
Recém-representado pela Zipper Galeria, o artista Miguel Penha Chiquitano será o destaque do estande da galeria nesta edição da SP-Arte Rotas, que acontece entre os dias 27 e 31 de agosto de 2025, no espaço ARCA, em São Paulo. Com mais de quatro décadas de trajetória artística, Miguel traz para a feira a força de suas pinturas de paisagens, nas quais os protagonistas são as árvores, seus movimentos, sua diversidade, sua ordem e sua beleza.
Confira a seguir um pouco mais sobre suas obras e trajetória.
Conteúdo do artigo:
Da beira do rio ao centro do circuito urbano de arte contemporânea
O curso de vida que trouxe Miguel Penha Chiquitano até sua produção atual foi marcado por deslocamentos bruscos, mas também por raízes fortes que prevaleceram sobre as diásporas. Filho de agricultor Chiquitano que fugiu da convocação da Guerra do Chaco na Bolívia e mãe Bororo, nasceu em 1961 e passou a primeira infância na beira do Rio Cuiabá, envolto no ritmo da pesca, da caça e da liberdade que só a natureza oferece. Até que, aos nove anos, foi entregue para adoção, na esperança de que em outra família, em Goiânia, pudesse ter a chance de aprender a ler, escrever e receber uma educação formal. Em sua nova rotina urbana na capital de Goiás, e mais tarde em São Paulo, o artista conheceu o contrário daquilo que lhe era familiar até então: o enclausuramento dos apartamentos, a dureza da cidade e a ausência da mata. E foi dessa saudade da floresta, cultivada no peito durante toda sua adolescência, que veio a semente de sua pintura atual.
Em 1980, aos 19 anos, mudou-se para Brasília com o pai adotivo, que trabalhava com leilões de arte e antiguidades. Lá, começou a desenhar com mais frequência com nanquim e lápis de cor, e seu pai, inclusive, chegou a leiloar alguns de seus trabalhos.
Em 1984, mais uma mudança decisiva, desta vez de volta ao Mato Grosso, para a Chapada dos Guimarães, onde vive até hoje. Entre montanhas, vegetação cerrada e paisagens imensas, Miguel reencontrou o sopro de liberdade que a infância lhe havia ensinado.
Nos últimos anos, a produção de Chiquitano ganhou projeção no circuito da arte contemporânea nacional e internacional. Ele participou de eventos de grande relevância, como o 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, em 2017, e a primeira Bienal das Amazônias, em 2023. No mesmo ano, suas obras também atraíram atenção do público estadunidense com vendas na Untitled Art Fair Miami. Essa curva de ascensão não pode ser narrada sem mencionar o nome de Fabiola Henri Mesquita, produtora e parceira de vida e de trabalho, cuja atuação foi decisiva para consolidar sua carreira. Fabiola foi quem articulou e viabilizou as primeiras circulações de suas obras pelo mundo.
Técnica e poética
Autodidata, Chiquitano desenvolveu uma pintura de alta experimentação cromática. Nunca utiliza e nem compra tinta preta. Seus tons escuros surgem da mistura entre vermelho e verde ou do acréscimo de azuis – cor que, em sua paleta, assume protagonismo e traz a umidade das florestas deste país tropical.
Em 2022, durante uma viagem a Madrid, teve contato com pinturas de Joaquín Sorolla, que trabalhava óleo sobre papel. A descoberta o inspirou a experimentar com o papelão, material que já usava de forma improvisada como godê para misturar suas tintas. Ao reunir várias dessas plaquinhas, carregadas de resíduos cromáticos de trabalhos anteriores, criou “Samaúma” (2024), uma ampla pintura que continha em suas camadas a memória física de seu próprio processo artístico.
Miguel Penha Chiquitano - Samaúma, 2024 - Óleo sobre recortes de papelão sobre tela - 190 x 125 cm
Miguel não pinta diretamente na mata. Ele a observa, a fotografa, recolhe impressões e depois recria no ateliê aquilo que a memória e o sentimento lhe devolvem. O resultado são paisagens que partem da ideia de retrato, mas são filtradas por sua experiência sensível. A intenção está em envolver o espectador, conseguir transmitir essa experiência sensorial e, quem sabe, até espiritual. Como o próprio artista disse em entrevista: “Eu espero que minha arte sirva para fazer as pessoas olharem mais para a natureza no sentido de trazer equilíbrio para elas mesmas.” Pode-se dizer, portanto, que suas obras são incitações de reconciliação entre homem e natureza. Não à toa, suas telas costumam ter grandes dimensões, afinal, expandindo o campo pictórico, aumenta-se a capacidade da obra de envolver o corpo inteiro de quem a observa. A escala ampliada nos faz sentir diante de um fragmento real dos biomas do centro-oeste.
Trazendo a floresta para a tela, Chiquitano afirma sua origem e sua ancestralidade e nos convida a adentrar a mata, respirar sua densidade, sentir seu silêncio e entregar-se à sua aura espiritual.
Presença (e ausências) na SP-Arte Rotas 2025
Miguel Penha Chiquitano participa pela primeira vez da feira SP–Arte Rotas com a Zipper Galeria, que apresenta o estande sob o título “A forma da ausência”. A seleção reúne nove artistas que exploram o vazio como elemento estruturante. À primeira vista, suas paisagens poderiam destoar desse conceito por se apresentarem exuberantes, repletas de camadas e elementos. Porém, numa observação um pouco mais atenta, percebe-se que não há seres humanos, não há animais, não há ação narrativa explícita. O protagonismo é das árvores e da própria densidade da mata.
Confira essa produção sensível de perto, visitando o estande D3 na SP-Arte Rotas.
Serviço:
SP-Arte Rotas 2025
Zipper Galeria – Estande D3
Local: ARCA
Endereço: Av. Manuel Bandeira, 360 - Vila Leopoldina, São Paulo - SP
Horários:
27 de agosto: convidados
28 de agosto: 13h às 20h
29 e 30 de agosto: 12h às 20h
31 de agosto: 12h às 19h
Ingresso:
R$50 – R$100