Desde os primeiros retratos de colonizadores europeus no século XVI, a paisagem brasileira foi deliberadamente apresentada ao mundo por um olhar estrangeiro que instituiu um imaginário exótico sobre o país que perdura até os dias de hoje. Do Éden intocado de exuberância infinita ao território selvagem a ser domesticado, a perspectiva colonial reduziu as subjetividades de uma nação tão complexa, miscigenada e de tamanho continental, cuja história antecede em muito a invasão portuguesa.
A presente mostra, contudo, propõe romper com essa tradição de distanciamento, partindo de um ponto de vista situado no território em questão e descartando a paisagem-espetáculo. Um Brasil observado por quem o habita, com suas dores e conflitos, mas também com seus prazeres, afetos e imaginações.
O percurso começa justamente com o gênero que mais contribuiu para a formação desse imaginário exotizado: a paisagem. Nas telas de Miguel Chiquitano, o tema remete à tradição que fascinou os viajantes europeus durante o período colonial, mas a densidade da vegetação, o detalhamento das folhagens e atenção às cores, denunciam que a composição só poderia ser construída a partir da convivência próxima com a floresta, vínculo que dificilmente se daria de um olhar de fora. Suas pinturas eliminam a linha do horizonte, e sem ele. E sem horizonte, não há distância: a contemplação é conduzida para dentro da mata, para o emaranhado de raízes e sombras.
A revisão decolonial segue na obra “Mundus Hodiernus”, de Camille Kachani, na qual o artista reconstrói um mapa múndi, inspirado pelo contato com um do século XVII que representava o chamado “mundo moderno”. Os vastos oceanos azuis são compostos por cordas náuticas, miçangas e fragmentos de azulejos encontrados em antiquários de Lisboa, alguns datados de cerca de 1750. Por meio desses materiais, Kachani revisita os processos de colonização, pondo em questão a ideia de “história oficial” e revelando como a cartografia participou da construção de narrativas que organizaram e hierarquizaram o mundo.
Nas fotografias de João Castilho, a cor ocre-avermelhada, próxima da ferrugem e do minério, afasta a flora brasileira do exotismo tropical vendido no imaginário exterior. Já a escultura de Marco Tulio Resende, composta por madeira e barro de diferentes municípios mineiros, evidencia as potencialidades discursivas das matérias, que são carregadas de trabalho e memória.
Adiante, as fotografias da série “Cabanagem”, de André Penteado, trazem à superfície conflitos históricos brasileiros pouco populares. O título remete à Revolta da Cabanagem (1835-1840), que ocorreu na Província do Grão-Pará, uma das rebeliões mais violentas da história do país, quando populações negras, indígenas e ribeirinhas se levantaram contra domínio econômico dos portugueses na região amazônica, que persistiu mesmo após a independência do Brasil. Após os revolucionários matarem o governador da província e tomarem o poder por um ano, o movimento foi violentamente reprimido pelo governo imperial, resultando em mais de 30 mil mortes. Apesar de seu perfil popular e de sua escala, a sua história é virtualmente desconhecida no Brasil. Ao visitar igrejas coloniais em áreas amazônicas que testemunharam parte dos conflitos, o artista encontrou um santo envolto em papel pardo e outro com a face desfigurada, que deram origem aos registros.
A camada do conflito reaparece em chave mais recente na xerografia "Sufoco" (1979), de Mario Ramiro, realizada quando o país ainda vivia sob os efeitos da ditadura militar. Pioneiro do uso de impressões xerográficas e logo depois integrante do coletivo 3NÓS3, Ramiro registra um corpo comprimido contra a superfície da máquina, num gesto em que a precariedade técnica do meio se faz medida do cerceamento político. A imagem multiplicada em série inscreve na própria reprodução a sensação de asfixia que dá título ao trabalho.
No presente, a construção do território avança para o espaço urbano nas pinturas de Ian Salamente. Em um contexto em que as periferias brasileiras são fetichizadas, o artista as toma como pretexto para composições marcadas pelo afeto. Inspirados por familiares, amigos e vizinhos, os personagens que habitam suas pinturas aparecem em gestos cotidianos de cuidado e convivência. O pequeno monte de sal ao fundo faz referência à cidade natal do artista, Cabo Frio, cuja história foi construída pela produção de sal, atividade central da economia local por gerações.
Essa atenção ao Brasil habitado se prolonga nas pinturas de Rodrigo Cunha, que recolhe o país na escala do cotidiano e do interior doméstico. Em telas de tonalidades rebaixadas, figuras solitárias surpreendidas em poses contidas dividem o quadro com paisagens emolduradas dentro da própria pintura, de modo que a vista ampla, quando comparece, já está reduzida à condição de imagem pendurada na parede.
Outras obras da exposição levam a paisagem para o campo da fabulação. Em suas composições digitais, Marcelo Tinoco parte da fotografia para reinventar tais cenários naturais por meio de cores intensificadas, contornos acentuados e intervenções que misturam realidade e fantasia. Nas pinturas de Felipe Góes, pinceladas expressivas e paletas vibrantes criam paisagens de “não-lugares”, que fazem da natureza uma experiência sensorial. Já Flávia Junqueira constrói suas instalações justamente em lugares associados ao imaginário turístico brasileiro, como o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses ou o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, grandes “cartões-postais” do Brasil, mas deslocados em uma dimensão lúdica com seus icônicos balões e cataventos.
Por fim, a fotografia de Rodrigo Braga projeta a paisagem para um horizonte mítico. Nascido na região amazônica, o artista desenvolve há mais de vinte e cinco anos uma pesquisa sobre as relações entre os seres vivos e o ambiente que os circunda. Na imagem, o ovo, figura arquetípica associada ao nascimento e à transformação, aparece como metáfora de um tempo presente em combustão, marcado por tensões e urgências, mas ainda capaz de gestar futuros possíveis.
Em conjunto, as obras discorrem sobre como as imagens do país foram historicamente construídas e continuamente reinventadas. Se por séculos o Brasil foi servido como iguaria à fome colonial, nessa exposição os artistas reivindicam a posição de quem observa a partir de dentro. Dessa posição, emerge a densidade de um território assumido em sua própria complexidade.

