Gunga Guerra: uma pesquisa artística entre conflitos armados e migrações

O artista reúne dez anos de produção em sua primeira individual na Zipper Galeria
Julho 27, 2026
Gunga Guerra: uma pesquisa artística entre conflitos armados e migrações

A história de vida de Gunga Guerra atravessa três países, contextos de repressão, migrações forçadas e sucessivos recomeços. É das memórias pessoais que o artista parte para elaborar sua pesquisa pictórica, que fala de conflitos universais gerados por uma crise humanitária atemporal. E são elas que ajudam a compreender a exposição “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, em cartaz na Zipper Galeria até 1º de agosto de 2026.

 

Conteúdo do artigo:


 

Sobre nascer em tempos de violência

Gunga Guerra – O unicórnio, 2023 – Acrílica sobre tela – 100 x 130 cm

 

Quando nasceu, em 1970, em Lourenço Marques (atual Maputo), capital de Moçambique, o país vivia os anos decisivos da luta pela independência. Desde a década de 1960, impulsionado pela ONU, o movimento anticolonial ganhava força em meio ao cenário internacional do pós-Segunda Guerra Mundial, e Portugal via seu domínio sobre países africanos se tornar cada vez mais difícil de sustentar. Foi nesse ambiente de adversidade que a família Guerra viveu os primeiros anos de vida de Gonçalo, hoje conhecido como Gunga. 

 

O pai, pintor e projetista de estandes para feiras industriais internacionais, mantinha relações com artistas e pessoas ligadas à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), mas evitou qualquer envolvimento direto no conflito por receio das consequências políticas. Com o agravamento dos confrontos, a família abandonou o país às pressas, deixando para trás seus bens em troca da própria sobrevivência. “A gente viveu situações de perigo, de risco de morte”, relata o artista. Embora tivesse apenas quatro anos, ele recorda com detalhes as circunstâncias aterrorizantes perante a ausência de segurança estatal que levaram a vizinhança ao radicalismo como defesa. 

Gunga Guerra – Dano Colateral, 2025 – Acrílica e verniz sobre madeira – 40,5 x 55 cm

  

O primeiro destino foi Portugal. Guerra e sua irmã foram morar com a mãe lusitana por alguns meses. A recepção no país, entretanto, não foi acolhedora. Em meio ao Período Revolucionário em Curso (PREC), desencadeado pela Revolução dos Cravos de 1974, milhares de pessoas vindas das ex-colônias africanas enfrentavam rejeição e eram tratadas como cidadãos de segunda classe. Guerra descreve aquele período como uma “areia movediça”, de instabilidade, e lembra a cidade como um lugar frio e sombrio. “Para mim, em Portugal parecia que nunca era dia. Eu me lembro de lá como uma sombra.”

 

Quando surgiram rumores de que Lisboa poderia ser alvo de bombardeios, a família decidiu que era hora de partir novamente, desta vez rumo ao Rio de Janeiro. Depois da penumbra que associava a Portugal, Guerra encontrou na cidade maravilhosa a “chegada do sol”. Ainda que o Brasil de 1975 vivesse a forte repressão do regime da ditadura militar, ofereceu, sob a ótica infantil, um alívio climático e cultural, ainda que o núcleo familiar se mantivesse em condições modestas em Copacabana e, posteriormente, em Niterói. 

 

As sucessivas rupturas formam o que o artista define como suas “três fronteiras imaginárias” – Moçambique, Portugal e Brasil –, territórios unidos pelo mesmo idioma e fraturados por abismos sociais e políticos.

 

Gunga Guerra – Mico, 2019 – Acrílica sobre tela – 146 x 89 cm

 

 

Da computação gráfica à urgência pictórica

Na sua juventude, durante a transição para a vida adulta, Gunga já realizava alguns trabalhos com pintura, criando painéis, outdoors e muros para algumas lojas. No entanto, precisando de dinheiro, o curso de sua vida profissional o levou para outros caminhos. 

