Renascimento: Adriana Duque

6 - 31 Agosto 2019

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No início, a ausência de luz sintetizava o ocaso dos sonhos, a crença desmedida no oculto e nas forças inomináveis. Quando a ausência se converteu em latência, da escuridão absoluta do plano de fundo, paulatinamente, luzes vertidas em tintas matizaram o renascimento de um novo plano do qual surgiu a face gloriosa do homem. A arte ressurgiu com as pulsões do realismo, da simetria e da beleza. Eis que o homem renasceu com a imagem e semelhança dos contornos que a arte clássica greco-romana havia lhe atribuído.

 

Seis séculos após essas mudanças de parâmetro no mundo e nas artes, a artista colombiana Adriana Duque iniciou-se na prática da pintura. A obsessão pelo realismo e pela busca de uma forma de beleza idealizada a levaram a atravessar os tempos históricos para ter a pintura renascentista como fonte de prazer estético e pesquisa. Saltar da pintura para a fotografia foi um passo natural para quem desejava criar seres que saltam do quadro para estabelecer uma relação vívida com o mundo.

 

Ao aportar na fotografia, porém, Duque manteve nas suas estratégias artísticas o domínio pleno das técnicas da pintura, a tal ponto que sua obra hoje tornou-se o ponto de convergência no qual ambas linguagens surgem num improvável e hipnotizante equilíbrio. As obras inéditas presentes em Renascimento, que a Zipper apresenta agora, acrescentam um novo dado em relação a mostra Iconos, realizada aqui em 2014: na busca incansável da expressão mais inquietante e perfeita, agora Duque cria suas "princesas" a partir da colagem de partes de várias faces. Esses seres sincréticos que de forma inquietante nos olham em profundidade existem em plenitude apenas no universo de fabulações da artista. Criadora e criatura têm suas identidades cada vez mais difusas.

            

Para além dessas questões formais bem balizadas na obra de Duque, que conseguem criar uma atmosfera atordoante de proximidade entre nós e suas "princesas", são minuciosamente construídos símbolos enigmáticos que nos convocam à reflexão. Por que essas meninas, princesas, infantas, renascem em 2019, vindas de tempos imemoriais, com esse olhar inquiridor como quem nos estranha e indaga: - Quem és tu? E por que parece que elas respondem em parte essa questão ao portarem fones de ouvido - símbolo de um isolamento voluntário - como se fossem as coroas de outrora? O que renasce em nós quando essa estética renascentista carregada de adornos e ex-votos, vertida de contemporaneidade, nos afronta?

 

Tais questões contribuem para manter a magnética obra de Duque em constante movimento. Cada símbolo construído pela artista, minuciosamente organizado na simetria rigorosa de suas criações, nos ajuda a atravessar temporalidades, a desconstruir a historicidade e sua cronologia para nos conduzir à essência do homem diante de um espelho que o espia e o indaga: - Quem és tu, quem somos nós? E, assim, renascemos a cada novo lampejo desse olhar.

 

Eder Chiodetto