Com a chegada do inverno no dia 21 de junho, os dias ficam mais curtos e as temperaturas mais baixas. A transformação da paisagem no período da estação também transborda para nossos hábitos e percepção do entorno.
Inspirados por essa sensação, contactamos trabalhos de artistas que investigam estados de vulnerabilidade e as diferentes formas pelas quais corpo e paisagem respondem às transformações do ambiente.
Giovani Caramello

Giovani Caramello - Refúgio, 2026 - Resina poliéster e tinta acrílica - 60 x 21 x 12 cm

Giovani Caramello - Abrigo, 2026 - Resina poliéster e tinta acrílica - 65 x 20 x 10 cm
Quando as temperaturas caem, é comum que sejam acompanhadas de uma queda nos níveis de serotonina, o que influencia nosso comportamento tendendo a uma disposição mais introspectiva.
A obra de Giovani Caramello não tem cenário, a representação infantil é deslocada de qualquer contexto. A pequena escultura de um menino dentro de um suéter de gola alta, com as mãos nos bolsos e os olhos fechados é suficiente para projetarmos cenários e circunstâncias pessoais para o personagem.
A escala reduzida destaca tamanha delicadeza do artista, mas também o caráter melancólico do trabalho, afinal reforça a leitura de um corpo que se encolhe para evitar contato com o mundo. A postura é retraída a fim de encontrar, como sugere o título, refúgio em si mesmo.
Janaina Mello Landini

Janaina Mello Landini - Ciclotrama 367 (célula piramidal) , 2024 - Fios de alumínio, com diâmetro de 2 mm - 200 x 100 cm
“Ciclotrama 367 (célula piramidal)”, de Janaina Mello Landini, integra a extensa pesquisa da artista que aproxima visualidades neurais e estruturas botânicas. Produzida em fios de alumínio, a escultura remete a uma árvore despida de sua copa, imagem característica dos períodos invernais. O próprio metal, frio ao toque, reforça essa leitura.
A obra de Landini traça um paralelo entre os ciclos da natureza e os movimentos de introspecção que permeiam a experiência humana. Afinal, assim como o menino de “Refúgio” se volta para si diante do frio, as árvores decíduas dispensam temporariamente suas folhagens para concentrar energia na preservação de suas estruturas vitais.

Janaina Mello Landini - Ciclotrama 353 (bosque neural) , 2024 - Fios diversos sobre linho - 200 x 200 cm

Janaina Mello Landini - Ciclotrama 178 (palíndromo) , 2020 - Corda artesanal sobre tela - 125 x 260 cm
Adriana Duque

Adriana Duque - Niña y Cordero (da série Retratos Blancos), 2026 - Pigmento mineral sobre papel de algodão - 108 x 90 cm
A obra “Niña y Cordero”, de Adriana Duque, é envolta em uma atmosfera carregada de emoção, com uma artificialidade da cena que contrasta com a fidelidade própria da linguagem fotográfica. Baseando-se nas fantasias austeras dos contos de fadas e na iconografia da realeza europeia, a artista brinca com a imaginação e faz um retrato psicológico bastante enigmático.
A ambiguidade da expressão da menina, que não explicita seu estado emocional, mas transparece um ar gélido, gera certo distanciamento em relação ao espectador. O cordeiro, símbolo de pureza, enfatiza a dimensão alegórica da cena, enquanto a monocromia branca, que se estende por todos elementos da imagem, pode nos lembrar a frieza das paisagens cobertas por neve.
A obra aproxima-se do imaginário de inverno sem representar a estação, mas recorrendo às suas paletas e temperaturas psíquicas.
Marcelo Tinoco

Marcelo Tinoco - Avalanche (da série Hiper), 2013 - Impressão fotográfica montada em metacrilato - 110 x 215 cm
A cena apresentada na obra “Avalanche”, de Marcelo Tinoco, confunde pessoas e cães que se misturam em meio à neve. O olhar percorre a imagem sem encontrar um ponto de foco, sendo a todo tempo atraído pela multiplicidade de acontecimentos simultâneos. O excesso de elementos e as intervenções digitais do artista faz da imagem, originalmente fotográfica, beirar o abstrato e dissolver as identidades particulares de cada elemento.

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