Primeira Leitura

Marcelo Amorim

18/Fev/2014 – 15/Mar/2014

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    PRIMEIRA LEITURA


    Esta seleção de trabalhos do goiano Marcelo Amorim explicita quão enganosa pode ser uma Primeira leitura. Chamando a atenção para o perigo de discursos fáceis que escondem preconceitos enraizados em nossa sociedade e, consequentemente, na produção cultural, a obra de Marcelo Amorim pede uma análise cuidadosa que trespasse e critique aproximações simplistas aos temas.

    A série de pinturas Big Arms, por exemplo, comenta a aceitação de um modelo físico [e mental] a ser seguido desde os primeiros anos do século XX e ainda reproduzidos. O conjunto destes retratos retirados de um livro sobre técnicas de fisiculturismo reafirma a potência masculina exposta pela força de seu braço, discurso que evidencia o machismo dentro da sociedade tanto quanto o culto ao corpo. Traduzidas para a linguagem da pintura, essas posturas sociais se dão pelo uso de tintas douradas e brancas capazes de criar um jogo de reflexos que ora permite-nos identificar esses homens, ora torna-os fantasmas quase sem face a depender do olhar do observador. 

    Pareadas à série de pinturas, encontramos as imagens de Esposas e filhas que trabalham também o gênero do retrato, agora no suporte fotográfico. Este conjunto sem datação precisa ganha uma nova leitura dentro da obra de Marcelo Amorim. As fotografias apresentam mulheres de destaque em seu contexto social que, para as gerações futuras, perderam sua identidade e tornaram-se anexos de seus maridos, pais, irmãos etc. Os homens de suas vidas estão identificados nominalmente em seus retratos, enquanto as retratadas foram transformadas em seu grau de parentesco com a contraparte masculina. Ao apropriar-se de imagens com quase um século de existência com as séries Big Arms e Esposas e filhas, o artista discorre sobre a sutileza das formas de preconização no tempo presente, o qual aceita como naturais estas formas de representação. 

    Ao nos encontrarmos com as obras desta exposição, tendemos a identificá-las como pertencentes a um passado arcaico, do qual não se quer ser herdeiro. Afinal as ideias transformadas em imagens por seus autores originais estão inseridas em tradições de pensamento descontinuadas e discursivamente combatidas na atualidade. Porém discursos são diferentes de ações.  

    A série de pinturas Primeira leitura comenta a capacidade moralizante negativa da educação. Nestas telas o artista se utiliza de uma técnica mista de tintas acrílicas e aquarelas para simular na imagem a atuação do tempo, uma indução para o visitante se entender como apartado desses discursos problemáticos. Ao incitar esta mea culpa o artista reitera a hereditariedade dos preconceitos e a presença destes pensamentos arcaicos no contemporâneo. Somando narrativa e desenhos, esses livros atuam perversamente na domesticação da criança, transformando-a em um adulto bem adaptado à sociedade. Ao esclarecer esse procedimento modelador, sugerido pela ação do tempo que apaga partes dessas imagens, Marcelo Amorim situa a necessidade de adequação dos indivíduos à cultura predominante, sugerindo a atuação cultural como manipulação de massa.  

    Esta exposição apoia-se na manipulação de imagens para trazer à tona na atualidade os mecanismos perversos da cultura. Sugerindo ao visitante a aplicação do pensamento crítico através de imagens do passado, também no presente. Confrontando-se com a Primeira leitura.  


    Paulo Gallina
    Crítico de arte independente, curador residente GLOC e professor, Paulo Gallina vive e mora em São Paulo. Formou-se em História pela Universidade de São Paulo (USP) e passou pelo Ateliê OÇO (2010) e Ateliê 397 (2013) como crítico residente. Atuou como Crítico e Curador do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake (2010-2013). E sustenta o dialogo acadêmico através de palestras e por sua participação no Grupo de estudos de crítica e curadoria da ECA-USP orientado pelo professor doutor Domingos Tadeu Chiarelli (2009-2012).
    Nos últimos anos curou as exposições Nino Cais: Das Bandeiras e dos Viajantes (SESC, São Paulo, 2013), WMT (Galeria Marilia Razuk, São Paulo, 2014) e Primeira Leitura (Zipper Galeria, São Paulo, 2014) e publicou textos na coletânea crítica O MAC essencial II e no catálogo da exposição Os primeiros 10 anos do Instituto Tomie Ohtake, da qual também foi um dos curadores.  

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