A cor das veias da terra é branca. Nos fios invisíveis que entrelaçam plantas, árvores e minerais, habita uma inteligência ancestral: o micélio. Rede silenciosa que ocupa os interstícios do mundo, ele é capaz de digerir tudo aquilo que a vida produz, transforma e abandona. Fim e começo na mesma trama. O fio que nos enreda antes mesmo que possamos nomeá-lo.
 
É nesse campo que se inscreve a pesquisa de Janaina Mello Landini. Mais do que investigar essa estrutura viva, a artista se propõe a estabelecer um diálogo com a consciência difusa que pulsa sob a superfície. Em trabalhos anteriores, como as Ciclotramas e os Bosques Neurais, sua obra já articulava relações entre redes orgânicas, fluxos de percepção e sistemas de conexão. Em Acorda, essa investigação se desloca da imagem para a matéria viva: a artista passa a se relacionar diretamente com organismos em contínua transformação.
 
A corda que conecta os galhos desta instalação foi inoculada com esporos de diferentes espécies de cogumelos. À medida que se desenvolvem, esses organismos passam a digerir gradualmente a própria obra. A transformação deixa, assim, de ser apenas representada para tornar-se constitutiva do trabalho. A degradação integra sua poética; o desaparecimento, sua linguagem.
 
Os cogumelos surgem, nesse contexto, como portais entre camadas simultâneas de percepção. Também evocam processos de cura e resgate, ao tocar regiões da mente, da memória e da sensibilidade que a consciência ordinária raramente alcança. Há algo de limiar nessa experiência: uma travessia entre matéria e imaginação, entre decomposição e renovação, entre aquilo que se vê e aquilo que insiste em permanecer invisível.
 
Acordar, aqui, é alterar a percepção. É abrir-se a outras dimensões do real e reconhecer que a vida também se organiza em escalas subterrâneas, onde fungos e bactérias participam de disputas decisivas de criação, transformação e dissolução. Se o micélio não é deus, talvez tenha sido ele quem o inventou. 

Texto curatorial de Marcelo Dantas