Quem imaginaria que as florestas que pintava na juventude se transformariam mais adiante nos desenhos que ilustram os bosques neurais do cérebro?
Javier Defelipe (Cajal: A arte da ciência)

A arte foi por décadas a ferramenta mais eficaz para ilustrar as imagens microscópicas captadas por cientistas ao redor do globo. Por meio de pincéis e tintas, pensadores e desbravadores do cérebro humano, como o neurocientista Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), retrataram os mais extraordinários acontecimentos da mente em desenhos em papel. Sinapses e impulsos nervosos que ocorrem entre as unidades celulares de forma rizomática eram investigados minuciosamente, levando tais cientistas a uma cena sublime: a floresta neural que habita um dos órgãos mais complexos e misteriosos do corpo humano. Tal espetáculo nos transporta diretamente à visão ambiental defendida pelo filósofo e crítico Timothy Morton, de uma vasta e extensa malha de interconexão sem centro nem contornos; radical e de coexistência que define o pensamento ecológico da contemporaneidade e a relação entre a vida que acontece interna e externamente. Assim, ao olharmos o conjunto de unidades mínimas de nossa mente, descobrimos que elas mimetizam a floresta natural que nos rodeia e da qual somos parte integral e simbiótica. É sobre esse fabuloso pensamento que discorre a atual pesquisa de Janaina Mello Landini e também sua exposição individual Bosque Neural, em cartaz na Zipper Galeria.
 
A artista visual vem há décadas percorrendo os caminhos que circundam a complexidade do individual e singular em relação ao todo, criando linguagens que incorporam o ritmo e a espacialidade dessas escolhas, experimentadas visualmente em sua célebre série “Ciclotramas”. Em constante desdobramento, o pensamento artístico de Landini encontra agora de forma mais consolidada duas vertentes que sua produção já tangenciava: a neurociência e o universo ambiental.
 
Cada tela que compõe a paisagem mental criada pela artista para este espaço expositivo funciona como uma lâmina de laboratório. Entre os planos terrenos e metafóricos, recria a bidimensionalidade da secção feita no córtex cerebral, dando por meio de tal placa/obra a possibilidade de vislumbrarmos o vasto bosque neural que se desenvolve dentro de nós. Fios de diferentes gramaturas, texturas e brilhos aparecem retorcidos, criando núcleos e extensões mais orgânicas. Suas pontas, com menos ramificações que em trabalhos anteriores da artista, nos possibilitam imaginar por onde poderão seguir tais fios – que continuam seus trajetos invisíveis por trás das telas. Cada trabalho exibe um ângulo diferente de nossa floresta neurológica, como se tivessem sido segmentados em diferentes pontos e trajetos, na tentativa de captar uma visão panorâmica, mas ao mesmo tempo fraccionada, de nosso pensamento. Entre copas e raízes, percebemos a complexidade e as múltiplas possibilidades dessa teia, que se interconecta infinitamente.
 
Elementos tridimensionais nascem dessa narrativa, como se uma árvore, ou um neurônio, pudesse se separar dessa larga trama. Cajal as denominava poeticamente de células do pensamento ou, ainda, de mariposas da alma, estas especificamente por sua formas piramidais que lembram o corpo e as asas sibilantes do inseto, que sobrevoa o espaço e “cujo bater, quem sabe, esclarecerá algum dia o segredo da vida mental”, dizia o prêmio Nobel.
 
Desenvolvidas na torção de fios metálicos, essas esculturas mimetizam as estruturas exibidas em telas ao mesmo tempo que subvertem sua forma de produção e pensamento. Desprovidas da tensão, força tipicamente presente nas obras de Landini, suas ramificações flutuam por meio da materialidade do próprio fio, remetendo-nos a um ser vegetal destacado no espaço.
 
Como reflete o neurobiólogo Stefano Mancuso em seu instigante Revolução das Plantas, o universo vegetal desafia nossas suposições sobre quem são os seres mais inteligentes. Se, como afirma, as áreas das copas e raízes interagem entre si, formando uma estrutura cujas funções se assemelham às do cérebro, a visita a esse ambiente biomórfico criado por Landini nos leva para dentro de nós e também para um potente diálogo com o universo ambiental que nos rodeia.

Texto da curadora Ana Carolina Ralston