 

Formado em Comunicação Social pela Universidade Estácio de Sá e com MBA em TV Digital e Novas Mídias pela UFF, construiu uma carreira como diretor de arte, animador e coordenador de equipe em emissoras públicas como a TVE Brasil. Foram cerca de dezessete anos dedicados ao universo da computação gráfica e do motion design até que o desgaste gerado pelas pelejas político-institucionais na gestão de TVs públicas levou-o a um esgotamento profissional em 2013.

 

A saída desse mercado foi como incubadora para o resgate de sua produção plástica. Retomando testes iniciados timidamente com pintura, Guerra passou a inscrever seus trabalhos em salões de arte a partir de 2016 e chegou a ser selecionado para a 8ª edição do Salão dos Artistas Sem Galeria, na Zipper Galeria,  em 2017. 

 

O reconhecimento veio com premiações, como o primeiro lugar no Prêmio Arte em Português e o Prêmio André Rebouças de Desenho, Pintura e Xilogravura, da Fundação Cultural Palmares, em 2022.

 

Gunga Guerra – Um dia comum, 2018 – Acrílica sobre tela – 59 x 110 cm

 

 

Suportes experimentais

Pode-se dizer que a pesquisa de Guerra também é movida pelo desafio de testar novas superfícies e pela vontade de fugir das telas tradicionais. O artista relata que tem o costume de observar objetos na rua e imaginar como funcionariam para receber uma pintura. 

 

Muitas das vezes, a escolha de seus suportes e formatos acabam acenando para sua trajetória no audiovisual. Em “Um dia comum” (2018), ele utiliza uma tela de 60 x 100 cm, que propositalmente remete à proporção de uma tela de cinema. Essa referência aos meios de comunicação reaparece em “Drones do Amor” (2026), pintada sobre uma antena parabólica. Apropriando-se de um equipamento projetado para captar sinais de rádio, televisão e internet, o artista faz uma crítica às mídias contemporâneas e ao modo como a violência armada circula como um espetáculo digital.

 

Gunga Guerra – Drones do Amor, 2026 – Acrílica sobre metal (antena parabólica) – 61 x 66 cm

  

Já na série “Dano Colateral” (2025), Gunga recorre à estrutura de trípticos composto por retábulos, que marcaram a história da arte sacra para motivos religiosos, sobretudo cristãos. Ele relata que a concepção da obra veio de uma angústia perante as tragédias humanitárias, especificamente o que ele observava acontecer em Gaza, na atual guerra entre Israel e Palestina, diante da qual ele descreve ter sentido “um avassalador silêncio de Deus perante as situações que acontecem no mundo”. Nas abas laterais, retrata civis e crianças em meio a escombros: “o sagrado está naqueles que estão sofrendo ali”. Caso o espectador feche essas abas, encerrando a visão do bombardeio, ele se deparará com a figura de uma pomba branca do lado de fora da peça.

 

 

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

Os animais são um elemento muito importante em seu trabalho e funcionam como um elo afetivo que Guerra traz de sua origem africana. Ele utiliza o repertório zoológico, inspirado nas tradições orais e nos contos, como analogias para os sentimentos e comportamentos humanos.

 

Essa gênese pictórica se dá em “Briga de Galo” (2016), obra que o artista considera a matriz fundadora de sua poética. Nela, policiais armados fuzilam galos de briga, colidindo o instinto animal com a brutalidade da repressão urbana.

 

Gunga Guerra – Enfurecidos #1, 2017 – Acrílica sobre tela – 114 x 146 cm

 

 

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, que nomeia tanto a sua série de pinturas quanto a exposição na Zipper Galeria, segue a mesma linha de pensamento. O uso do provérbio popular, que ilustra um impasse intransponível, é relacionado por Gunga Guerra à sua própria biografia, que desde o início foi acompanhada da sensação de estar sempre em deslocamento.

Add a comment