No início de 2026, Peter Gabriel inaugurou um novo ciclo de lançamentos, desta vez com o projeto o\i, em que cada faixa chega ao público acompanhando o calendário lunar. A primeira música revelada foi “Been Undone”, apresentada na lua cheia de janeiro. E, junto com ela, uma imagem que chamou atenção mundo afora: “Ciclotrama 156 (Palindrome)”, obra da artista brasileira Janaina Mello Landini, representada no Brasil pela Zipper Galeria.
Mais do que um “feat” visual, a escolha de Gabriel reforça um eixo central do projeto: pensar a música em diálogo com a arte contemporânea — como ele já havia feito em i/o (2023) —, agora ampliando o jogo de espelhamentos entre dentro e fora, matéria e percepção, som e imagem.
O que é o\i: música no tempo da lua
No site oficial do artista, Gabriel descreve o\i como um álbum que será “revelado” ao longo de 2026: a cada lua cheia, uma nova canção. Além disso, cada faixa ganha duas interpretações sonoras — Dark-Side e Bright-Side —, com a segunda versão chegando na lua nova.
A lógica dos dois mixes não é apenas um recurso de produção: ela explicita o interesse de Gabriel em trabalhar com variações, perspectivas e camadas — como se a própria obra se reescrevesse conforme a luz muda. Para “Been Undone”, por exemplo, o primeiro lançamento veio como Dark-Side Mix, e a Bright-Side Mix foi disponibilizada na lua nova de janeiro.
Link Apple Music (Been Undone – Dark-Side Mix)
Link Spotify (Been Undone – Dark-Side Mix)
Na lua cheia seguinte, em 1º de fevereiro de 2026, Gabriel lançou “Put the Bucket Down”, segunda faixa do o\i, acompanhada por “Cosmic Spider/Web”, obra de Tomás Saraceno cocriada com 12 aranhas creditadas como autoras.
A capa de “Been Undone”: Ciclotrama 156 (Palindrome)

A imagem que acompanha “Been Undone” é “Ciclotrama 156 (Palindrome)”, pertencente à série Ciclotramas Palíndromo, na qual Janaina trabalha a ideia de recorrência e reversibilidade a partir de estruturas tramadas — um pensamento “em retorno”, que se lê de ida e volta como um palíndromo.
Gabriel comenta que se interessou pelo modo como a artista “move” a corda, deixando-a se desdobrar e se desfazer, abrindo caminhos de leitura: a forma pode lembrar fractais, troncos, redes — e até padrões cerebrais. É um ponto de contato direto com a própria ideia da canção: “desfazer-se” não como colapso puro, mas como processo, aprendizado, reorganização.
Há um dado especialmente importante para este encontro: segundo o próprio Gabriel, a imagem usada neste primeiro lançamento é uma obra já existente — e, a partir do diálogo iniciado agora, Janaina também criará uma nova peça especialmente para “Been Undone”.
Quem é Janaina Mello Landini
Janaina Mello Landini (São Gotardo, MG, 1974) vive e trabalha em São Paulo. Sua prática nasce do encontro entre procedimentos manuais e pensamento estrutural: a artista mobiliza repertórios da arquitetura, da física e da matemática para construir imagens e ambientes em que a linha deixa de ser apenas desenho e passa a operar como matéria, tensão e percurso.
Na Zipper Galeria, Janaina mantém uma trajetória de longo curso, com sucessivas exposições individuais ao longo da última década. Em “Bosque Neural” (2024), a artista aprofundou um diálogo entre arte e neurociência, partindo das pesquisas de Santiago Ramón y Cajal para pensar as conexões invisíveis entre o cérebro humano e a natureza. Já em “Espaço Preso” (2022), sua quarta individual na galeria, a exposição foi descrita como a criação de um “novo espaço” dentro da arquitetura existente, induzindo outras relações materiais e imateriais com o público.
Esse histórico ajuda a dimensionar o alcance do encontro com Peter Gabriel: ao escolher “Ciclotrama 156 (Palindrome)” como imagem de capa do primeiro lançamento do projeto o\i, o músico reconhece, em escala global, uma poética que tem no fio — e no seu “desfazer-se” — um modo de pensar tempo, forma e experiência. E, para a Zipper, este momento também aponta para o que vem adiante: em março de 2026, a galeria inaugura a nova exposição individual de Janaina Mello Landini, dando continuidade a esse percurso e apresentando ao público um novo capítulo de sua pesquisa.


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