Parte I — Moda é arte: diálogos nos looks do MET Gala 2026

May 12, 2026
Parte I — Moda é arte: diálogos nos looks do MET Gala 2026

A primeira segunda-feira de maio já tem evento fixado no calendário mundial: o MET Gala. O evento de arrecadação de fundos para o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art é a noite mais glamorosa do ano em Nova York, com celebridades desfilando pelas icônicas escadarias do museu para inaugurar a exposição temática. Em 2026, sob o tema “A Moda é Arte”, o baile apenas torna explícita uma aproximação que já vinha sendo construída há décadas. 

 

A relação entre arte e moda não é recente, tampouco superficial. Parcerias como as de Elsa Schiaparelli com Salvador Dalí, Yves Saint Laurent com Piet Mondrian, ou ainda Louis Vuitton com Yayoi Kusama e Takashi Murakami, mostram como esse diálogo se dá por meio de referências visuais e técnicas que circulam entre os dois campos. Em muitos casos, essas colaborações também respondem a interesses estratégicos de ampliar públicos e reposicionar marcas.

 

Esse trânsito também se faz presente em produções contemporâneas do circuito brasileiro. Artistas representados pela Zipper Galeria, por exemplo, já atravessaram o hibridismo em questão. Janaina Mello Landini integra a exposição “Sculpting the Senses”, em cartaz até dezembro de 2026 no Brooklyn Museum, onde suas obras dialogam com as experimentações escultóricas da alta-costura de Iris van Herpen. Jessica Costa, que chegou a estudar moda antes de migrar para as artes visuais, e cuja prática hoje se desenvolve a partir do têxtil, foi a primeira finalista do Loewe Foundation Craft Prize.

 

No tapete vermelho do MET, os designers encontraram diferentes soluções para o tema, desde citações mais óbvias a reinterpretações de técnicas e conceitos. 

 

Conteúdo do artigo:

  • Vestidos como retratos de um retrato

  • Artistas visuais presentes nas concepções dos looks

  • Klein Blue is the new black

  • O legado de Tom of Finland

 

Vestidos como retratos de um retrato 

Ao longo da história, o gênero do retrato, para além da representação dos indivíduos, também funcionou, de certa maneira, como um registro da moda e costumes de seu tempo, e também como demonstração de virtuosismo técnico de um artista na maneira de traduzir tecidos, texturas e caimentos com perfeição. Nesse sentido, pode-se dizer que nessa edição do MET Gala aconteceu um movimento inverso. 

 

Alguns designers transportaram os vestuários de pinturas clássicas para o corpo das celebridades. Foi o caso das releituras de Madame X de John Singer Sargent, vistas em Claire Foy, Julianne Moore e Lauren Sánchez Bezos, bem como do look Prada de Hunter Schafer, que retomou elementos do retrato de Mäda Primavesi, de Gustav Klimt. Nesses casos, o que antes era pintura de um vestido torna-se novamente vestido, mas agora desvinculado do corpo original e reinscrito em outro contexto.

 

 



Em outros casos, a citação literal referiu-se a elementos orgânicos que se tornaram marcas registradas dos pintores, como no vestido Dior de Alexa Chung, concebido por Jonathan Anderson, que reproduzia as Nenúfares de Claude Monet.

 


 

 

Artistas visuais presentes nas concepções dos looks

 

Uma outra leitura do tema passou pela ideia do tecido como superfície pictórica, borrando a linha que delimita até onde vai o gesto do estilista e onde começa o do artista visual.

 

O deslumbrante vestido de Anne Hathaway, da Michael Kors Collection, foi pintado à mão pelo artista Peter McGough, em diálogo com a tradição da écfrase associada a John Keats, em “Ode a uma Urna Grega”. A peça ainda incluiu uma representação de Irene, deusa da paz e da tranquilidade, nas costas, seguindo a mesma lógica das composições das urnas gregas, em que não há uma hierarquia entre as faces (como frente e verso).

 

 

 

Amy Sherald chegou ao MET como artista e obra de arte. Vestindo um look Thom Browne, a pintora estadunidense incorporou a personagem de sua própria pintura “Miss Everything (Unsuppressed Deliverance)”.

 

 

 

Klein Blue is the new black 

 

 

Muitas foram as referências a Yves Klein, especialmente por meio de seu icônico azul, que apareceu em produções de Hailey Bieber e Tessa Thompson. Alexi Ashe Meyers também incorporou a referência num vestido Celine, da coleção primavera 2017, com estampas idênticas às das “Antropometrias” do artista francês: performances polêmicas realizadas na década de 1960, nas quais mulheres nuas cobertas de tinta azul eram como “pincéis”, que se lançavam contra os papeis para estampar suas silhuetas. No contexto do evento, as implicações críticas dessas obras – especialmente no que diz respeito à objetificação do corpo feminino – ficaram por baixo dos panos. 

 

 

 

 

 

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