A Zipper Galeria apresenta Aquilo Que Não Cabe, primeira ocupação do salão principal por Jessica Costa, com curadoria de Carollina Lauriano. A mostra parte de uma pergunta sobre a forma, a de saber quanto volume ela pode ter antes de deixar de ser tolerada.
A trajetória de Jessica Costa começa na moda, primeiro em uma fábrica de fios e depois na confecção artesanal de roupas. O ensino dessas técnicas a levou a aprofundar a pesquisa teórica sobre o têxtil e, daí, a adotar a tapeçaria como linguagem. Dessa formação permanece o corpo como medida, de modo que a figura humana segue organizando seu imaginário mesmo após a migração para as artes visuais.
A exposição nasceu de uma visita da curadora ao ateliê da artista, onde se encontrava sua primeira escultura. A conversa em torno do volume e da forma arredondada daquela peça resultou na proposta que orienta a mostra: pensar a redução.
Curadora e artista compartilham também um passado na moda, campo que, para Lauriano, se apresenta como espaço de expressão da individualidade ao mesmo tempo em que carrega valores opressivos, evidentes para quem está fora do "padrão". A moda funciona, assim, como porta de entrada para uma pesquisa poética que alcança a vigilância do corpo em escala social mais ampla.
Entre as séries que integram a exposição, destaca-se o conjunto de quatro esculturas de tapeçaria sobre pedestais. De formas abstratas que guardam a observação do corpo, as peças diminuem em gradação, e a redução se faz parte por parte, com cada segmento da estrutura tratado como um membro que perde circunferência. O procedimento vem da modelagem de vestuário, em que graduar tamanhos é rotina. Sobre os pedestais, as esculturas ultrapassam a escala humana e convocam a estatuária greco-romana, referência de monumentalidade afastada do cotidiano. A lã aproxima o que o mármore mantém à distância.
A lógica da série surgiu do próprio fazer, já que cada peça toma como referência a anterior, sequência que a artista associou às fotografias de emagrecimento que circulam nas redes sociais.
"Durante a confecção de cada escultura, minha referência é sempre a forma anterior. Isso me remeteu às imagens de antes e depois que acompanham os processos de emagrecimento, em que uma fotografia é colocada ao lado da outra", diz Jessica Costa.
Nas três tapeçarias emolduradas, a moldura reaparece como figura da contenção. Se na série Sobejos a tapeçaria já escapava pelas laterais do retângulo, aqui o avanço se torna tridimensional e se projeta para fora do plano. As obras partilham a mesma composição cromática, enquanto o desenho varia em ganho e perda de volume.
Voluptuosa encerra o percurso com quatro esculturas de parede que nascem de um quadrado e crescem para fora dele. O ponto de partida é a lingerie, peça do vestuário que dá contorno ao corpo. A artista trabalhou com espuma expansiva e pressionou o material, ainda maleável, com tiras de sutiã, de modo que a forma escapasse pelos intervalos das marcações.
Reunidas, as obras tratam da vigilância da forma num momento em que o debate público sobre o corpo feminino passa pelos medicamentos para emagrecer e pelo uso que a sociedade faz desse recurso. A exposição desloca o assunto para o campo estético, onde a forma é percebida antes de ser julgada, e a tapeçaria responde a ele com volume e demora.
"Esta exposição trata da forma que ocupa o espaço e de como ela é percebida no campo estético. Desloco uma questão profunda, a vigilância dos corpos, para a minha linguagem e faço essa reflexão por meio da tapeçaria", afirma a artista.
Essa demora tem medida concreta no ateliê. Cada obra soma cerca de doze etapas manuais, das quais a tapeçaria é a última e a única que chega ao olhar do público. O que se vê é a superfície de um processo longo, que dá ao volume o tempo de se formar. Na leitura da curadoria, é desse modo que o conjunto procura saídas para as “armadilhas do padrão”, ao conceder à forma o espaço que a norma lhe recusa.

