Acorda: Janaina Mello Landini

21 March - 18 April 2026

Acorda, individual de Janaina Mello Landini com curadoria de Marcello Dantas, apresenta um novo desdobramento na pesquisa da artista, ao expandir seu vocabulário formal para um campo mais orgânico, sensorial e processual, no qual diferentes matérias passam a operar como partes de um mesmo sistema. A exposição nasce de uma ideia amadurecida ao longo do tempo e finalmente realizada em condições que permitiram à artista desenvolver a complexidade espacial e material imaginada para o projeto.

 

Neste site-specific, são ativados materiais nunca antes presentes no corpo de trabalho de Janaina. À sua reconhecível prática em que o fio se projeta no espaço, em diálogo com a arquitetura, são agora incorporados elementos como galhos, pedras, sal, carvão, água, musgos, fungos e o Verdete, uma espécie de potássio bruto trazido de São Gotardo, Minas Gerais, terra de origem da artista.

 

Esses elementos constituem um circuito de relações e dependências, em que estrutura, decomposição, nutrição, umidade e transformação se contaminam mutuamente. A instalação se aproxima, assim, de uma lógica viva, na qual cada matéria atua como parte de um metabolismo maior.

 

No texto curatorial, Marcello Dantas aproxima a exposição da imagem do micélio: “Rede silenciosa que ocupa os interstícios do mundo, ele é capaz de digerir tudo aquilo que a vida produz, transforma e abandona. Fim e começo na mesma trama. O fio que nos enreda antes mesmo que possamos nomeá-lo.”

 

Pela primeira vez, Janaina realiza a aplicação do algoritmo (-1) diretamente no chão do espaço expositivo, a partir da reapropriação de um trabalho anterior, de 2019, agora em outra lógica construtiva. A instalação ainda convocou todos os fios do ateliê da artista que, em outro momento de Acorda, surgem presos às paredes da galeria.

 

Ao longo do percurso, o visitante atravessa diferentes situações espaciais e materiais até chegar a uma região central, formada por galhos e tramas que criam uma espécie de ambiente interno, quase um abrigo. Nesse núcleo, um vaso suspenso deixa cair, gota a gota, água sobre um espelho d’água no chão, instaurando uma temporalidade lenta e insistente, ligada à introspecção, à passagem do tempo e à alteração da percepção. 

 

Em torno desse centro, a presença dos diferentes materiais ativa uma ecologia sensível: o que sustenta, o que infiltra, o que mineraliza, o que apodrece, o que germina. Em Acorda, essa investigação se desloca da imagem para a matéria viva: a artista passa a se relacionar diretamente com organismos em contínua transformação. Um fluxo contínuo que atravessa matéria, tempo e percepção. A transformação como parte constitutiva da própria obra. Um campo em que decomposição, regeneração e interdependência se articulam numa mesma trama.