Camille Kachani Beirute, LÍbano, 1963

Camille Kachani (Beirute, Líbano, 1963) vive e trabalha em São Paulo desde a infância, quando a família se estabeleceu no Brasil. Filho de refugiados sírios, nasceu sem documentos, sem pátria e sem o direito de ser reconhecido como libanês, condição que se tornou matriz de uma poética dedicada à investigação sobre identidade, deslocamento e pertencimento. Sua prática transita entre escultura, objeto, colagem, fotografia e instalação.

 

A produção de Kachani parte da apropriação de objetos cotidianos para construir organismos híbridos: livros dos quais brotam galhos, ferramentas que se convertem em criaturas vegetais, móveis que se desdobram em paisagens orgânicas. As esculturas metamórficas combinam elementos botânicos como galhos, folhas e flores com utensílios domésticos, instrumentos musicais e livros, instaurando uma ambiguidade calculada: diante das obras, é difícil saber o que foi manipulado pelo artista e o que foi apropriado da própria natureza. Esse procedimento conecta-se a uma investigação que o artista desenvolve há mais de trinta anos, sobre as diferenças e aproximações entre o que seria natural e o que é construção humana.

 

Em trabalhos recentes, Kachani aprofunda a investigação em direção às camadas antropológicas e históricas do Brasil. Costura e parafusa objetos sobre tela trabalhada com resina e fibra de vidro, compondo colchas de retalhos que articulam apagamento, memória coletiva e disputa pelo imaginário. Em obras como Pindoretama (2025), o artista recupera o nome original em tupi-guarani da terra que hoje chamamos Brasil (palavra derivada da junção entre "pindó", palmeira, e "retama", lugar, traduzida como "terra das palmeiras"), e propõe uma releitura crítica da história nacional pelos olhos dos povos silenciados na sua narrativa oficial. Para Kachani, segundo suas próprias palavras, a obra é política mas não ativista, é sobretudo poética. O projeto se inspira no conceito de contra-história formulado por Michel Onfray e amplia o campo conceitual da pesquisa do artista.

 

Suas obras integram coleções institucionais como MAR (Museu de Arte do Rio), MAM-SP, MAC-USP, MAC Niterói (Coleção João Sattamini), MAM Rio (Coleção Gilberto Chateaubriand), MAC Paraná, MoLAA (Museum of Latin American Art) (Los Angeles), Fundación Otazu (Espanha), Colección Metropolitana Contemporánea (Buenos Aires) e Centro de Arte Contemporáneo Wifredo Lam (Havana). Kachani realizou cinco individuais na Zipper Galeria: Uma Contra-História do Brasil (2025), Orquestra Assinfônica Fotossintética (2023), Solilóquio (2019), Encyclopaedia Privata (2016) e Natural e manual (2014), além de exposições na FUNARTE (São Paulo, 2008), Temporada de Projetos do Paço das Artes (2007), Fundação Joaquim Nabuco (Recife, 2007) e Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Curitiba, 2004). Entre as coletivas marcantes, integrou Adiar o fim do mundo na FGV Arte (Rio de Janeiro, 2025), com curadoria de Ailton Krenak e Paulo Herkenhoff; Doações recentes (2012-2015) no MAR (curadoria de Paulo Herkenhoff, 2016); A Casa no MAC-USP (curadoria de Katia Canton, 2016); Bienal Internacional de Curitiba (2015) e a XIV Biennale Internationale de l'Image (Nancy, França, 2006). Em 2024, assinou a vitrine inaugural da nova loja da Hermès no Shopping Iguatemi, em São Paulo.