Subtrações

Celina Portella

20/Set/2018 – 27/Out/2018

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Press Release

Pensar a imagem nos limites de sua materialidade e como um instrumento de mediação do real tem sido um dos temas centrais no trabalho de Celina Portella. Utilizando o próprio corpo como objeto de experimentações no espaço, a artista combina práticas quase artesanais em vídeos, fotografias ou foto-objetos que desafiam características de cada suporte e a percepção por parte do observador.


Na produção mais recente que compõe sua individual no projeto Zip'Up, Celina apresenta um conjunto de trabalhos nos quais mistura também processos pictóricos sobre as fotografias. Nas séries exibidas em Subtrações, uma densa camada de tinta negra parece invadir as imagens, interferindo em sua representação.


Em “Fotonovela da Opressão”, por exemplo, a artista cria uma sequência de fotos nas quais sua imagem vai aos poucos sendo eliminada por uma mancha que invade os quadros cada vez em uma proporção maior. Já na obra “Em Contraste”, ela se retrata interagindo com a pintura negra que se estende pela parede, como em um embate entre sua própria representação e um apagamento quase inevitável.


O desenho de estruturas geométricas básicas como círculos, quadrados e triângulos também são recorrentes nesses trabalhos, como na série em que a artista é vista dentro de uma esfera ou ao redor de outros objetos eliminados da fotografia posteriormente pela camada pictórica. De forte caráter formal, as imagens dialogam com uma produção experimental na fotografia e processos pioneiros dos movimentos suprematistas e dadaísta do início do século 20.


Com curadoria de Nathalia Lavigne, “Subtrações” fica em cartaz de 20 de setembro a 27 de outubro.


Idealizado em 2011, um ano após a criação da Zipper Galeria, o programa Zip’Up é um projeto experimental voltado para receber novos artistas, nomes emergentes ainda não representados por galerias paulistanas. O objetivo é manter a abertura a variadas investigações e abordagens, além de possibilitar a troca de experiência entre artistas, curadores independentes e o público, dando visibilidade a talentos em iminência ou amadurecimento. Em um processo permanente, a Zipper recebe, seleciona, orienta e sedia projetos expositivos, que, ao longo dos últimos seis anos, somam mais de quarenta exposições e cerca de 60 artistas e 20 curadores que ocuparam a sala superior da galeria.


Sobre a artista


Celina Portella (Rio de Janeiro) vive atualmente em São Paulo. Estudou design na PUC-Rio e se formou em artes plásticas na Université Paris VIII. Suas obras dialogam com a arquitetura, o cinema e a performance, caracterizando-se especialmente por um questionamento sobre a representação do corpo e sua relação com o espaço. Recebeu indicação ao prêmio da Bolsa ICCO/sp-arte (2016), ao prêmio de aquisição EFG Bank & ArtNexus na SP Arte (2015) e ao prêmio Pipa (2013 e 2017). Foi premiada na XX Bienal Internacional de Artes Visuales de Santa Cruz na Bolívia (2016) e no II Concurso de Videoarte da Fundação Joaquim Nabuco em Recife (2008). Participou da residência na Bag Factory Artists' Studios na África do Sul (2018), no Centre international d'accueil et d'échanges des Récollets em Paris (2009), da residência LABMIS, do Museu da imagem e do Som em São Paulo (2010), na Galeria Kiosko em Santa Cruz de La Sierra na Bolívia (2009), entre outras. Entre as participações em mostras coletivas, destacam-se a Frestas Trienal de Artes no Sesc Sorocaba (2017), São Paulo; Dublê de Corpo (2016), na Galeria Carbono; Esboço para uma coreografia (2014), na Galeria Central; Verbo na Galeria Vermelho, III Mostra Do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo (2012). Como bailarina e co-criadora trabalhou com os coreógrafos Lia Rodrigues e João Saldanha.


Sobre a curadora


Nathalia Lavigne (Rio de Janeiro, RJ) é pesquisadora, crítica de arte e curadora. Doutoranda no programa de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde desenvolve uma pesquisa sobre colecionismo digital e imagens de obra de arte no Instagram, é mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela Birkbeck, University of London. Escreve para publicações como Artforum, Contemporary And, Folha de São Paulo, entre outras. É uma das responsáveis pela programação do projeto Zip'Up, na Zipper Galeria, desde 2017. Foi uma das pesquisadoras do projeto “Observatório do Sul”, plataforma de discussões promovida em 2015 pelo Sesc São Paulo, Goethe-Institut e Associação Cultural Videobrasil. Como curadora, realizou as exposições "Imagem-Movimento" (Zipper Galeria, 2016); "(I)Matérico Presente - Felipe Seixas" (Zipper Galeria, 2017); "Algorab - Rodrigo Linhares" (Galeria Adelina, 2017); "Apagamento - Renato Castanhari" (Galeria Sancovsky, 2017), entre outras.

