No meu corpo e na paisagem, o que resta é o pó: Henrique Detomi

8 Agosto - 19 Setembro 2026

Há um buraco no centro da pintura de Henrique Detomi. É por ele que a obra começa, pela terra aberta e por aquilo que falta. Nascido em Belo Horizonte e criado em Lagoa Santa, no interior de Minas Gerais, o artista faz da caminhada o primeiro gesto de sua obra. Percorrer a paisagem é o modo como ele a conhece, e é dessa experiência a pé que nascem os trabalhos reunidos em No meu corpo e na paisagem, o que resta é o pó, primeira individual do artista em São Paulo, com curadoria de Allan Yzumizawa.

 

O buraco aparece primeiro desenhado. Em Vertigem, série iniciada em 2020, Detomi trabalha a cavidade da terra em carvão sobre papel e, no grande formato, em bastão de óleo sobre tecido. O buraco surge solto sobre a superfície lisa do suporte, marcado apenas pela sombra da profundidade. Dessa suspensão nasce a vertigem que dá nome à série, a instabilidade de quem se mantém na borda de uma profundidade que não se deixa apreender por inteiro. É a forma mais direta desse vazio que retorna ao longo da exposição, e é também onde o desenho comparece com peso próprio.

 

A paisagem de Minas entra depois pela própria matéria. Diante de um estado marcado pela mineração, Detomi pinta o terreno e procura compreender o que a extração faz com a terra. Em Extravio ou do Ouro ao Pó, série de 2025, o cimento e a pedra se tornam suporte da pintura, preparados com gesso acrílico transparente, e a montanha passa a carregar na superfície a marca daquilo que foi retirado do solo. O ouro que dá nome à série termina em pó, e é esse resíduo que o título da exposição recolhe.

 

O vazio reaparece na própria pintura, onde a falta se torna assunto. Em Minutos Antes do Fim, parte da tela permanece sem tinta: são áreas reservadas com máscaras adesivas que, retiradas ao final, deixam à vista a superfície nua do suporte. Esses recortes ora têm a forma da montanha, ora se fecham no ângulo reto de um muro, e instalam na paisagem a percepção de que algo ali não está mais inteiro. Em A Falta do Céu, de 2024, a paisagem aparece sem o céu, sobre um suporte inteiramente branco, e essa recusa a pintar o alto da imagem faz ver a perda da própria paisagem. A falta que Detomi pinta é a do território esvaziado pela extração, e é também a nossa, a sensação de que alguma coisa se perde. O título Minutos Antes do Fim guarda essa urgência, a de estar diante do provável fim de algo.

 

A pesquisa desce então para dentro da terra. Em Imerso até os Olhos, Escuto o Silêncio da Terra, de 2025, a convivência com grutas conduz o artista a superfícies de tinta espessa, quase geológicas. A pintura se aproxima da matéria da rocha e pede um olhar que também é tato: ver a obra é percorrer a sua textura.

 

Da montanha extraída ao silêncio da caverna, a exposição acompanha um mesmo movimento. A paisagem se faz registro do que acontece com a terra, e cada trabalho guarda a memória de um percurso feito pelo corpo. O que resta desse trajeto é o pó, aquilo que sobra da montanha e também de quem a percorreu. Diante das obras, o público é convidado a se deter sobre uma ausência e a considerar o futuro do território que elas carregam.