Veterano de mais de quatro décadas de trajetória, Miguel Penha Chiquitano apresenta na Zipper Galeria um capítulo que prolonga a série "Dentro da Mata", eixo central de sua produção, e reafirma a floresta como sua matéria primeira.
"Água da Mata" marca a primeira individual de Miguel Penha Chiquitano na Zipper Galeria e reúne, sob curadoria de Josué Mattos, um conjunto de pinturas recentes em que a observação contínua da floresta se converte em imagem densa de memória e permanência. Nascido em Cuiabá em 1960, o artista cresceu às margens do Rio Cuiabá, sob o ritmo da pesca e da caça, em contato precoce com a vegetação que viria a ocupar o centro de toda a sua produção. Filho de mãe Bororo e de pai Chiquitano, carrega na própria origem as violências históricas dirigidas aos povos a que pertence, de modo que sua trajetória se confunde com a sobrevivência de uma herança ameaçada.
Ainda criança, percorria a mata ao lado do pai e guardava na lembrança as formas das plantas, aprendendo a reconhecer a presença sagrada da floresta antes mesmo de nomeá-la. Essa atenção dirigida aos sons e às texturas, que revelam suas dimensões espirituais, antecede em Chiquitano qualquer formação artística. Mais tarde, na crença de que assim estaria protegido, foi entregue por seus pais à guarda de um casal no Distrito Federal, que o criou até o início da vida adulta. Ao retornar ao convívio de seu povo, viveu uma longa experiência em territórios indígenas Xavante e, no Tocantins, junto ao povo Krahô, do tronco Jê.
Desterrado e sem comunidade, tendo testemunhado o desaparecimento de muitos dos seus, instalou-se na Aldeia Velha, na Chapada dos Guimarães, no exato lugar onde sua mãe vivera a primeira infância, antes que o avanço dos latifúndios impusesse suas ameaças.
Desde a década de 1990, mantém ali um ateliê de prática silenciosa e constante, de onde observa o Cerrado e o Pantanal, assim como áreas da Amazônia mato-grossense. É dessa escuta prolongada que nascem suas telas, em que a floresta opera como linguagem viva, um organismo que respira e guarda memória. As paisagens, de grandes dimensões, dispensam a figura humana e a ação narrativa, de modo que todo o protagonismo recai sobre a densidade da mata. Construídas por sobreposições cromáticas de óleo e acrílica, acrescidas de cera de carnaúba e de pigmentos naturais, as superfícies fazem da trama das raízes e do curso das seivas signos de um território em risco.
A pesquisa de cor distingue o trabalho pela alta experimentação, à medida que o artista nunca recorre à tinta preta e extrai seus tons escuros da mistura do vermelho com o verde ou do acréscimo de azuis. Daí decorre o protagonismo do azul na paleta, que traz para a superfície a umidade das florestas tropicais. Nesse percurso, "Água da Mata" dá continuidade ao próprio movimento de vida do artista e à sua aguçada capacidade de perceber as formas de existência que o calor e a umidade do solo fazem emergir. O recorte reúne trabalhos recentes, resultado de mais de duas décadas de prática desenvolvida à margem do circuito de arte. Em formatos que convidam o corpo a se aproximar da superfície e dela se afastar, as pinturas condensam a ideia de que permanecer vivo e em estado de contemplação ativa constitui um gesto ao mesmo tempo sagrado e político.
Com a força das águas que descem pelos rochedos e caem em temporais sobre veredas e áreas devastadas, a exposição compreende esse estado contemplativo como prática de transformação, capaz de irrigar regiões desertificadas da mente e instaurar um campo fértil em que comunidades e natureza voltem a coexistir em reciprocidade.

