Suspense

Katia Maciel

24/Abr/2013 – 15/Mai/2013

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    Sinopse de um Suspense


    Uma carta chegou pelo correio esta manhã. Não, era uma caixa. Branca. Pensei ouvir um ruído vindo lá de dentro. Som de trem deslizando em trilhos. Som de grito, ou seria um mosquito. Balancei. Abri. Por uma fresta, vi que dentro tinha AR. Fresco, verde, cheiro de terra desconhecida. E uma corda, que caiu no chão e escapou pela grama, deixando um desenho serpenteante como rastro, desaparecendo sem direção precisa.


    Uma caixa com ar, uma corda e uma carta.


    Da caixa – ou teria sido da carta – escaparam palavras: espera, espreita, tocaia, vestígio, cálculo, teoria, perspectiva, abrigo, vulto, vertigem, vertigo. Sem elo evidente de ligação formatando sentido linear, as palavras insinuavam uma sinopse poética de um filme ainda por ser feito. Diziam respeito a uma mulher perdida no paraíso, que enviava fotografias – ou frames – como pistas para sua impossível localização.


    Frame 1: Espreita. Em atmosfera sonâmbula, alienada ou alucinada, mulher de identidade dissimulada mergulha em ambiente verde, aparentando perseguir uma ideia de liberdade. Ou está apenas sonhando.


    Frame 2: Espera. Um segundo mais tarde – ou antes –, mulher pisa em falso, avançando sobre o nada e deixando sobre o ar rarefeito da selva uma ideia em aberto.


    O que a teria atraído para a floresta? Em que medida ela segue a trilha de outros aventureiros e excursionistas que se perderam na mata em busca do eldorado, do paraíso perdido, ou na perseguição romântica de um estado de esquecimento, de um retiro para meditar, escrever poemas, dedicar-se aos prazeres da música e à reinvenção de uma vida ideal?


    Em que medida essa mulher de identidade dissimulada refaz a trilha da experiência artístico-antropológica de Flávio de Carvalho, que em 1958 expedicionou ao Amazonas com o projeto de realizar um filme semi-documentário sobre a história de uma Deusa Branca que vivera na selva? Na clareira mais extrema dessa mata virgem, ela reencontraria ainda o herói brasileiro sem nenhum caráter, à deriva.


    Ou seria ela membro dissidente do grupo de sete intelectuais que se refugiaram em uma floresta de bambu, originalmente na China do século III a.C, reaparecendo depois na obra de Yang Fudong, em 2006. A vegetação exuberante desse jardim botânico sensorial, com seus paus-ferros, palmeiras-imperiais, cactos, paus-mulatos, ciprestes e mangueirais, torna realmente difícil a localização geográfica e temporal dessa história.


    Na terceira parte desse enredo, o que era impressão torna-se movimento. Ainda assim, mínimo. Vulto. O corpo que espreitava com autonomia e aspirava à liberdade agora balança em suspensão atemporal. Presa de armadilha? Corpo que pende. Motivo de meditação. Estamos longe de um desfecho.


    A mata é pano de fundo para um enredo incerto. A deriva, a negação da civilização, a fuga, a alienação, a tipologia do artista viajante, enfim, integram a bagagem carregada pela mulher de identidade dissimulada da ficção de KatiaMaciel.


    Suspense, um projeto de cinema-situação, integra pesquisa de Katia Maciel sobre níveis simultâneos de narrativa. Na individual na Zipper Galeria, a artista elabora mais um capítulo de seu transcinema, atravessando a performance e entrando no terreno do texto poético.


    Ação e o desenvolvimento dramático, aqui, se dão de forma espacializada, expandindo-se para além das cenas inscritas em fotografias, vídeos e videoinstalação. O enredo que ocupa o espaço da galeria teve um preâmbulo no ambiente das mídias impressa e digital e no espaço urbano, na forma de cartazes lambe-lambe.


    Nos cartazes, a mulher de identidade dissimulada inscreve suas notas de viagem, que funcionam, afinal, como mensagens colocadas dentro da garrafa e atiradas em alto mar. Essas pistas, que conspiram a favor de sua eventual localização, ganham certo sentido quando alinhadas em parede da galeria. Mas não revelam seu paradeiro.


    Uma caixa com ar, uma corda, uma carta, duas palavras e caixa de luz.


    A experiência da vertigem se completa em VERSO, instalação-dispositivo que retém o espectador desse filme-situação entre a mata e um espelho. Transformada em imagem, percebo que o tempo dissimulado da ficção é simultâneo ao meu tempo real. Como o sopro de AR é simultâneo ao feixe de LUZ, dentro de caixas. Ou seriam cartas?


    Paula Alzugaray, 2013


     

    Texto crítico

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