O cabelo na arte contemporânea

Quatro artistas contemporâneos, além de Romy Pocztaruk, que recorrem aos simbolismos do cabelo humano para costurar traumas coloniais, ausências e laços afetivos
May 29, 2026
O cabelo na arte contemporânea

A segunda individual de Romy Pocztaruk na Zipper Galeria, intitulada Mega Hair, apresenta um conjunto inédito de esculturas concebidas, sobretudo, com blocos de concreto e fibra sintética usada em apliques capilares. São peças que trazem à lembrança a figura humana justamente por sua ausência. Não há rosto, pele ou membros; ainda assim, os fios são reconhecidos de imediato como índice corporal. Quando preso à cabeça, o cabelo é signo de vitalidade, mas quando separado do corpo, pode ser fantasmagórico e perturbador. O contraste entre a aspereza mineral do concreto e as camadas orgânicas sobrepostas implicam, portanto, estranhamento, justamente na ambiguidade dessa ausência tão corporificada. 


Ao longo da história da arte contemporânea, muitos artistas recorreram aos mais diversos simbolismos dos cabelos para seus trabalhos: desde identidade e memória social até a plasticidade visual. Conheça a seguir quatro obras que marcaram a cena artística tendo o cabelo como matéria-prima. 


Conteúdo do artigo:

 


 

 

Relation in Time (1977), de Marina Abramović e Ulay

 

Entre as performances mais conhecidas do emblemático casal Marina Abramović e Ulay, está “Relation in Time”. Na ação, realizada inicialmente em Bolonha, os dois artistas permaneceram sentados de costas um para o outro, com os cabelos trançados entre si. Durante dezesseis horas, estiveram isolados do público; apenas na última hora espectadores foram autorizados a entrar no espaço.


O cabelo estaria posto aqui como vínculo físico literal. Os fios capilares entrelaçados indicariam a conexão do casal, evidenciando a vulnerabilidade por serem extensões do próprio corpo. Mas, com a dilatação prolongada da performance, passa-se a compreendê-los como objeto de aprisionamento. Com o passar das horas, o peso compartilhado transforma o penteado, tornando visível a dimensão emocional e energética da relação entre os artistas.

 

 

Indigenous Shadow Part.2, Martinique Island (2014), de Edith Dekyndt

 

Na produção da artista belga Edith Dekyndt, materiais aparentemente banais costumam revelar camadas políticas e históricas. Em “Indigenous Shadow Part.2, Martinique Island”, o cabelo é associado às marcas coloniais inscritas sobre corpos e territórios originários. O trabalho consiste em um vídeo em loop que registra uma bandeira feita inteiramente de longos fios de cabelo pretos, flutuando sob a brisa do mar. Dekyndt instalou essa bandeira na costa de Le Diamant, na ilha caribenha de Martinica. Esse é o ponto onde, na noite de 8 de abril de 1830, um navio negreiro clandestino naufragou nas rochas, resultando na morte de mais de cem escravizados africanos. A obra funciona, portanto, como um monumento dedicado a essas vidas perdidas e como repúdio à violência do tráfico transatlântico.

 

A região onde foram feitas as filmagens também é propositalmente próxima ao local de nascimento e sepultamento de Édouard Glissant (1928–2011), filósofo e escritor celebrado por formular conceitos como o de “crioulização” e “todo-mundo”.

 

Em setembro de 2022, a morte da jovem iraniana Mahsa Amini sob custódia da infame “polícia da moralidade” desencadeou uma onda de protestos globais e locais pelos direitos das mulheres, que levaram um trecho desse vídeo a viralizar nas redes sociais.

 

 

As Xifópagas Capilares (dec. 1980), de Tunga


Na obra de Tunga, os cabelos aparecem de maneira recorrente, dentro do contexto alquímico, como substância de transformação, conexão energética e contaminação entre corpos. Nas memoráveis "Xifópagas Capilares", iniciadas nos anos 1980, duas figuras femininas aparecem ligadas por enormes tranças emaranhadas. 


Para além do evento da performance, Tunga criou uma conjuntura ficcional ao redor da obra, escrevendo um texto pseudo-científico e poético que tratava as Xifópagas Capilares como um mito antigo de uma cultura esquecida. Segundo a narrativa do artista, essas criaturas compartilhavam não apenas o cabelo, mas pensamentos, sonhos e fluidos vitais.


A partir do termo “xifópaga”, que se refere a gêmeos siameses, a obra lida com o conceito do Doppelgänger, a ideia de olhar para o outro e ver a si mesmo. Para Tunga, o cabelo possui um estatuto especial por ocupar uma posição tênue entre a vida e a morte: cresce continuamente, pode ser cortado sem dor, persiste após a morte e conserva traços de identidade do indivíduo.

 

 

Unland (1995-98), de Doris Salcedo

 

Para criar a série “Unland”, Doris Salcedo passou anos viajando pelas zonas rurais da Colômbia e conversando com órfãos e mães que testemunharam o assassinato ou o desaparecimento forçado de seus familiares, causados pela violência da guerra civil no país. 


O resultado foi a criação de esculturas compostas por metades de mesas domésticas antigas desalinhadamente emendadas. Criando micro-perfurações nas madeiras desses móveis, ela passou milhares de fios de cabelo humano, provenientes de um cabeleireiro colombiano local, misturados com fios de seda. O processo foi tão lento e desgastante que a artista levou mais de um ano para concluir cada uma das três mesas, ainda que tivesse uma equipe de assistentes. Salcedo faz do processo de criação da obra um ato de devoção à memória de seus retratados.


 

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