Hoje, no Dia Nacional do Livro, a Zipper Galeria convidou quatro artistas representados para compartilhar leituras que reverberam em suas pesquisas. De títulos mais acadêmicos e diretamente relacionados às práticas artísticas até contos infantis. Enquanto dividem suas escolhas conosco, os artistas convidam o público a conhecer um pouco mais dos universos que atravessam seus processos criativos.
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Os Filhos da Meia-Noite - Camille Kachani

A obra-prima do escritor indo-britânico Salman Rushdie, publicada em 1981, Os Filhos da Meia Noite é um dos maiores expoentes do realismo mágico na literatura mundial. O livro venceu o Booker Prize no ano de seu lançamento e foi escolhido melhor livro da história do prêmio duas vezes: em 1993 (Booker of Bookers) e em 2008 (Best of the Booker).
A história se passa quando a Índia declara sua independência do Império Britânico, à meia-noite do dia 15 de agosto de 1947. Cerca de mil crianças nascem nesta primeira hora de liberdade no país e todas ganham poderes mágicos proporcionais à proximidade do instante exato da independência. Quanto mais perto da meia-noite, mais potentes são os dons.
Uma dessas pessoas é Saleem Sinai, nascido exatamente no primeiro minuto da independência. Saleem tem o poder da telepatia e é receptáculo mental de milhares de vozes díspares, o que lhe permite se comunicar com todas as outras crianças da meia-noite.
Na visão de Kachani, a construção de identidade, um dos principais pilares de sua investigação poética, está no cerne da história do livro. Como já definiu a máxima de Jean-Paul Sartre, “a existência precede a essência”. Não existe um modo de ser humano que não seja permeado pelo contexto histórico, geopolítico, familiar, cultural, individual e coletivo do ser. Para ele, o processo de se reconhecer é uma obra em andamento, cujas transformações involuntárias são testemunhadas ao longo do caminho.
“Assim como fez Rushdie em sua escrita, procurei misturar [no meu trabalho] a construção de identidade com a realidade e a fantasia, memórias e sonhos, fatos históricos e delírios”
Peter Pan - Flávia Junqueira

Se a própria história de J. M. Barrie, sobre o menino que se recusa abandonar a infância já seria motivo suficiente para Flávia Junqueira recomendar o livro: visto que sua pesquisa poética se dedica justamente à criação de universos lúdicos capazes de despertar o imaginário fantástico dos adultos, a artista ainda indica uma edição bastante específica de Peter Pan: a versão de luxo, publicada no Brasil pela HarperKids.
Junqueira comenta que se encanta, especialmente, pelo projeto gráfico com ilustrações do estúdio MinaLima, da dupla Miraphora Mina e Eduardo Lima, conhecido pelo design dos filmes de Harry Potter. Ela destaca o trabalho do estúdio de reimaginar o clássico incluindo elementos interativos em papel, como um mapa dobrável da Terra do Nunca, um relógio crocodilo com ponteiros que giram, a sombra do Peter Pan, entre outras surpresas escondidas pelas páginas.
“Folhear essa edição é brincar e isso conversa diretamente com a minha pesquisa. Peter Pan fala de uma infância que se recusa a acabar e de um lugar que só existe porque alguém acreditou nele”
A Invenção da Paisagem - Laura Villarosa

A Invenção da Paisagem (L'Invention du paysage), da filósofa e teórica da arte francesa Anne Cauquelin, explora como a consolidação das leis da perspectiva linear na Renascença foi além da pintura e estruturou o próprio modo como o Ocidente passou a ver, ordenar e conceber o espaço e a natureza.
Para Laura Villarosa, a autora “nos faz pensar que a paisagem não é simplesmente algo que existe diante de nós, mas algo que construímos por meio da percepção, da cultura e do modo como nos relacionamos com o mundo”.
Segundo a artista, esse foi o livro que, desde o início de sua carreira, deu base filosófica à compreensão da paisagem como linguagem e a permitiu entender o tema como “uma forma de pensar”, para além da representação.
O Desejo dos Outros: Uma Etnografia dos Sonhos Yanomami – Pedro Varela

Em O Desejo dos Outros, a antropóloga Hanna Limulja apresenta a visão yanomami sobre os sonhos, entendidos para além de manifestações do inconsciente, e como que conectam as pessoas a outros mundos e seres espirituais. Na comunidade, os sonhos também têm função prática e política, orientando decisões e cuidados cotidianos. Enquanto os xamãs dominam essa capacidade de transitar entre diferentes realidades, no livro, Davi Kopenawa Yanomami critica os brancos por sonharem apenas com o próprio universo. Para os yanomamis, sonhar é ultrapassar os limites do conhecido e aprender com a alteridade.
O artista comenta como o livro se aproxima de sua produção artística: “Na minha última exposição na galeria, apresentei Sonhário, uma obra que tensiona esses dois mundos que conversam: o desperto e o dos sonhos”. A leitura, posterior à produção da obra, o interessa pela coletivização dos sonhos e pela noção de uma realidade que misture os dois mundos, ideia que dialoga com séries anteriores do artista, nas quais a mistura entre real e virtual é bastante nítida.

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