Antes de ocupar as paredes de museus e galerias, o universo de OSGEMEOS nasceu do ritmo urbano com o impacto visual do grafite, a cadência do hip-hop e da urgência criativa que definiu a São Paulo dos anos 1980. Ao longo das décadas, esse imaginário transcendeu o espaço urbano, ganhando autonomia e indissociando fantasia e realidade.
A obra “Pescador de Ilusões” (2006) marca um momento relevante na carreira dos artistas, quando a dupla passa a ganhar mais notoriedade no mercado de arte brasileiro para além das ruas.

Imersos na cultura hip-hop que chegou ao Brasil nos anos 1980, período em que a dupla iniciou sua produção, Gustavo e Otávio Pandolfo desenvolveram uma linguagem que acabou se tornando um emblema dos espaços urbanos pelo Brasil e pelo mundo. O que nasceu nas ruas de São Paulo tornou-se, ao longo dos anos 2000, algo reconhecível internacionalmente: personagens de pele amarela, ambientes oníricos e narrativas cotidianas em tons fantásticos.
“Pescador de Ilusões”, criada no auge de 2006, integrou no mesmo ano a exposição “O peixe que comia estrelas cadentes”, na Galeria Fortes Vilaça, a primeira individual dos artistas no Brasil após sete anos de projeção no exterior.
Desde a década de 1990, suas experimentações ultrapassaram a bidimensionalidade, expandindo o grafite para construções espaciais na intenção de dar vida ao universo de “Tritrez”, concebido na infância pelos irmãos. Na obra em questão, apesar do apelo pictórico, não é diferente: OSGEMEOS fazem uso da técnica mista, incorporando objetos, volumes e texturas que deslocam a obra do campo estritamente da imagem e preservam a experiência tátil e imprevisível dos muros.

Na composição, o pescador sustenta sobre os ombros uma vara da qual pendem peixes e um menino. O ser humano “pescado” ao lado dos peixes confessa que, no território das ilusões, somos também objeto de captura, presas de nossos próprios anseios. No centro da tela o coração exposto indica que esse processo é sentimental. Pescar ilusões implica vulnerabilidade afetiva.
Embora o personagem esteja com os pés no chão, o fundo azul da cor do mar o situa no ambiente onde pesca, submerso em seu estado de espírito.
Como de costume na produção da dupla, a riqueza de detalhes no desenho das roupas mais uma vez se faz presente. A atenção às peças têxteis pode ser lida à luz de sua formação familiar, visto que a mãe bordadeira pode ter inspirado o apego ao trabalho manual e ao vestuário, que dão identidade aos personagens dos artistas.

Na parte superior, bolinhas de gude iluminadas materializam as “ilusões” do título. Elas brilham, mudam de cor e emanam da mente do personagem. O contraste se dá na base da obra, entre as esferas de argila expandida, opacas e acumuladas em uma caixa, que sugerem o destino final dessas mesmas ilusões. Quando o brilho se dissipa, resta o sedimento da experiência. A dicotomia entre brilho e opacidade, deslumbre e ilusão, encantamento e indiferença, estruturam a poética da obra.

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