Tecer significa unir elementos distintos sem eliminar suas diferenças. Cada fio mantém sua individualidade, mas somente adquire sentido quando encontra outros fios. Técnicas têxteis são praticamente a expansão do pensamento humano, talvez por isso que elas antecedem a invenção da escrita ou até mesmo da agricultura.
Foi sobre essa prática ancestral, tão presente ainda na vida contemporânea – tanto para vestuários, quanto para a expressão cultural –, que o Farol Santander escolheu dedicar o tema de sua atual exposição. Sob o título de “Tecituras”, a mostra com curadoria de Denise Mattar traça um panorama sobre a produção têxtil no Brasil, percorrendo as mais diversas linguagens e limites experimentais.
O conjunto intergeracional de artistas reúne desde ícones da história da arte contemporânea, como Hélio Oiticica, Lygia Clark, Leonilson e Mira Schendel, até nomes mais recentes, como é o caso de Jéssica Costa e Laura Villarosa, representadas pela Zipper Galeria.
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Sobre a mostra
No texto curatorial, Denise Mattar narra a evolução dessa linguagem em diferentes tempos históricos. Em alguns períodos e regiões, grandes tapeçarias revestiram palácios, templos e residências aristocráticas. Ao longo do tempo, porém, a consolidação das academias e das hierarquias entre “belas-artes” e “artes aplicadas” deslocou esse e outros fazeres manuais para uma posição periférica na historiografia da arte, associada ao universo doméstico ou às práticas decorativas. Nas últimas décadas, entretanto, a curadora observa o retorno do têxtil às grandes exposições contemporâneas internacionais, como um sintoma do movimento que volta a romper com essas hierarquias entre técnicas no circuito de artes visuais.
“Hoje, o têxtil não precisa mais reivindicar o lugar dele.”
– Denise Mattar
Artistas da Zipper Galeria

Jessica Costa, Sobejos XVIII: Torções, 2025
Os trabalhos de Jessica Costa demonstram que o têxtil deixou, há muito, de se constituir apenas como um suporte ou técnica específica. A artista, que utiliza a tufagem manual, amplia as possibilidades da matéria levando-a para o campo tridimensional, em diálogo com a arquitetura.
A obra apresentada na exposição integra a série “Sobejos”, título que refere-se ao que sobra, ao excedente, ao que é superabundante. Na peça, a moldura de madeira, que a princípio delimitaria o campo compositivo, é transbordada pelos volumes de lã natural. As texturas e relevos já seriam intrínsecos ao material e à técnica utilizados, mas a artista, interessada no potencial pictórico do meio, faz uso de degradês de cores para criar a ilusão de ainda mais profundidade.

Laura Villarosa, Passagem #4, 2024
Já a pesquisa poética de Laura Villarosa se debruça sobre a experiência sensorial a partir de aspectos da paisagem. Na exposição, a artista ítalo-brasileira apresenta a obra “Passagem #4” (2024), que combina diferentes fios com pinceladas de acrílica e resina.
Seu pensamento, ainda que trabalhando com linhas e tecidos, é sempre pictórico. Entretanto, se numa tela a óleo pode-se construir composições com rápidas pinceladas, o bordado implica uma dilatação no tempo.
Por vezes o processo criativo de Villarosa de fato parte da pintura com tinta e pincel, que depois de feita, é fragmentada em pequenas tiras e reconfiguradas em novas composições, mas sob roupagem têxtil. O resultado são imagens levemente abstraídas, que se aproximam visualmente de vistas aéreas, distantes o bastante para reduzir as figuras a pequenos pontos de cor; ou de cenas observadas através da janela de um transporte terrestre em movimento.
Visite a exposição
Tecituras segue em cartaz no Farol Santander até o dia 18 de outubro de 2026. O museu, localizado na Rua João Brícola, 24, no centro de São Paulo, pode ser visitado de terça a domingo, das 09h às 20h.

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