless tira pelos de seu corpo auxiliada por um pequeno espelho. Pablo olha para baixo e fica estarrecido com o que vê: alguém durante a madrugada e de forma totalmente despercebida pintou dezenas de grandes flores no piso do elevado. Pablo fica muito incomodado, foi ludibriado. Está perdendo o controle. Fuma um cigarro para se acalmar. Toma o café. Está calmo novamente, afinal sabe que no começo da noite a melancólica morena vai bater o bife e chorar.

    Texto crítico

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