É tarde e chove, mas os ratos não têm medo do escuro

Randolpho Lamonier

21/Jun/2018 – 11/Aug/2018

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Press Release

A Zipper Galeria recebe, a partir de 21 de junho, a primeira exposição individual do artista mineiro Randolpho Lamonier em São Paulo. Abrigada no projeto Zip’Up, a mostra “É tarde e chove, mas os ratos não têm medo do escuro” reúne novos trabalhos que refletem sobre as relações entre os fluxos no espaço urbano e a formação da identidade, a partir do descolamento do artista entre os bairros periféricos onde cresceu, na cidade de Contagem, e o centro urbano polarizador, Belo Horizonte, ambas em Minas Gerais. Com curadoria de Raphael Fonseca, a mostra fica em cartaz até 28 de julho.


A reflexão sobre diferentes geografias urbanas e espaços de sociabilidade fundamenta a investigação do artista. “Trago um estado de deriva que prioriza a experiência ao invés da captura analítica dos fatos e me coloco em um estado de atenção onde a reflexão é fruto de uma experiência afetiva, física e quase sempre coletiva”, afirma o artista, que atualmente também está participando da coletiva “MITOMOTIM”, no Galpão Videobrasil.


A narrativa oscilante é refletida nos formatos e técnicas variados, que acompanham as ambiguidades da experiências cotidiana. Em vídeos, fotografias e pinturas em têxtil, o artista explora os temas com elementos de seu repertório visual e afetivo. “São trabalhos em que as relações entre imagem e palavra, autobiografia e ficção se misturam e convidam o público a refletir existencialmente sobre a solidão das grandes cidades e o silêncio das cidades-dormitório”, analisa o curador.


Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.


Sobre o artista


Randolpho Lamonier (Contagem, MG, 1988) desenvolve sua pesquisa visual a partir de diversas mídias e processos, num acúmulo de signos e gestos que refletem sobre a urgência na construção de identidades individuais e coletivas. Indicado ao Prêmio Pipa (2018), recebeu o “Prêmio Residência” no Festival Camelo de Arte Contemporânea (2016), “Prêmio Incentivo- Bienal Naïfs do Brasil” (2016) e o “Prêmio Memória da Casa- de Dentro e de Fora” (2013). Principais exposições individuai: “Vigília”. Palácio das Artes, Belo Horizonte- 2017; “Carbono 14”. Centro Cultural Francisco Firmo de Matos. Contagem- 2016; “Diários em Combustão”, Galeria Orlando Lemos, Nova Lima- 2014. Principais exposições coletivas: “MITOMOTIM”. Galpão Videobrasil. São Paulo. 2018; “Bienal Naifs do Brasil”. Sesc Belenzinho. São Paulo- 2017; ”Bad Video Art Festival”. Moscou, Rússia- 2017; “Tudo é Tangente”. Memorial Minas Gerais Vale. Belo Horizonte- 2017; "AVI- Video Art Festival". Tel Aviv, Israel. 2016.


Sobre o curador


Raphael Fonseca é pesquisador nas áreas da curadoria, história da arte, crítica e educação. Curador do MAC-Niterói e professor do Colégio Pedro II. Doutor em Crítica e História da Arte pela UERJ. Recebeu o Prêmio Marcantonio Vilaça de curadoria (2015) e o prêmio de curadoria do Centro Cultural São Paulo (2017). Curador residente na Manchester School of Art (Maio-Agosto de 2016). Foi um dos autores convidados para o catálogo da 24a Bienal de São Paulo (com curadoria de Jochen Volz). Escreve regularmente para a revista ArtNexus. Entre suas exposições recentes, destaque para "The sun teaches us that history is not everything" (Osage Foundation, Hong Kong 2018); "Dorminhocos - Pierre Verger" (Caixa Cultural Rio de Janeiro, 2018); "Bestiário" (Centro Cultural São Paulo, 2017); "Dura lex sed lex" (Centro Cultural Parque de España, Rosario, Argentina, 2017). Serviço Zip’Up: É tarde e chove, mas os ratos não têm medo do escuro Exposição individual de Randolpho Lamonier na Zipper Galeria Curadoria: Raphael Fonseca Abertura: 21 de junho de 2018, às 19h Em cartaz até 28 de julho de 2018 R. Estados Unidos 1494, Jardim América – Tel. (11) 4306-4306 Segunda a sexta, 10h/19h; sábado, 11h/17h

