Um presente para o futuro: Rodrigo Braga

21 March - 18 April 2026

Em Um presente para o futuro, Rodrigo Braga reúne 17 obras que aproximam pintura, desenho e fotografia em um conjunto pensado como ambiente e como narrativa. A exposição propõe um percurso no entretempo, onde passado e futuro se tocam, e onde a imagem funciona menos como ilustração e mais como campo de passagem: uma zona em que símbolos, matérias e gestos se rearticulam.

 

O núcleo principal é composto por um conjunto de bandeirolas em lona de algodão, com pinturas acrílicas em formatos variados. Parte delas se projeta perpendicular à parede, com pintura em dupla face; outras permanecem rentes à parede, em face única. Três fotografias completam o conjunto.

 

A montagem explicita o interesse do artista por situações em que a linguagem visual desloca seu próprio regime: pintura e desenho deixam de ser apenas "quadros" e passam a operar como presença no espaço. As bandeirolas e lonas são fixadas diretamente na parede por galhos fundidos em bronze, elementos que tensionam delicadeza e peso, organicidade e permanência, ao mesmo tempo em que sugerem um tipo de vínculo entre corpo, matéria e paisagem.

 

Nesta exposição, a obra de Rodrigo Braga se encontra situada diante de um mundo em ebulição, sem prometer respostas fáceis. "Cabe a nós mesmos a revisão das nossas prioridades e a reinvenção das nossas atitudes", diz o artista, apontando a arte como um território onde ainda é possível reorganizar simbolicamente o que nos cerca. Nesse horizonte, as obras acionam um repertório de elementos recorrentes em sua pesquisa, colocados em fricção e proximidade: ovos, olhos, sementes, galhos, terra e pedras surgem como signos instáveis, capazes de se equivaler, se contradizer, se desviar. A exposição se constrói como um exercício de fabulação crítico e sensível: "a arte se apresenta como o caminho das fábulas, das novas possibilidades", afirma Braga.

 

Dois textos críticos, presentes em seu novo livro (Ponto Zero, Ed. Fotô, 2025), ajudam a iluminar as ideias que atravessam Um presente para o futuro. Para Eder Chiodetto, a obra de Braga se lança no embate de "preencher o vazio, atribuindo-lhe sentidos possíveis". Já Eduardo Jorge de Oliveira propõe o zero como figura de origem e instabilidade, lembrando que "o zero é um ponto no qual toda história se faz possível a partir de um começo" e que, na obra do artista, "a imagem é seu 'era uma vez'". Entre começos móveis e materiais concretos, a exposição se coloca, assim, como um convite a sustentar a imaginação sem ingenuidade, e a perceber, no presente, as forças contraditórias que ainda insistem em criar o mundo.