Entrelaçar o mundo: a trança de chumbo de Tunga e seus símbolos

Por meio de uma trança de chumbo de cinco metros, Tunga revela símbolos ligados à alquimia, ao corpo e às formas ancestrais que atravessam sua produção.
Março 31, 2026
Entrelaçar o mundo: a trança de chumbo de Tunga e seus símbolos

Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga (1952–2016), foi um dos nomes mais influentes da arte contemporânea brasileira. Seus trabalhos atravessam escultura, instalação, performance e desenho, enraizados em saberes ligados à alquimia, à psicanálise e à literatura. Tunga trabalhava com materiais, formas e gestos como signos que se repetiram ao longo de toda sua produção.


Entre esses elementos recorrentes, a trança foi um dos grandes ícones. A obra “Sem título” (déc. de 1980), do acervo de mercado secundário da Zipper Galeria, apesar de sua forma tão elementar – composta por uma trança de chumbo com cerca de cinco metros de comprimento – sintetiza muitos dos princípios que estruturam o pensamento do artista. 


Conheça cinco eixos conceituais para compreender a obra em questão.

Conteúdo do artigo:


 

 

 

1. O três e a unidade: a trança como forma primordial

A trança é uma das formas mais antigas produzidas pelo ser humano. Ela nasce do entrelaçamento de três partes que, ao se cruzarem repetidamente, tornam-se uma só. Essa transformação do múltiplo em unidade, especialmente de tríades, aparece em diversos trabalhos de Tunga de modo insistente: três fios, três eixos, três esferas, três redes, entre outros. E na trança de chumbo, o princípio se dá de forma literal.


O próprio artista comentava a força simbólica dessa estrutura, lembrando que a trança está presente desde o início da civilização e atravessa diversas cosmologias, especialmente na cultura ocidental, na crença na Santíssima Trindade, por exemplo. 



Tunga, Tríade Trindade, 2001, na Pinacoteca de São Paulo. Foto: Isabella Matheus


“Uma das primeiras coisas que o homem fez foram tranças. E a trança é uma coisa tão misteriosa. É uma coisa tão simples: transformar 3 em 1.” – Tunga

 

 

2. O chumbo e a alquimia: matéria em transmutação


Tunga, sem título, 1999. Foto: Daniel Mansur/Inhotim


A alquimia é uma das fontes mais importantes do imaginário de Tunga, sobretudo como método de pensamento. Em muitos trabalhos, o artista utiliza materiais tradicionalmente associados a essas práticas protocientíficas, como cobre, chumbo, prata, ouro, ferro, enxofre, explorando o significado histórico e espiritual que cada um carrega.


Do ponto de vista dos alquímicos, apesar do chumbo ocupar o ponto mais baixo da hierarquia dos metais, ele poderia ser transmutado, ou purificado até sua essência: o ouro. À título de curiosidade: recentemente um grupo de físicos comprovaram  cientificamente que a transformação do chumbo em ouro é possível através da física nuclear, afinal a identidade de um elemento é definida pelo número de prótons em seu núcleo (o chumbo possui 82 e o ouro 79). Para realizar essa transmutação, os pesquisadores utilizam aceleradores de partículas para bombardear o núcleo do chumbo com energia extrema, eliminando os 3 prótons excedentes e alterando a estrutura atômica do metal. No entanto, o custo de energia para operar essas máquinas ainda é vastamente superior ao valor do ouro produzido e as quantidades resultantes são microscópicas e muitas vezes radioativas, inviabilizando a possibilidade de popularização do procedimento. 


Mas distante de qualquer pretensão econômica, para os alquimistas a transmutação de um metal em outro diz respeito à evolução do ser. Pesado, opaco e escuro, o chumbo representa o estado bruto da matéria e da alma. Já o ouro simboliza a perfeição, a iluminação e a consciência plena. 

 

 

 

3. A serpente: transformação, ciclo e renascimento

Dispostas no chão, as tranças de metal do artista frequentemente se assemelham a serpentes. Mas para além das semelhanças formais e físicas, o animal em questão também é um símbolo recorrente em diferentes culturas, devido às suas trocas de pele e às qualidades curativas e mortais de seu veneno – e na alquimia não é diferente.


A serpente é o animal alquímico por excelência porque ela se renova: ela troca de pele, morre para uma forma e nasce para outra. Ela também está associada à ideia de energia que circula, à continuidade e à regeneração. Não à toa, ela compõe o símbolo do ouroboros (a serpente que morde a própria cauda), que representa o eterno retorno.



Tunga, A Vanguarda Viperina, 1985

 

 

4. O corpo: vestígio sem figura

Apesar de não apresentar nenhuma figura humana, a trança evoca a ideia de corpo na sua ausência. Onde está a cabeça desses cabelos? Quem a trançou? A presença fantasmática do humano também é característica da obra do artista. 



Tunga, Xifópagas Capilares Entre Nós, 1987


E quando o assunto são as tranças de Tunga, é quase impossível não lembrar de uma de suas obras mais emblemáticas: as Xifópagas Capilares. Na década de 1980, ele criou o mito sobre duas irmãs gêmeas idênticas, que nasceram ligadas por uma trança de cabelo. Duas meninas dependentes, impossibilitadas de se separar sem desfazer o entrelaçamento. 


Nesse caso, a escultura de chumbo no chão poderia ser um vestígio da história das irmãs.

 

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