Critical essay

Walking at night through Augusto de Lima Avenue, in Belo Horizonte, you’ll possibly see an apartment facing the Maleta Building, with the lights on in the living room almost all of the time. There lives a person who, not happy with the experiences lived under the sun, tries to create nocturnal answers for the anxieties of our existence. He writes, photographs, paints, sews; he creates images that temporarily give him some strength, takes a nape and the cycle begins anew the following day.



Would this description fit Randolpho Lamonier’s life, research and creative process? Yes and no; affirmation and negation walk hand in hand in the game the artist suggests between fiction and documentation.


It is not by accident that one of the longest works in this exhibition is the series “Crônicas de retalhos” (Patchwork Chronicles). Using rugs and fabrics, the artist sews scenes, characters and sentences that indicate narratives. These rough-looking objects catch our eye because they concentrate representations of violence and craftsmanship. There is a fineness in the way in which the artist composes the lines that form the gun, but the tragedy of depicting a gun also resides over these details. They are patches of life, scraps in themselves – the murdered body; the body that returns to avenge its traumas; the cry that is silenced in public.


The relation between narrative and the banality of life emerges in a more explicit manner in the photographs and videos presented here. His “Diários.mpeg” (Diaries.mpeg) are fragments of videos realized in different moments over the last years in VHS, photographic cameras and webcams. Lost in a hard disk, they were recently found and are now displayed in different TV sets. Friends, parties, leisure and gaming moments are concentrated in an area in the exhibition, reminding us of a not so far away period in the history of sociability in which being with friends doing nothing was more important than many of the apps in our smartphones. Small intimacies pour from these shreds of reality and we are all voyeurs.


There is a tendency in the works in the exhibition revolve around the first-person singular. The merging of the artist’s autobiographic character and the spectator who enjoys the images and goes through a cathartic process is very welcome. “Siso” (Wisdom tooth) is a video created from excerpts with a narrative about the solitude in large urban centers. The sequence of images comes guided by subtitles that affirm his biographic self-reference in a manner similar to the Polaroid shots that depict the artist’s body immerses in binging and partying that Belo Horizonte offers. As Leonilson’s famous drawing, “Truth fiction”, states: a word in each of our legs.


Even with such diverse languages, it is clear that from the works here that the relation between chronicles and diaries, between images of others and of himself, as well as the importance of writing, are some of the essential elements for Randolpho’s research. The words in his rugs, photographs and videos offer us more layers of uncertainty as to the understanding his images. It isn’t a writing that directs our gaze, but the sorting of the words activates our baggage as readers. There is a lot of artistic coefficient to be pondered and whenever we read them, we get different results.


Caio Fernando Abreu, Dalton Trevisan and Plínio Marcos and their “Dois perdidos numa noite suja” (Two people lost in the dirty night) seems to be one of the echoes of his research on regular characters who don’t have rich-people-last-names and who sometimes bleed, cry and enjoy – they are flesh and bone and this transpires in an oscillating manner between raw gaze and suburban romanticism. This element comes from the title of the exhibition – who are the rats that don’t fear the dark? The artist and who else? Or would it be a reference to the spectators who, somehow, sometimes passes by and other times wallows in these images?


With no fixed answers, what remains is the desire to be besides Randolpho Lamonier until dawn, to see what happens when the rain stops. Where will the rats go?


Raphael Fonseca

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