Acorda, individual de Janaina Mello Landini com curadoria de Marcello Dantas, apresenta um novo desdobramento na pesquisa da artista, ao expandir seu vocabulário formal para um campo mais orgânico, sensorial e processual, no qual diferentes matérias passam a operar como partes de um mesmo sistema. A exposição nasce de uma ideia amadurecida ao longo do tempo e finalmente realizada em condições que permitiram à artista desenvolver a complexidade espacial e material imaginada para o projeto.
Neste site-specific, são ativados materiais nunca antes presentes no corpo de trabalho de Janaina. À sua reconhecível prática em que o fio se projeta no espaço, em diálogo com a arquitetura, são agora incorporados elementos como galhos, pedras, sal, carvão, água, musgos, fungos e o Verdete, uma espécie de potássio bruto trazido de São Gotardo, Minas Gerais, terra de origem da artista.
Esses elementos constituem um circuito de relações e dependências, em que estrutura, decomposição, nutrição, umidade e transformação se contaminam mutuamente. A instalação se aproxima, assim, de uma lógica viva, na qual cada matéria atua como parte de um metabolismo maior.
No texto curatorial, Marcello Dantas aproxima a exposição da imagem do micélio: “Rede silenciosa que ocupa os interstícios do mundo, ele é capaz de digerir tudo aquilo que a vida produz, transforma e abandona. Fim e começo na mesma trama. O fio que nos enreda antes mesmo que possamos nomeá-lo.”
Pela primeira vez, Janaina realiza a aplicação do algoritmo (-1) diretamente no chão do espaço expositivo, a partir da reapropriação de um trabalho anterior, de 2019, agora em outra lógica construtiva. A instalação ainda convocou todos os fios do ateliê da artista que, em outro momento de Acorda, surgem presos às paredes da galeria.
Ao longo do percurso, o visitante atravessa diferentes situações espaciais e materiais até chegar a uma região central, formada por galhos e tramas que criam uma espécie de ambiente interno, quase um abrigo. Nesse núcleo, um vaso suspenso deixa cair, gota a gota, água sobre um espelho d’água no chão, instaurando uma temporalidade lenta e insistente, ligada à introspecção, à passagem do tempo e à alteração da percepção.
Em torno desse centro, a presença dos diferentes materiais ativa uma ecologia sensível: o que sustenta, o que infiltra, o que mineraliza, o que apodrece, o que germina. Em Acorda, essa investigação se desloca da imagem para a matéria viva: a artista passa a se relacionar diretamente com organismos em contínua transformação. Um fluxo contínuo que atravessa matéria, tempo e percepção. A transformação como parte constitutiva da própria obra. Um campo em que decomposição, regeneração e interdependência se articulam numa mesma trama.

