O provérbio que dá nome à exposição enuncia um impasse em que toda saída conduz ao perigo, o dilema de quem corre e é apanhado, de quem fica e é devorado. Gunga Guerra conhece essa condição desde os primeiros anos, quando a guerra o obrigou a deixar Moçambique. Nascido em Maputo em 1970, passou por Portugal às vésperas da Revolução dos Cravos antes de fixar residência no Brasil sob a ditadura militar, percurso que lhe deixou a impressão duradoura de "estar deslocado ou em deslocamento". Dessa experiência nasce uma obra que faz do impasse o seu núcleo, e os bichos do ditado popular comparecem também como presença literal em sua produção.
Para nomear o que resiste à enunciação direta, o artista recorre a animais e brinquedos investidos de emoção humana, repertório que vem da própria infância e que funciona como alegoria da opressão e da perda de território, questão à qual se soma a procura por identidade. A figuração se vale do vocabulário da cultura pop e das imagens de noticiário, ao passo que a tinta acrílica recobre tanto a tela quanto a madeira dos trípticos e chega a ocupar a superfície curva de uma antena parabólica em "Drones do Amor".
Em "Dano Colateral" (2025), a composição retoma o formato dos retábulos portáteis, e o painel central, tomado por uma explosão, partilha o espaço devocional com suas laterais, que registram civis em meio aos escombros. Em outras pinturas, a tropa de choque divide a cena com criaturas do universo infantil, como em "O Unicórnio" (2023), em que a boia inflável esticada pelos agentes converte a promessa de salvamento num gesto ameaçado, ou em "Mico" (2019), no qual o policial marcha com um macaco de pelúcia na mão. O confronto ganha escala animal quando rinocerontes avançam contra o bloqueio em "Enfurecidos #1" (2017) ou quando uma manada irrompe na estação de metrô de "Um dia comum" (2018).
Ao reunir esses episódios, a mostra se oferece como inventário das tensões que o artista reconhece em si. Herdeiro de três fronteiras imaginárias que partilham um mesmo idioma, ainda que de sotaques distintos, Moçambique, Portugal e Brasil, e onde os laços culturais convivem com fundos abismos sociais, Gunga Guerra faz da pintura um modo de reinventar a própria identidade. Resta a quem visita o desconforto de reconhecer, sob a aparência lúdica dos bichos e dos brinquedos, a violência que organiza o presente.