Texto crítico

Salto no escuro e histórias de sombra


"[as sombras] são sempre companhia, unidas aos corpos" (Leonardo da Vinci, s.d. )


Um conjunto de forças atuando em oposição parece fundamentar o processo de Celina Portella em Subtrações. A ideia de uma equação sugerida pelo título não conduz, entretanto, a um resultado final definitivo. Denominador comum às séries, a tinta preta que invade as imagens ganha formas e funções distintas: ora surge como um volume denso e disforme; ora como um desenho rígido de estruturas geométricas. O corpo da artista também assume papéis variados, intercalando situações de expansão e contenção ao interagir com a massa negra pintada sobre as fotos.


Nessa equação final, não há um único equilíbrio possível. Pode-se encontrar momentos de maior estabilidade como na fotoinstalação Em Contraste, na qual ela parece conseguir conter a invasão do bloco de tinta sobre sua própria imagem dentro da moldura; e outros sem sinal de sustentação ou permanência. É o caso dos autorretratos com formas geométricas básicas (círculo, quadrado e triângulo), onde a ausência de referentes espaciais cria um efeito de queda iminente, como na própria noção de um abismo entre dois tempos característica à fotografia.


Ao longo da última década, Celina vem utilizando o corpo para tratar dos dilemas da representação e pôr em xeque a suposta transparência dos dispositivos de mediação do real. Sua produção como artista visual acontece em paralelo à dança contemporânea, que explica muito do interesse pelo movimento e limites corpóreos tanto na relação com o espaço quanto na imagem. Em trabalhos anteriores, como na videoinstalação Derrube (2009), a noção do duplo, outra premissa da fotografia, é questionada pela ação da artista de destruir sua própria projeção ao golpear a parede que serve de suporte. Um recurso parecido foi utilizado também em Movimientos Detenidos (2008), ação no espaço urbano realizada em Valparaíso, no Chile, na qual ela se desloca pela cidade e deixa a imagem do próprio corpo impressa nos muros.


Vale pensar nos dois exemplos como uma introdução a processos retomados nesses novos trabalhos. O mais nítido é a relação com a ideia da sombra. Embora de forma não tão clara quanto nas projeções anteriores, que de fato tratam da interação entre o corpo-objeto com sua forma mais elementar de representação, as sombras sugeridas aqui são opacas; têm um peso matérico bem distinto do contorno em forma de vulto que as caracterizam. Mas o princípio na relação com as imagens é similar – é por meio dessas densas camadas escuras que elas se distinguem, formando situações que só existem pela interação entre as camadas visíveis e ocultas.


A sombra é também um ponto em comum nos processos originários da representação da imagem. Em seus primórdios, tanto a pintura quanto a fotografia buscaram materializar o contorno projetado a partir de um objeto. Das primeiras pinturas primitivas em Lascaux, reveladas por decalque utilizando um pó colorido, havia desde já um procedimento de remoção a partir do contorno, “uma sombra em negativo, pintura não pintada (“soprava-se em torno”) obtida por subtração”, como define Philippe Dubois em O Ato Fotográfico em Outros Ensaios. Mas é só com a invenção da fotografia que de fato se tornaria possível captá-la em tempo real.


Ao misturar essas duas técnicas, Celina parece buscar uma aproximação entre elas por meio das sombras. O autorretrato é significativo nesse processo. Se o corpo como objeto ausente foi uma das mudanças trazidas com a fotografia – antes, nas técnicas que a precederam, como a câmera obscura, era preciso estar dentro do dispositivo para que a projeção acontecesse – suas imagens parecem evitar esse desaparecimento. Mesmo que, por vezes, oprimidos, os corpos seguem presentes quase como um ato de resistência, índice mais verdadeiro.


Nathalia Lavigne


1 Leonardo da Vinci, Ms 2038 da Biblioteca Nacional da França (folhes 21, 22, 29, 30). Citado em: Dubois, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Papirus Editora, 1994, p. 120.

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