'Cuidado com a pintura' – conheça a exposição de Célio Braga

Adentre os conceitos que permeiam as obras de Célio Braga
February 17, 2026
'Cuidado com a pintura' – conheça a exposição de Célio Braga

Antes da “pintura” estar associada exclusivamente às tintas e pincéis, sua raiz etimológica latina referia-se ao ato de marcar ou adornar, estando inclusive associada, em determinados contextos, ao bordado. Com agulhas, linhas, retalhos e pigmentos, Célio Braga dispensa o pincel sem perder a essência da pintura – que hoje tem seu sentido novamente expandido na arte contemporânea.

 

Mineiro de nascimento e cidadão do mundo por destino, o artista utiliza sua experiência cosmopolita para investigar questões que são, acima de tudo, universais ao ser humano. Braga debruça-se sobre a fragilidade da vida, a impermanência e as marcas que o tempo deixa na matéria.

 

A exposição "Cuidado com a Pintura" integra o programa Zip’Up, iniciativa da Zipper Galeria dedicada a mostras de artistas convidados, e apresenta um recorte da produção recente de Célio. A curadoria é de Celso Fioravante – diretor do Mapa das Artes, que também está à frente do Salão dos Artistas Sem Galeria, em cartaz simultaneamente no térreo da Zipper.

 

Conteúdo do artigo:

 

 

Origens e deslocamentos

Célio Braga é um artista brasileiro que, apesar de dialogar com a produção efervescente de sua geração no Brasil, como Leda Catunda, por força dos deslocamentos, acabou encontrando maior reconhecimento fora do país. Nascido em Guimarânia, Minas Gerais, viveu grande parte de sua formação em Goiânia, onde ainda não havia faculdade de Artes Visuais, o que o levou a buscar no exterior. No início dos anos 1990, muda-se para Boston, nos Estados Unidos, onde inicia seus estudos em arte na Boston Museum School of Fine Arts, entrando em contato com uma formação institucional bastante consolidada. De volta ao Brasil, já em Goiás, vence um prêmio de pintura que lhe garante uma viagem à Europa, e o que seria uma estadia de três meses torna-se uma permanência de 33 anos. 

 

Hoje, o artista vive e trabalha entre Amsterdã e São Paulo, com uma produção multidisciplinar, que expande categorias como fotografia, pintura, desenho, têxteis e escultura.

 

 

 

Cuidado com a pintura

Sob curadoria de Celso Fioravante, a exposição reúne 21 trabalhos recentes do artista, todos de pequenos formatos, com no máximo 45 centímetros. Nas palavras do artista, a escolha vem do “desejo de ocupar menos espaço no mundo e de fazer uma produção mais sustentável”. Mas há também algo de intimidade, que convida o espectador a se aproximar com cuidado dessas obras vulneráveis. 

 

Para o título da mostra, Fioravante brinca com a dubiedade de “cuidado” na língua portuguesa, que pode representar uma interjeição direcionada ao visitante, bem como pode referir-se ao zelo do artista com a própria criação. O tema é evidenciado de forma mais literal em trabalhos como “Bruised and Bandaged” (Machucado e enfaixado) e em telas cujas faixas de tecido pintadas se assemelham a ataduras, protegendo um corpo ferido. 

 

 

Outro ponto a se notar é que o título indica que os trabalhos reunidos ali são pinturas, ainda que sejam feitos de retalhos de panos e roupas, cera de abelha, costuras, além de tintas e pigmentos. A pesquisa, independente dos materiais, é essencialmente pictórica. 

 

 

O corpo, suas experiências, avessos e metamorfoses

A experiência corpórea atravessa todas as obras da exposição, apesar de Braga se afastar deliberadamente da figuração do corpo. À primeira vista, formas orgânicas e arredondadas, paleta de cores quentes em tons rosados, vermelhos e, por vezes, brancos ou pretos. Texturas palatáveis, que instigam o desejo do toque, evocam calor e umidade da pele. São pinturas que descrevem experiências dos sentidos, mas também os ativa, convocando o corpo do espectador a reconhecer, naquilo que vê, aquilo que já sentiu. Grande parte dessa percepção deriva da encáustica, que produz superfícies lisas e aveludadas, mas acompanhadas da lembrança do calor, visto que seu uso implica a manipulação da cera ainda quente sobre a superfície.

 

 

Célio se interessa por estados, processos experimentais e em mutação, por aquilo que ainda está sendo formado, como o próprio título de uma das obras ao lado da entrada, “Still Being Formed”, sugere. As referências à formação da vida e aos processos de metamorfose também se estendem ao impulso de expansão de “Bursting like Flowers” (Irrompendo como flores) e no arquétipo universal de “O ovo”.

 

 

No fundo da sala expositiva, o trio “Pétalas negras caindo”, “Pétalas vermelhas caindo” e “Black Flowers (Vanitas)” organiza um núcleo de contraponto mais denso. Ambas se articulam em torno da morte e da compreensão de que tudo é transitório. A cor sanguínea, em outros trabalhos associados à pulsão vital, aqui é obscurecida. O título da terceira obra cita as vanitas, um gênero de pintura de natureza-morta do século XVII, popular na Holanda barroca, que utilizava objetos simbólicos, como caveiras, ampulhetas e flores murchas, para representar a inevitabilidade da morte. Célio cria contrapontos no ambiente sem tratar de vida e morte como pólos antagônicos, mas momentos distintos e indissociáveis de um mesmo ciclo experienciado pelo corpo.

 

 

 

Visite a Zipper

Por tratar de experiências que só se completam no encontro físico – na escala, na proximidade e na relação corporal com a matéria –, programe uma visita à exposição “Cuidado com a pintura”, que segue em cartaz na Zipper até o dia 28 de fevereiro de 2026. A galeria está localizada na Rua Estados Unidos, 1494, em São Paulo, e funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; e aos sábados, das 11h às 17h.

 
 

Add a comment