Rotina de artista com Rodrigo Braga

O artista conta como a desaceleração, o cultivo da imagem e a imersão na natureza são as engrenagens de uma criatividade que resiste à anestesia do tempo moderno
April 2, 2026
Rotina de artista com Rodrigo Braga

Nessa nova série editorial, convidamos artistas da Zipper Galeria a dividirem conosco os bastidores que mantêm suas rotinas criativas. Hoje, Rodrigo Braga, nos conta sobre seus processos de criação que envolvem o contato com a mata, equilibrado com os tempos em ateliês fechados, nos ensinando que, às vezes, é preciso passar um mês sentindo a terra para que, em um segundo, a imagem possa finalmente florescer.



Vista da exposição "Um presente para o futuro", individual de Rodrigo Braga na Zipper Galeria

 

 

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Uma rotina sem rotina 

É muito comum nos dias de hoje a ideia de que a vida criativa, e até a vida bem-sucedida de modo geral, depende de uma rotina regrada, bastante rígida, que otimize o máximo de horas em prol do aumento do nível de produtividade. Em contraponto a esse modelo, a prática de Rodrigo Braga busca sincronizar o tempo do seu corpo com o dos ciclos da natureza. Seu ateliê não necessariamente tem paredes e sua rotina não tem regularidade. Seus processos de criação se desenrolam no contato com a paisagem: ao longo de sua trajetória, especialmente por trabalhar com fotografia em ambientes naturais, tornou-se comum passar semanas, às vezes até meses, imerso na floresta. Nas suas palavras, estar em campo significa se impregnar do ambiente.


Durante essas imersões, o artista conversa com outras pessoas da região, anota frases ouvidas e pensamentos repentinos. Faz croquis, esboça suas fabulações. Todas as suas fotografias são precedidas por um desenho. O que chega à câmera é uma verdade não manipulável. Não há o artifício do pós-processamento digital para criar o que não estava lá; existe apenas a manipulação da matéria (água, terra, carvão) até que a imagem esteja pronta para ser colhida pela luz. “Eu sou um fotógrafo agricultor”, metaforiza. “Há fotógrafos-caçadores, que apontam a câmera como um rifle. Eu cultivo imagens.”

 

 

Criatividade provocada no deslocamento 

A necessidade de se deslocar de ambiente está ligada à própria origem de sua relação com o mundo. Braga nasceu em Manaus e foi criado em Recife, e embora não tenha crescido dentro da floresta amazônica, esteve desde cedo cercado por uma família de biólogos e ambientalistas, que o mantiveram em contato com a natureza e com pautas em torno de sua preservação.


O ingresso na carreira como artista também aconteceu de forma orgânica. Tendo síndrome do pânico ainda jovem, o desenho e a pintura funcionavam como uma forma de organizar seu mundo interior. Aos quinze anos já pintava com intensidade, e entrou na faculdade com uma base técnica e sensível bastante formada. A ideia de se tornar artista, portanto, apareceu como um caminho inevitável que foi se consolidando de forma muito natural ao longo da vida.


Hoje, morando na França, evidentemente seu processo criativo também fica dependente do clima. O inverno prolongado limita a permanência ao ar livre e interfere no ritmo de produção. Nesse caso, dedica tempo em ateliê. Mas segundo ele, quando percebe um bloqueio criativo ou estagnação, o melhor remédio é poder colocar-se novamente em campo, mudar de paisagem e provocar a própria criatividade, que muitas vezes ascende quando o corpo é deslocado, quando o artista se expõe a situações que não controla completamente. 

 

Vista da exposição "Um presente para o futuro", individual de Rodrigo Braga na Zipper Galeria

 

 

O start para uma nova fase na sua produção

Na sua mais recente exposição “Um presente para o futuro” (2026), na Zipper Galeria, percebe-se uma inflexão importante dentro de um processo que, até então, vinha sendo marcado sobretudo pela experiência em campo. Embora as fotografias continuem presentes e mantenham a relação direta com a paisagem, com o corpo e com ações realizadas na natureza, nessa produção o artista retoma a prática pictórica do início de sua carreira. 


O modo como essas obras são apresentadas também chama atenção. Em vez de telas montadas sobre chassis, estão suspensas na parede, presas por galhos, como bandeirolas. Os ramos das árvores como suporte mantêm a presença física da natureza mesmo dentro da galeria, aproximando essas obras do universo das ações realizadas em campo.


A obra de um artista que se deixa impregnar pelo mundo inevitavelmente reflete as feridas dele. A investigação apresentada na ocasião é um desdobramento de uma virada de chave em 2018, quando sua paleta de cores, até então tão verdejantes, se transforma, ganhando também tons mais escuros e fechados. As paisagens tornam-se mais áridas, surgem o carvão, a vegetação seca, o fogo, o sangue. O artista associa essa mudança ao contexto político e ambiental do Brasil naquele período, marcado pela ascensão da extrema direita e pelo agravamento das ameaças ao meio ambiente. 


Entre os diversos elementos simbólicos, o ovo tem um destaque especial, sendo evocado na maioria das composições expostas. Associado ao nascimento e à potência da vida, aqui ele surge frequentemente em situações de risco: segurado por mãos em chamas, apoiado sobre o solo árido, colocado ao lado de objetos queimados ou envolvido em contextos que sugerem tensão. Ele indica fragilidade de algo que ainda pode existir, mas que depende de cuidado para não se perder. Braga nesses trabalhos fala da esperança de um mundo melhor. É um trabalho que confronta a finitude, servindo como um espelho de um tempo que queima, mas que ainda busca, na arte, um solo onde se possa florescer. 

 

 

 

Conselho de artista para uma vida criativa 

Para manter o fluxo criativo em um mundo saturado de informações, seu conselho está ligado à maneira de perceber o mundo. Braga fala sobre a importância de reaprender a ver, dar tempo ao olhar. Também alerta para o risco de anestesia provocado pelo excesso de informação, especialmente pelas notícias. Segundo ele, é fácil se acostumar a ver tragédias, conflitos e destruições todos os dias até que nada mais nos afete. “Busquem se sensibilizar. Se a arte tem um papel no mundo é o de manter as pessoas sensíveis nele.”, sintetiza. 

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