Zip'Up: Horizonte Supenso

Helô Mello

05/Set/2019 – 05/Out/2019

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Press Release

A paisagem – como espaço vivido, imaginado ou mediado por dispositivos técnicos – é o objeto central da artista Helô Mello em sua individual “Horizonte Suspenso”, abrigada no projeto Zip’Up. A mostra reúne fotografias nas quais o processo criativo é pautado por incertezas, acasos e incidentes: a experimentação se dá a partir de fotos analógicas, produzidas com uma máquina de poucos recursos e precisão; no momento da captura, os quadros do filme – eventualmente envelhecido - são sobrepostos, registrando, também, diferentes tempos em uma mesma imagem. Com curadoria de Eder Chiodetto, a exposição inaugura no 05 de setembro, às 19h.


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“Películas vencidas, câmeras erráticas, justaposições feitas às cegas e a incorporação de ruídos gerados por um processo criativo crivado de acasos, formam o léxico da pesquisa que a artista tem desenvolvido nos últimos anos”, afirma o curador Eder Chiodetto. Estes horizontes em suspensão se formam a partir imagens caóticas, que flutuam na presença de um passado intangível. A imprevisibilidade do gesto é incorporado no conceito dos trabalhos, que visa criar paisagens inventadas oriundas de tempos subjetivos. “O filme, num só tempo, vela e revela a memória em flagrante desconstrução. Minhas imagens visam reconstituir o momento impreciso no qual a imagem engole o tempo”, reflete a artista.


“Horizonte Suspenso” fica em cartaz até 05 de outubro.


Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos oito anos, somam mais de cinquenta exposições e cerca de 70 artistas e 30 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.


Sobre a artista


A artista Helô Mello (SP, 1960) é formada em Comunicação Social, MBA, e Mediação de Conflitos, atividade que exerce. Dedica-se à fotografia contemporânea, em especial à temática do tempo e da memória. Desenvolve pesquisa experimental a partir de arquivos anônimos, familiares e paisagens inventadas. Suas intervenções ocorrem na captura das imagens (negativo de vidro, filmes vencidos, entre outras), no suporte (lixa, colagem, tinta, etc.), e na manipulação digital, incorporando o acaso como estratégia criativa. Participou das coletiva Quimeras, Apólogos e Algumas Fábulas (DOC Galeria, 2017); Uma coisa são Duas (Galeria Ímpar, 2015), e CaraHavana (IQ, 2007). Uma grande piscina abandonada em Águas da Prata serviu para a instalação de sua obra, interagindo com o público (II Fest Imagens, 2015). Seu trabalho fotográfico foi exibido em vídeo no festival Tiradentes em Pauta (2017). Participa desde 2014 do Grupo de Estudos Avançados de Fotografia dirigido por Eder Chiodetto e Fabiana Bruno no Ateliê Fotô, e de ateliês de aquarela e desenho. Foi selecionada para leitura de portfolios no V Fórum Latino Americano (São Paulo, 2019).


Sobre o curador


Eder Chiodetto é curador especializado em fotografia, com mais de 100 exposições realizadas nos últimos 15 anos no Brasil e no exterior. Mestre em Comunicação e Artes pela ECA/USP, jornalista, fotógrafo, curador independente e autor dos livros O Lugar do Escritor (Cosac Naify), Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira (Edições Sesc), Curadoria em Fotografia: da pesquisa à exposição (Ateliê Fotô/Funarte), entre vários outros. Nos últimos anos tem realizado a organização e edição de livros de importantes fotógrafos como Luiz Braga, German Lorca, Criatiano Mascaro, Araquém Alcântara e Ana Nitzan, entre outros. É curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP desde 2006 e publisher da Fotô Editorial.

Texto crítico

Películas vencidas, câmeras erráticas, justaposições feitas às cegas e a incorporação de ruídos gerados por um processo criativo crivado de acasos, formam o léxico da pesquisa que a artista Helô Mello tem desenvolvido nos últimos anos e que resultou na mostra “Horizonte Suspenso”, que a Zipper Galeria abriga agora no projeto Zip'Up.


Tais estratégias, segundo a artista, visam “demolir símbolos” para gerar uma “rememoração ruidosa que flutua no presente de um passado intangível”. Logo, estamos diante de obras complexas que renunciam ao tempo-espaço que a imagem fotográfica em geral faz emergir de um passado demarcável, para entrarmos numa relação temporal de total instabilidade.


Marcados por incertezas e incidentes, esses “Horizontes Suspensos” mimetizam, a golpes de luz e com seus azuis febris, os movimentos entrecruzados da memória, a percepção fragmentada do tempo, os desejos do porvir e a soma dos dias amalgamados em paisagens que invocam o extemporâneo. Em suma, a quintessência da vida, que Helô Mello persegue obstinadamente nas suas habilidades, que são tantas, e, sobretudo, na forma como sabe celebrar o encontro, a amizade, a maternidade, o amor.


Toda essa experiência em viver intensa e afetivamente a soma das horas criou um espaço lacunar em sua vida, que naturalmente transbordou para sua produção artística. É essa instância particular da vida da pessoa e da artista que se infiltra entre o primeiro e outros tantos planos que se desacomodam da superfície de suas obras inquietantes.


Desses horizontes espessos irrompem fragmentos de sonhos recorrentes, castelos fortuitos que almejamos construir, precipícios que desafiaram nossas convicções, praias que nossa infância inventariou, montanhas que escalamos ou nem sabemos se as alcançamos, temporais que nos fizeram aprender a não temer o medo.


Imagens voláteis que deambulam nossa existência surgem nesse torvelinho de horizontes suspensos, após serem capturados pelo olho-espírito da artista que transcende o jogo fotográfico para sorver cada minuto vivido e, assim, fundir vida e arte a partir de sua percepção humanística, nostálgica, fabular.


Eder Chiodetto

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