Fio d’Água : Laura Villarosa

16 May - 13 June 2026

Em Fio d'água, Laura Villarosa reúne um conjunto de paisagens imaginadas em que pintura e bordado se constituem mutuamente. As composições evocam territórios anteriores ao mapa, superfícies percorridas por linhas e relevos que parecem preceder qualquer tentativa de localização geográfica. A artista trabalha em uma zona em que a imagem se forma pela acumulação paciente do gesto, fora do registro figurativo direto.

 

O bordado funciona, no trabalho de Villarosa, como linguagem plástica autônoma e como método de pensamento. Cada camada de fio assentada sobre o tecido adensa a imagem, constrói volume, cobre uma região da superfície para que outra se revele. As paisagens resultam de sobreposições e decisões acumuladas ao longo de um tempo dilatado, e essa duração permanece inscrita no corpo da obra. Há, em cada peça, uma temporalidade lenta que se oferece ao olhar como parte do que está sendo visto.

 

A prática inscreve-se em uma genealogia de gestos transmitidos e reinventados, historicamente associados à produção feminina e ao âmbito doméstico. Villarosa assume essa filiação como matéria viva de seu trabalho, fazendo do bordado uma linguagem capaz de sustentar problemas pictóricos contemporâneos sem perder a memória de onde veio.

 

A pesquisa de materiais estrutura o processo de ponta a ponta. A artista trabalha com fios de procedências diversas: alguns chegam por meio de fornecedores especializados, outros por doação de pessoas próximas que passaram a reconhecer em sua prática uma atenção particular ao material. Fios naturais convivem com sintéticos no mesmo trabalho, peças artesanais ao lado de industriais. A escolha de cada um aproxima-se da escolha de um pigmento. Villarosa observa a cor que o fio carrega e o modo como ele absorve ou devolve a luz. Avalia também a textura que cada material imprime à superfície quando assentado em camada. Desses critérios surge a paleta de cada paisagem, definida pelo material antes mesmo de qualquer ideia de imagem.

 

Os trabalhos reunidos na mostra propõem uma forma de pensamento que se faz por meio da textura. O tecido bordado adquire ali a densidade de um campo pictórico e a sensibilidade de uma pele, submetido à mesma economia de gestos que organiza a pintura. Fio d'água nomeia essa condição: a de uma imagem que se transforma a cada gesto e mantém, ao mesmo tempo, o curso silencioso que a conduz.