O Vaso de Ojuara: Claudia Marchetti

8 Outubro - 18 Dezembro 2026

A Zipper Galeria apresenta O Vaso de Ojuara, individual de Claudia Marchetti no Zip'Up, com abertura em 8 de outubro. A mostra reúne cerca de doze pinturas em acrílico sobre tela, de pequeno e médio formato, produzidas nos dois últimos anos. É o primeiro conjunto que a artista apresenta ao público em vinte anos. Dedicado a projetos autorais e experimentais, o Zip'Up ocupa a sala do andar superior da galeria.

 

O título nomeia o objeto que abre a história. Ojuara, anagrama do sobrenome Araujo, é a personagem criada pela artista para os livros infantis que escreve e ilustra desde 2024. Menina caiçara de doze anos, ela encontra um vaso de barro com três ovos dentro. Os ovos se quebram e deles saem cobras mágicas, fazendo a personagem tomar consciência das condições de vida de sua comunidade no litoral norte paulista. Para a artista, o vaso remete ao útero, recipiente dos elementos que reaparecem ao longo das telas.

 

A pintura voltou pela via da ficção. No texto crítico da exposição, Paula Alzugaray registra que "antes de ser verbo, Ojuara apareceu para Claudia como imagem", e identifica na trajetória uma cronologia incomum, em que "é a obra que antecipa a vida". A personagem deixou de funcionar apenas como heterônimo e passou a alimentar a biografia da autora. A exposição é assinada por Claudia Marchetti, e as obras levam a assinatura Ojuara, persona pela qual a artista pinta desde a retomada. "É através da perspectiva dessa menina que eu trabalho", diz.

 

A artista frequenta o litoral norte de São Paulo desde a infância. Os livros de Ojuara tratam dos efeitos da crise ambiental e da especulação imobiliária sobre a população local, em especial os moradores das áreas de risco, mais vulneráveis a esses processos e descendentes da cultura caiçara e também das matrizes indígena e quilombola. Foi essa escrita que disparou a nova produção pictórica, cujas telas partem da mesma paisagem, atingida em fevereiro de 2023 pelo maior volume de chuva já registrado no país em 24 horas. Em Mar de lama (2026), as montanhas escorrem. A tela trata dos deslizamentos daquele verão, episódio que também deu origem ao segundo livro da série. Rede de Peixe (2026) traz a pesca, principal atividade de sustento da comunidade de Ojuara, e desenha a rede como uma linha em ziguezague que liga ilhas e peixes.

 

Na série Chorar sobre o leite derramado (2026), telas de tamanhos diversos se acoplam na parede e compõem uma narrativa modular, que Alzugaray descreve como "uma estética da montagem". O uso restrito do azul-turquesa e do vermelho, somado ao branco, dá unidade a essas pinturas.

 

A figuração ingênua e esquemática liga a nova fase à pintura que Claudia fazia há vinte anos. Em Serpente Vermelha (2026), uma árvore genealógica de peixes aparece emoldurada por arbustos diante de uma paisagem marinha, com uma cobra que serpenteia no céu. Em Memórias Arqueológicas (2025), os jarros reaparecem em cerâmica indígena e porcelana chinesa. Alzugaray compara o percurso da exposição a um Ouroboros que retorna ao ponto de partida, aos recipientes que são "as barrigas e os úteros de onde mais e mais sementes de florestas e de ficções vão continuar jorrando".

 

A produção se articula a um projeto social que a artista mantém no litoral norte, a Casa de Ojuara, pelo qual distribui gratuitamente exemplares dos livros em escolas públicas e organizações não governamentais. Parte da venda das obras será destinada às ações sociais do Instituto Verdescola, organização sediada em Barra do Sahy, São Sebastião, onde Claudia dá aulas de pintura. No espaço da mostra, um vídeo apresenta o trabalho do instituto, e os livros ficam disponíveis para leitura.

 


 

Claudia Marchetti (São Paulo, 1966) vive em São Paulo e mantém ateliê em Camburizinho, São Sebastião, no litoral norte paulista. Graduou-se em Artes Plásticas pela FAAP em 1989 e concluiu o mestrado no Goldsmiths College, Universidade de Londres, em 1992. Realizou individuais na Galeria André Millan (1996) e no Espaço Cultural Albert Einstein (1997), em São Paulo. Em 2000, expôs na Museum Art Gallery, em San Juan Capistrano (EUA). Participou de mostras paralelas a três edições da Bienal Internacional de São Paulo. Em 2024 publicou OJUARA – A Lenda da Menina Cobra, primeiro título de uma trilogia. O segundo volume, OJUARA – A Chuva na Mata Atlântica, saiu em 2026 pela ArteEdições em coedição com o selo Celeste, de Paula Alzugaray. O terceiro está previsto para 2027.