A Zipper Galeria apresenta "Tudo que inventei aconteceu", nova individual de Flávia Junqueira, com abertura em 8 de agosto de 2026, em São Paulo. A mostra reúne um conjunto inédito de fotografias produzidas ao longo de um mês em Nova York, no início de 2026, em um projeto viabilizado pela parceria das duas galerias que representam a artista, a Zipper, no Brasil, e a Unix Gallery, em Nova York. Realizado majoritariamente em espaços públicos da cidade, o trabalho desloca a fotografia encenada de Junqueira para fora do estúdio e para dentro de alguns dos lugares mais reconhecíveis do imaginário nova-iorquino. A exposição conta com texto crítico de Gisela Gueiras.
A novidade do projeto está no método. Depois de quase duas décadas construindo cenas sob controle, a artista trabalhou na rua, sem estúdio, o que exigiu que os materiais viajassem com ela e que os balões fossem cheios no próprio local, na espera da luz e sob aquilo que não se controla, do clima aos limites de uma produção pequena. Junqueira fotografou de madrugada, à espera do amanhecer que esvazia as ruas, um modo de limpar o palco e construir o vazio teatral que sempre habitou sua obra, agora imposto sobre a cidade real. Em vez de esconder essa negociação, ela a assume dentro da imagem, e alguns trabalhos deixam à vista os tripés e o cilindro de gás hélio. A máquina da ilusão entra em cena, e as coxias do teatro aparecem para tornar transparente o encanto.
O título condensa os sentidos que a artista prefere manter convivendo, porque inventar significa ao mesmo tempo mentir, encenando a cena que a realidade não deu, e criar, no antigo sentido de fazer nascer aquilo que vivia apenas na imaginação. Há ainda um terceiro sentido, o mais afirmativo, segundo o qual talvez nunca tenha havido invenção alguma, já que o mágico e o encantamento estavam ali, latentes, e a artista apenas os tornou visíveis. Na raiz do projeto está uma reflexão sobre o próprio meio, ancorada em uma frase da curadora e historiadora da fotografia Mia Fineman, com a qual Junqueira concorda: "o velho adágio de que a 'câmera nunca mente' foi sempre a ficção suprema da fotografia". Presença secreta em toda a mostra, Alice no País das Maravilhas costura essas leituras, porque nela o sonho se realiza e passa a ter regras próprias, escapando das mãos de quem o inventou.
O conjunto percorre um espectro amplo, que vai da afirmação do belo e do onírico até a melancolia da ruína. Numa ponta está o arcade do Bethesda Terrace, no Central Park, cujo teto guarda o único piso do mundo revestido de azulejos encáusticos, peças originalmente feitas para o chão e aqui suspensas de cabeça para baixo, em uma inversão que a arquitetura materializa e que organiza a obra da artista. Aparecem também a escultura de Alice no País das Maravilhas, bronze de 1959 concebido para ser tocado e escalado pelas crianças, e os ícones mais reproduzidos da cidade, a Manhattan Bridge vista do DUMBO, que emoldura ao fundo o Empire State, e a Brooklyn Bridge ao entardecer, imagens em que o trabalho caminha deliberadamente perto do cartão-postal. A bolha de sabão, mais efêmera ainda que o balão, pousa nessas paisagens sem forçá-las.
No díptico feito no carrossel do Bryant Park, não há intervenção cênica alguma, apenas o registro, o que para quem edificou uma obra inteira sobre a encenação equivale a uma confissão. O carrossel já existia, girando de verdade no meio dos arranha-céus, de modo que fotografá-lo sem intervir foi o modo mais transparente de dizer o que o título diz. Apresentado lado a lado, o mesmo brinquedo surge em dois estados opostos, aceso e em movimento durante o dia, apagado e imóvel na noite.
Na outra ponta do espectro estão o deslocamento e a sombra. Na estação Chambers Street, uma das mais antigas de Nova York, inaugurada em 1913 sob o Municipal Building, a artista deposita um cavalo de carrossel no espaço degradado do metrô, de maneira que o encantamento invade a ruína. O mesmo deslocamento reaparece invertido diante de uma casa comum no West Village, e no Freeman Alley, beco do Lower East Side transformado em galeria viva de grafite, os balões encontram outra arte efêmera e popular, a tinta anônima e sobreposta, feita para não durar.
Reunidas, essas fotografias registram um momento em que a imaginação de Flávia Junqueira, depois de tantos anos a construir mundos que não existiam, encontrou o mundo pronto para recebê-los. "Tudo que inventei aconteceu" é, ao mesmo tempo, uma celebração e uma suspensão, um carrossel que segue girando, agora em câmera lenta.

