O que é arte?

Da mimesis grega à uma goteira de torneira, a definição de arte permanece múltipla
Abril 29, 2026
O que é arte?

Pensar o que é arte ao longo da história é, inevitavelmente, acompanhar as transformações do próprio modo como o homem se compreende no mundo. Cada época projetou na arte suas inquietações e, ao fazê-lo, redefiniu seus conceitos.


Nesse artigo, vamos buscar traçar um breve percurso por essas transformações, da Grécia Antiga à contemporaneidade, perpassando o pensamento filosófico e prática artística. Para isso, artistas da Zipper Galeria foram convidados a expressar, em suas próprias palavras, o que a arte significa em seus processos e trajetórias. Contextualizando-os com teorias de Platão a John Dewey, evidencia-se como os filósofos e os artistas de hoje dialogam através dos séculos.

Conteúdo do artigo:

 

 

Camille Kachani - Estante romântica, 2026 - Técnica mista 96 x 122 x 36 cm

 

 

O espelho e a mimesis

"A arte é um espelho da vida e sua principal matéria-prima é a incerteza.” – Camille Kachani

 

Se voltarmos às origens do pensamento ocidental, encontraremos na Grécia Antiga a primeira tentativa de dar nome e ordem ao fenômeno que hoje chamamos de arte. Naquele tempo, não se pensava em expressão pessoal do artista, mas em technē, ou seja, habilidade técnica e, principalmente, em Mimesis (imitação).


Para Platão, o primeiro grande mestre a desconfiar das imagens, o mundo em que vivemos já era uma cópia imperfeita do Mundo das Ideias, portanto a arte seria a cópia da cópia. Nesse sentido, o artista seria um mestre das aparências que nos afastava da verdade e por isso deveria ser vigiado.


Mas é com seu discípulo, Aristóteles, que, sem abandonar a ideia de mimesis, o valor da produção artística é reabilitado, sendo entendido como uma faculdade humana criativa e pedagógica. Aristóteles acreditava que o homem sente prazer em imitar e, através desse espelho, ele consegue processar a realidade. A arte seria o que organiza o caos do mundo e nos permite a Catarse, a purificação das nossas próprias emoções.

 

Jessica Costa  - Sobejos XVIII: torções, 2025 - Tapeçaria em tufagem manual com fios de lã natural e moldura em madeira com fundo em acrílico transparente 300 x 135 cm

 

 

A justificação da existência

 

“A arte é um grande paradigma e ainda assim é capaz de dar sentido à existência humana.” – Jessica Costa 


“A arte é uma forma de superar a realidade e combater o óbvio entediante.” – Marcelo Tinoco

 

No século XIX, em meio às transformações trazidas pela modernidade – o avanço da ciência, o enfraquecimento das certezas religiosas e a crescente racionalização da vida –, Friedrich Nietzsche identifica o niilismo, a perda de fundamentos últimos e a sensação de que a vida não tem um propósito. Para o filósofo alemão, a ciência e a moral eram insuficientes para nos consolar diante do abismo da existência.

 

Marcelo Tinoco - Jardim Primitivo, 2025 - Pigmento mineral sobre papel de algodão Edição: 1/6 105 x 170 cm

 


Em “O nascimento da tragédia”, ele olha para a cultura grega e vê na arte a tensão entre o apolíneo (forma, medida, ordem) e o dionisíaco (excesso, embriaguez, caos), forças que, em equilíbrio, permitem ao homem encarar a dureza da da vida. Dessas reflexões, nascem as máximas: “Só como fenômeno estético está justificada a existência do mundo” e “Temos a arte para não morrer da verdade”.

 

Laura Villarosa - Sem título, 2026 - Fios, resina e aquarela 106 x 140 cm

 

 

O invisível e a matéria

“Arte é a melhor ferramenta que eu tenho entre o mundo invisível e o mundo visível. (...) Me interesso pelo que eu entrego ao trabalho e o que ele me devolve, e é nesse caminho que a magia acontece e o trabalho é revelado.” – Laura Villarosa


“Arte é uma ponte entre mundos. É o que impulsiona os meus passos, mesmo quando eu desconheço o caminho. É o mistério e a alquimia, uma transformação da matéria.” – Willian Santos


Avançando para o início do século XX, o mundo da arte passava por rupturas estéticas radicais e pela busca de novas formas de expressão para além da representação fiel do mundo visível. Nesse contexto, o artista precursor da abstração e professor da Bauhaus, Wassily Kandinsky, escreve a célebre “Do espiritual na arte”. A publicação defende que a verdadeira criação artística é aquela que nasce de um impulso espiritual e tem o poder de tocar a alma do espectador, como uma vibração que ressoa entre o criador e quem observa.

 

Willian Santos - Lagamar, 2021  - Acrílica e spray sobre virola naval 58,5 x 109 cm


 

O cotidiano e o conceitual

“A arte é um pneu furado; é aquela goteira insistente na torneira da cozinha, é a chave emperrada na fechadura. A arte nos tira da zona de conforto. O artista não faz arte, a arte que cria o artista” – Felipe Goes


Com as práticas contemporâneas, a definição de arte expande-se para além dos suportes e técnicas. Em 1934, John Dewey lança “Art as Experience”, na qual defendia que a arte não deve ser entendida como algo separado da vida cotidiana, muito menos confinada a museus. Para Dewey, aquilo que distingue a experiência estética seriam os momentos em que percepção, emoção e pensamento se organizam de maneira plena. Assim, a arte poderia emergir em gestos banais, em situações ordinárias, desde que haja uma atenção capaz de transformar o vivido em experiência.

 

 

Felipe Góes -  Pintura 423, 2022  - Acrílica sobre tela 150 x 170 cm

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