Jessica Costa e Laura Villarosa no Farol Santander

Artistas da Zipper apresentam obras em exposição coletiva de Denise Mattar
Setembro 19, 2026
Jessica Costa e Laura Villarosa no Farol Santander

Tecer significa unir elementos distintos sem eliminar suas diferenças. Cada fio mantém sua individualidade, mas somente adquire sentido quando encontra outros fios. Técnicas têxteis são praticamente a expansão do pensamento humano, talvez por isso que elas antecedem a invenção da escrita ou até mesmo da agricultura. 

 

Foi sobre essa prática ancestral, tão presente ainda na vida contemporânea – tanto para vestuários, quanto para a expressão cultural –, que o Farol Santander escolheu dedicar o tema de sua atual exposição. Sob o título de “Tecituras”, a mostra com curadoria de Denise Mattar traça um panorama sobre a produção têxtil no Brasil, percorrendo as mais diversas linguagens e limites experimentais. 

 

O conjunto intergeracional de artistas reúne desde ícones da história da arte contemporânea, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Leonilson e Mira Schendel, até nomes mais recentes, como é o caso de Jéssica Costa e Laura Villarosa, representadas pela Zipper Galeria. 

 

Conteúdo do artigo:

 


 

Sobre a mostra

No texto curatorial, Denise Mattar narra a evolução dessa linguagem em diferentes tempos históricos. Em alguns períodos e regiões, grandes tapeçarias revestiram palácios, templos e residências aristocráticas. Ao longo do tempo, porém, a consolidação das academias e das hierarquias entre “belas-artes” e “artes aplicadas” deslocou esse e outros fazeres manuais para uma posição periférica na historiografia da arte, associada ao universo doméstico ou às práticas decorativas. Nas últimas décadas, entretanto, a curadora observa o retorno do têxtil às grandes exposições contemporâneas internacionais, como um sintoma do movimento que volta a romper com essas hierarquias entre técnicas no circuito de artes visuais. 

 

“Hoje, o têxtil não precisa mais reivindicar o lugar dele.”
– Denise Mattar

 

Artistas da Zipper Galeria 

Jessica Costa, Sobejos XVIII: Torções, 2025

 

Os trabalhos de Jessica Costa demonstram que o têxtil deixou, há muito, de se constituir apenas como um suporte ou técnica específica. A artista, que utiliza a tufagem manual, amplia as possibilidades da matéria levando-a para o campo tridimensional, em diálogo com a arquitetura. 

 

A obra apresentada na exposição integra a série “Sobejos”, título que refere-se ao que sobra, ao excedente, ao que é superabundante. Na peça, a moldura de madeira, que a princípio delimitaria o campo compositivo, é transbordada pelos volumes de lã natural. As texturas e relevos já seriam intrínsecos ao material e à técnica utilizados, mas a artista, interessada no potencial pictórico do meio, faz uso de degradês de cores para criar a ilusão de ainda mais profundidade. 

 

Laura Villarosa, Passagem #4, 2024

 

Já a pesquisa poética de Laura Villarosa se debruça sobre a experiência sensorial a partir de aspectos da paisagem. Na exposição, a artista ítalo-brasileira apresenta a obra “Passagem #4” (2024), que combina diferentes fios com pinceladas de acrílica e resina. 

 

Seu pensamento, ainda que trabalhando com linhas e tecidos, é sempre pictórico. Entretanto, se numa tela a óleo pode-se construir composições com rápidas pinceladas, o bordado implica uma dilatação no tempo. 

 

Por vezes o processo criativo de Villarosa de fato parte da pintura com tinta e pincel, que depois de feita, é fragmentada em pequenas tiras e reconfiguradas em novas composições, mas sob roupagem têxtil. O resultado são imagens levemente abstraídas, que se aproximam visualmente de vistas aéreas, distantes o bastante para reduzir as figuras a pequenos pontos de cor; ou de cenas observadas através da janela de um transporte terrestre em movimento.

 

Visite a exposição

Tecituras segue em cartaz no Farol Santander até o dia 18 de outubro de 2026. O museu, localizado na Rua João Brícola, 24, no centro de São Paulo, pode ser visitado de terça a domingo, das 09h às 20h.






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